Armadilha sobre rodas

Data de publicação: 03/03/2017

Por César Vicente



Se fossem automóveis, todos os andadores infantis do País já teriam sido convocados para um recall e retirados de circulação.




Em 2009, em Passo Fundo (RS), um bebê de menos de um ano de idade rolou quatro degraus de uma escada, bateu a cabeça e, vitimado por um edema, morreu em menos de 24 horas. No ano passado, em Jequié (BA), outro bebê, de nove meses, após cair em quatro lances de uma escada, também morreu, vítima de uma fratura na coluna cervical – o pescoço. O que ambos tinham em comum? Além da natural falta de noção do perigo, eram impulsionados por um equipamento aparentemente inofensivo, até “fofinho”, como imaginam algumas pessoas menos informadas, mas potencialmente letal: o andador infantil. Já proibido em alguns países como o Canadá, e alvo de intensos movimentos na Europa e nos Estados Unidos onde se visam a implantar leis semelhantes à canadense, o produto recentemente também entrou na alça de mira da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que, em 2013, lançou uma campanha pela sua proibição. E não sem motivos para lá de convincentes.
Segundo a instituição, que congrega 16 mil profissionais, esses equipamentos são responsáveis por pelo menos um caso de traumatismo para cada duas a três crianças que o utilizam e em um terço destes casos as lesões são graves. Os andadores dão aos bebês uma independência à qual ainda não estão preparados, pois ganham acesso a objetos e locais perigosos – fogões, piscinas e produtos químicos – que podem provocar queimaduras, afogamentos e intoxicações. Os pediatras ainda alertam: eles podem deixar de estimular certos músculos dos membros inferiores da criança e atrasar seus primeiros passos. Isso porque bebês habituados ao equipamento engatinham menos, têm resultados inferiores em testes de desenvolvimento motor, levam mais tempo para ficar de pé e para caminhar sem apoio. A falta de exercício físico proporcionado pelo andador também é prejudicial, porque, embora o equipamento dê mais mobilidade à criança, ela gasta menos energia para alcançar o que lhe interessa. Em resumo, como diz Eduardo da Silva Vaz, presidente da SBP, “andadores são usados na melhor das intenções em quem ainda não está com seu desenvolvimento neuropsicomotor habilitado para andar. Quando a criança estiver pronta, vai fazê-lo naturalmente”.

Lobby?! – Mal comparando, se fossem automóveis, todos os andadores do País já teriam sido convocados para um recall e retirados de circulação. O que esteve a ponto de acontecer. Rui Wolf, pediatra que atendeu a criança de Passo Fundo, entrou com denúncia no Ministério Público, e a juíza Lizandra Villarroel, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, em resposta a uma ação civil pública elaborada pela SBP, decretou uma liminar proibindo a venda de andadores para crianças em todo o País. A liminar foi cassada pelos fabricantes, mas sensibilizou o deputado Jorginho Mello (PR-SC), que propôs o Projeto de Lei 4.926/13 proibindo definitivamente os andadores. O autor do PL citou um estudo da Aliança Europeia para Segurança Infantil, que aponta os andadores como o utensílio infantil que mais provoca lesões em bebês, 90% delas envolvendo a cabeça. Em 2002, segundo um relatório, 2,3 mil crianças foram hospitalizadas no Reino Unido por esse motivo.
Após ser analisado, no Congresso Nacional, pelas comissões de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio; Seguridade Social e Família; e Constituição e Justiça e de Cidadania, o projeto foi, estranhamente, rejeitado. Cedendo ou não ao lobby dos fabricantes, os membros dessas comissões “não consideraram haver necessário embasamento científico para que se imponha uma proibição generalizada de funcionamento sobre um segmento econômico, que arcará com grandes custos econômicos e impactos sociais”. A maior causa dos acidentes, segundo o relator da proposta, deputado Luiz Henrique Mandetta, (DEM-MS), é que crianças nessa idade estão mais sujeitas a riscos por falta de acompanhamento ou negligência de adultos, independentemente de estarem ou não utilizando andadores. Para o deputado, bebês com andadores devem ser acompanhados e receber a mesma atenção que recebem os bebês que não os utilizem.

Sem controle
– Ninguém questiona que crianças, com ou sem andadores, devem receber atenção 24 horas por dia e que, certamente por falta de informação, alguns pais entendem que colocar um bebê em um andador é uma forma cômoda, ou mesmo preguiçosa, de mantê-lo protegido. Mas eles precisam ser alertados do perigo a que expõem suas crianças. Seria o caso de perguntar a esses pais se eles teriam coragem de entregar a chave de um automóvel a uma criança de dez anos. Pois, proporcionalmente, segundo os pediatras, é algo muito semelhante a isso que eles fazem ao deixar seus bebês em um andador: um veículo sobre rodas, sem freios, que pode atingir a velocidade de até 1 metro por segundo. E pilotado por um ser humano com menos de um ano de idade...




Fonte: FC edição 945 -Setembro 2014
Postado por: Família Cristã




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