Reis-filósofos

Data de publicação: 06/02/2017




Que tal ouvir o velho sábio, sua sabedoria pode acalmar ímpetos, paixões e situar numa visão de vida mais ampla para além do ser criança, do ser jovem e do ser adulto


Por: Ivanir Signorini*

Nascemos sem saber como as coisas são. Não sabemos falar. Não sabemos como funciona o corpo. Não conhecemos hábitos de higiene, de alimentação etc. Somos uma espécie de papel em branco – e a experiência é uma caneta que nos vai preenchendo com suas tintas, tintas de vivências. Mesmo essas experiências não as fazemos sozinhos. Outros, mais experientes, nos auxiliam e, imitando-os, vamos aprendendo o que eles aprenderam e já vivenciaram.
Nas tradições e nos textos de filosofia, a experiência é algo que adquirimos vivenciando individualmente. A soma dessas experiências individuais forma o que chamamos de cultura (a ideia de ethos em grego), passada às gerações futuras. As experiências vão desde as informações técnicas ligadas às ciências até o controle das emoções, sentimentos. A vivência experimentada e recebida por um indivíduo ao longo dos anos o torna experiente e sábio.
Para as sociedades antigas, quanto maior a idade, mais sábia a pessoa é, por isso, se dava tanto valor aos velhos. Platão, no livro A República, demonstra que quem tem de governar uma cidade deve ser o Rei-filósofo. E quem é o Rei-filósofo? Aquele de idade avançada que, na formação e educação, passou pelas experiências da infância, juventude, fase adulta e cuja vivência o tornou sábio no controle das emoções e sentimento, nos conhecimentos técnicos, nos assuntos da sociedade e assim por diante.

O dono da sabedoria − Platão ainda diz que “devemos aprender durante toda a vida, sem imaginar que a sabedoria vem com
 a velhice”. 
O idoso sábio consegue olhar a criança e corrigi-la; sabe entender o erro e, por isso, ser mais tolerante às suas peripécias. O idoso sábio sabe da importância de o jovem ir atrás de uma boa formação profissional, de estudar, preparar-se; consegue entender os sonhos de transformar o mundo quando paixões e “hormônios” estão à flor da pele; reconhece toda garra e agitação, mas também sabe do exagero e dos riscos de o jovem se perder nas aventuras a que a fase o impele. Imagine as crises da primeira decepção amorosa de um adolescente! O idoso sábio não tem dúvidas de que “há vida pós-decepção amorosa.” O idoso sábio passou pela maturidade do adulto. Conhece a ânsia que o impele a fazer coisas, ganhar dinheiro, acumular, produzir, produzir... E sabe que isso é fase que o tempo e a idade vão refreando e conduzindo até que ele se pergunte: “Pra que fiz tudo isso?”.
Por passar tudo isso o idoso é, por força da vida, um sábio. O sábio tem outro olhar para o mundo, para os bens materiais, para o dinheiro, e até entende a ânsia própria do adulto, essa ânsia de posse, status social, poder... Mas a experiência o refreia e o modera a ponto de não se importar muito com isso. É sábio no sentido de perguntar-se: “Pra que isso? Qual o sentido disso?”. E conclui que o que importa é viver bem, com saúde, moderação, amigos, família, não alimentar mágoas e raivas ou brigar por qualquer coisa. O que lhe interessa são as boas amizades, companhias, harmonia, cordialidade... Tudo isso pode vir adornado por riqueza e casa de luxo, como também de pobreza, simplicidade, casa modesta. Interessa-se pela posse até o ponto em que ela significar dignidade. Acima disso, já considera ostentação.

Ouvir a sabedoria − Ao contrário das culturas primitivas, que viam no velho a figura que carrega a experiência que ninguém mais tem, nossa sociedade descarta e desvaloriza o idoso, no trabalho, na mídia, no ensino, na própria família. Observe os programas de televisão, as novelas: com raríssimas exceções, a mãe parece ter a idade da filha. Nossa cultura cultua o novo, o belo, o que não envelhece nunca. Mas o novo é passageiro, e ele precisa da experiência que só os anos trazem. E aí a ironia: quando uma pessoa atinge esse estágio e adquire a experiência é considerada velha e, por isso, é descartada. Aliás, a própria palavra velho vem sendo abolida de nosso linguajar, do nosso vocabulário. Estamos substituindo-a por terceira idade, idade de ouro e até melhor idade! – termos mais em sintonia com o marketing, com o consumo...
Bom, o que quero dizer com tudo isso é que estamos preocupados em demasia com o produzir, o ter e o acumular e por quem produz. Como o idoso já não produz, é descartado, abandonado. Que tal pararmos para ouvir o velho sábio. Sua sabedoria pode acalmar ímpetos, paixões e situar-nos numa visão de vida mais ampla para além do ser criança, do ser jovem e do ser adulto. Apreendamos dos povos antigos e dos filósofos e bebamos da fonte da experiência. Aprendamos com Platão e submetamos muito do nosso modo de agir, pensar, dizer, sentir e viver ao sentido de vida que provém do olhar e do viver do idoso sábio, dos “Reis-filósofos de nossa República”.


*  Ivanir Signorini é graduado em Filosofia e Teologia, mestre em Filosofia e professor no Departamento de Filosofia do  Centro Universitário Assunção (Unifai).




Fonte: 940 - FC Abril 2014
Postado por: Família Cristã




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