Profissionais em missão

Data de publicação: 25/11/2016


Profissionais de saúde do Rio de Janeiro levam, voluntariamente, atendimento médico e o amor de Deus para quem mais precisa

 

Por: Nathan Xavier

Qual é o principal motivo ao escolher uma profissão? Apesar de alguns citarem o dinheiro como fator principal, a maioria sente vontade também de oferecer o melhor aos outros, dentro da área que sente prazer em realizar. Dentre diversas áreas, a educação e a saúde são as primeiras a serem lembradas no quesito “ajuda ao próximo”, afinal, lidam diretamente com a formação humana, junto com os pais, no caso do professor, e com uma vida saudável, no caso dos profissionais da saúde. Infelizmente, na realidade atual, apenas uma minoria tem acesso a bons profissionais, em escolas particulares. E o caso da saúde é ainda mais grave, pois equipamentos são caros e os anos de estudo fazem com que o valor de uma consulta particular seja fora da realidade para uma grande parcela da população. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), ligada à Organização das Nações Unidas, cerca de 1,3 bilhão de pessoas de todo o mundo não têm acesso a atendimento de saúde por falta de condições para pagar por esse serviço.

Observando a realidade diária, um grupo de profissionais da saúde do Rio de Janeiro resolveu colocar a mão na massa e formalizar um projeto que une evangelização e atendimento médico e odontológico. A iniciativa partiu de um casal de enfermeiros de São Gonçalo, município da região metropolitana do Rio de Janeiro, Carlos Alexandre e Andrea Marcilio. “Começamos com um trabalho na nossa paróquia, visitando famílias carentes da nossa região, rezando e levando cestas básicas. Convidávamos as pessoas a irem para o grupo de oração e participar da missa. Logo começamos a convidar outros profissionais católicos para fazer esse trabalho conosco”, afirma Andrea. Por serem da área da saúde, não demorou para colocarem seu conhecimento a serviço de quem necessitava. Em parceria com congregações religiosas, dioceses e arquidioceses que oferecem estadia e alimentação, o Missão com Profissionais já foi para o Haiti, África e México, além das missões realizadas em território nacional: o próprio Rio de Janeiro, além de Amazonas, Ilha de Marajó, Rio Grande do Norte e São Paulo.

Saúde e fé – O atendimento varia conforme a estrutura local. “No Haiti, por exemplo, temos uma estrutura boa, pois ficamos na casa dos Franciscanos da Providência, em Porto Príncipe, e lá já existem um ambulatório e um consultório dentário. Conseguimos fazer mais atendimentos e algo diversificado e com mais profissionais, envolvendo consultas médicas, enfermagem, extração de dente, obturações. Mas quando não temos essa estrutura, levamos um consultório portátil e atendemos as emergências e prioridades. Quando não temos nada mesmo, nem o consultório portátil, fazemos palestras educativas em relação à saúde, além de escovação e aplicação de flúor. Se temos uma psicóloga, enquanto alguns jovens esperam atendimento, a profissional estará lá falando sobre sexualidade com eles, por exemplo”, explica Andrea.

Mas o trabalho vai além do atendimento em saúde. “Enquanto um médico está atendendo, outros membros da equipe, que consideramos verdadeiros missionários leigos, estão nas casas, conversando com as pessoas, com grupos de oração ou grupos de ajuda. Se tiver alguém acamado, eles levam o médico na casa da pessoa. Queremos levar o atendimento em saúde, mas, enquanto tratamos uma ferida física, procuramos também falar do amor de Deus com as pessoas.”

Os missionários profissionais sempre iniciam e terminam o dia com uma oração ou missa em conjunto com toda a população que irão atender. “Aquela comunidade precisa saber que, antes de sermos um profissional, somos missionários. Então a gente canta com eles, reza, depois é que começamos o atendimento”. Logo, o Missão com Profissionais não se restringe aos profissionais da saúde. “Uma pessoa que canta, por exemplo, é muito necessária nos momentos de oração. Também precisamos de gente para fazer a triagem, organizar as filas e as pessoas. Na África ou no Haiti, por exemplo, fizemos quase 500 atendimentos diários, por isso precisamos sempre mais de profissionais generosos para participar dessa missão”, afirma a enfermeira.

Ação missionária – São quase 40 profissionais cadastrados na lista de Andrea, porém, apenas dez por vez em cada missão, que costumam ficar em torno de 15 dias em cada local. O número limitado ajuda na logística: “Pelo menos dez dias corridos no local é um tempo bom para realizar a missão. No Haiti, ficamos um pouco mais, quase um mês, mas sempre dependemos da disponibilidade dos profissionais de saúde. Procuro levar pelo menos um enfermeiro, um médico e um dentista. No Marajó, chegamos a levar 16 profissionais, mas nos dividimos em dois grupos, que foram para comunidades diferentes”, conta Andrea.

Para fazer parte do Missão com Profissionais também é necessário, além da disponibilidade, uma boa preparação, pois a realidade sempre é desafiadora. “A pessoa que entra em contato comigo querendo participar tem que, obrigatoriamente, participar de uma paróquia. A gente conhece a pessoa e o tipo de trabalho que desenvolve em sua comunidade. Depois fazemos uma missão com ela aqui no Rio mesmo, algo pequeno, para conhecermos melhor o futuro missionário no campo de missão, para não termos problemas futuros de adaptação e modo de trabalho, lembrando sempre que nosso foco é a evangelização”, explica.

Andrea revela que gostaria de fazer mais missões no ano, mas conciliar a agenda dos profissionais e a situação financeira acaba por limitar a ação. “Não temos patrocínio, então buscamos parceria com casas de missão locais. Como fazemos parte da RCC (Renovação Carismática Católica), geralmente ficamos nas casas de pessoas do movimento, mas estamos abertos a qualquer comunidade que queira nos receber. Na África, ficamos na casa de missão da RCC, em Uganda, mas fomos a algumas comunidades onde os padres nos acolhiam em suas residências. No México, ficamos na própria Arquidiocese; e, no Lixão de Gramacho, no Rio de Janeiro, ficamos com os Franciscanos.” Ainda assim o dinheiro esbarra na hora da compra das passagens. “Quando chamo um dentista para doar dias da vida dele, geralmente doam as férias, mas deixa de receber honorários fechando seu próprio consultório. Custear as passagens seria o mínimo”, afirma a enfermeira. A solução é vender camisetas e fazer campanhas para cobrir as despesas com passagem. Fazemos como o bom samaritano, da parábola contada por Jesus no Evangelho de Lucas capítulo (Lc 10, versículos de 30 a 37), onde Cristo ilustra que a compaixão deveria ser aplicada a todas as pessoas, colocando a definição de próximo num contexto mais amplo, naquele que mais necessita.

Ensinar e aprender – O próximo local que receberá o Missão com Profissionais já está agendado: em janeiro de 2017 voltarão à Ilha de Marajó. “Já estamos montando a equipe. Ano que vem também voltaremos para o Haiti e estamos com pedido para Uganda e Somália, mas precisaremos de patrocínio para isso.” As dificuldades são comuns em todo trabalho de missão, mas Andrea acredita que a fé, vindo em primeiro lugar, deixa as coisas muito mais tranquilas, e conta um momento de tensão vivido no Haiti. “Lá não tem luz, é tudo com gerador. Tínhamos uma gestante que começou a passar mal à noite e pegamos um carro para levar para um hospital. Ficamos horas no carro porque os hospitais não recebiam. Até que a bolsa dela estourou e, sem muitos recursos, sem luz, terminamos por fazer o parto ali no carro mesmo. Foi muito tenso, mas graças a Deus deu tudo certo. São situações que passamos, inusitadas, e geralmente dá tudo certo. Mesmo com as dificuldades, vale a pena. A maior alegria é servir o outro. Quando pensamos que vamos nos doar, ensinar, ao contrário, a gente vai lá aprender. E é uma alegria poder aprender com aquela pessoa que só tem o amor para lhe dar em troca. É como tocar as chagas de Jesus, e é muito bonito encontrar com Cristo naquele irmão, que está sofrendo, que está esquecido, está sujo, essa é a grande alegria, isso é o que vale a pena.”





Fonte: FC ediçao 970-OUTUBRO 2016
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Medo do doutor?
Como ajudar as crianças a superarem o receio de consultas médicas e odontológicas.
Navegue com segurança
Viver no ambiente digital abre novos horizontes e possibilidades, mas requer cuidados
O melhor alimento para o bebê
O aleitamento materno é uma unanimidade mundial. Todos os profissionais de saúde reconhecem
Hora do pesadelo
Pesadelos são ruins em qualquer idade, mas os pais ficam mais angustiados quando são seus filhos.
Viver bem dentro de casa
Uma família unida enfrenta e supera os desafios da vida com maior facilidade.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados