Páscoa é fogo

Data de publicação: 12/04/2017

Por Fernando Altemeyer Junior

Páscoa é tornar-se indiferente ao desnecessário e ficar disponível ao essencial que é Deus


Antigamente, na noite pascal, os camponeses da Rússia, Bielorrússia, Ucrânia e povos da Polônia e germânicos levavam para seus lares o fogo novo abençoado naquela noite santa. Através das trevas de caminhos íngremes e pelas montanhas, aquelas pequenas luzes se espalhavam em todas as direções, e a noite das desolações e dos sofrimentos cotidianos, dos traumas, medos, fomes, guerras era atravessada pela esperança. Assim cada família acendia seu fogão a lenha, seu candeeiro, uma vela na janela para iluminar o mundo. Esse é o sentido mais original da tradição cristã: esperar o Cristo vivo e ressuscitado com a vela nas mãos para mostrar que, apesar de tanta violência e desolação, teimosamente estamos vigilantes e esperando Jesus para sentar com ele e fazer a ceia da comunhão. Páscoa é um fogo novo que ilumina e aquece pelo encontro com o Cristo vivo que se deixa ver pelos seus amados. Não é magia nem alucinação. É experiência vital de quem apareceu em todo o seu resplendor divino. Páscoa é a morte da morte.
A noite da Vigília Pascal é a noite das noites. É o grande sacramento da vida cristã. É o centro do Ano Litúrgico e a mais bela reunião daqueles que seguem Jesus, o Cristo. É como se todos soubessem que a Glória de Deus estivesse dormindo sobre palhas, esperando o fogo divino para inflamar as coisas criadas e renovar a face da terra. A paz e o amor de Deus presentes nos corações humanos, mesmo duros e fechados, espera a hora da Vigília para “comemorarmos a Páscoa do Senhor, ouvindo sua palavra e celebrando seus mistérios, podemos ter a firme esperança de participar do seu triunfo sobre a morte e de sua vida em Deus” (Missal Dominical – exortação inicial do celebrante na Vigília, p. 307). Páscoa é fogo que queima impurezas e faz confessar na fé o que é o mais antigo testemunho da Igreja: “O Senhor ressuscitou real e verdadeiramente e apareceu a Simão” (Lc 24,34).

Morte e o amor − Esse clarão de luz que acende em nosso coração e na nossa vida o desejo das coisas do céu é expresso por meio de símbolos litúrgicos e populares. Os litúrgicos: fogo novo, o Círio Pascal, os grãos de incenso cravados no Círio, o canto do Exultet, a igreja em trevas e os cristãos com velas nas mãos, as oito leituras e a proclamação do Santo Evangelho, a liturgia batismal e a bênção das águas, a ladainha dos santos e mártires, o Credo e as promessas do batismo,  enfim, a Liturgia Eucarística. Os populares: coelho, chocolate, ceia pascal, colomba, bacalhau etc. Páscoa é o fogo que reúne a Igreja como família ao redor de uma mesa, rezando, agradecendo, pedindo, cantando e também aprendendo que a morte e o amor caminham juntos. Assim diz o sacerdote ortodoxo Jean-Yves Leloup: “Nascer, florescer e morrer. Mas não sem antes ter vivido. Não sem antes ter amado”.
Ao celebrar na Quaresma a via-sacra de Jesus, chegamos à Páscoa como uma passagem e transfiguração do que estava morto em nova vida. A palavra grega Anastasis quer dizer ana: “no alto”, e stasis: “colocar-se”, ou seja, “colocar-se em pé, ir ao alto, buscar nova consciência e um lugar junto de Deus”. A palavra latina para Anastasis é Ressurrexit, “ressurreição, elevação, penetrar com profundidade o próprio eu para estar em Deus, sem distração ou medo”. Páscoa é tornar-se indiferente ao desnecessário e ficar disponível ao essencial que é Deus. Viver essa esperança, mergulhados na provisoriedade. Diz padre José Comblin: “O definitivo entrou no provisório e é aí que o encontraremos. O Reino de Deus não é outra coisa senão esta humanidade que passa de geração em geração, em que nasce e morre, cada um por sua vez. Deus estabeleceu sua aliança justamente aí. Esta vida não é apenas uma provação para a salvação dos eleitos. É o lugar da aliança. Não se deve lamentar o provisório. Não é apesar dele, mas por ele que caminhamos para a eternidade” (O Provisório e o Definitivo, São Paulo: Herder, 1968, p. 159-160).
Deixando que o fogo do Cristo Vivo e Ressuscitado abrase nosso coração e nossa inteligência, o símbolo torna-se real. Não é mais algo folclórico ou legendário. Não é mais só um rito ou mito. Torna-se sacramento vital. Cada um de nós depois da Vigília se faz uma pequena faísca de Cristo no mundo. Ficamos ligados ao Círio Pascal que é o Cristo de uma forma real e permanente e somos convidados a assumir o serviço aos irmãos e irmãs que vivem nas trevas por exploração ou depressão e que tem medo de acender o próprio fogo interior. O fogo pascal é vigoroso e fecundo. É fogo consagrado para proclamar “Cristo, ontem e hoje, A e Z, a ele o tempo e a eternidade, a Glória e o Poder pelos séculos sem fim”. Ao final da bênção deste Círio, o sacerdote ainda dirá solenemente: “A luz do Cristo que ressuscita resplandecente dissipe as trevas de nosso coração e nossa mente”. Páscoa é este fogo que resplandece e não um mero chocolate ou uma ceia de bacalhau. Páscoa é a consciência nova que afugenta toda a cegueira moral e o desprezo contra os pobres. Páscoa é coração aberto e pleno de amor. Páscoa é a família em diálogo, comunhão e escuta mútua.

Decreto de liberdade  − Não existe na liturgia católica hino mais lindo que o Exultet cantado pelos diáconos. É um convite para o casamento entre o céu e a terra. Entre o visível e o invisível. A unidade do natural e do sobrenatural na história da humanidade. Ao acender o fogo, toda a criação se sente aquecida e tocada por Deus e pela vida plena em Deus. As trevas caem, o medo cala e a maldade é superada. O hino é hino às luzes e também às trevas. Mesmo as trevas são tocadas e mudadas por Deus. Até o que nos parece mau, ao ser queimado pelo fogo pascal poderá participar da obra de Deus. A Páscoa é a festa da liberdade e da libertação. É a festa do sim à vida e à dignidade humana. É a festa da acolhida dos pobres e dos oprimidos que sabem que Deus nunca os abandona. Páscoa é a festa do amor. Cantamos neste hino pascal: “Ó Deus, quão estupendo amor vemos no vosso gesto fulgurar: não hesitais em dar o próprio Filho para a culpa dos servos resgatar”.
A noite da Páscoa lava todo crime, liberta de todos os grilhões, dissipa o ódio e dobra os poderosos, enchendo o mundo de paz e luz ao mesclar a Luz de Cristo às das estrelas. Mesmo que estejamos em um momento duro da vida, mesmo que ao olharmos a política do Brasil tudo pareça corrompido e destroçado, mesmo diante da inércia do Judiciário e das instituições democráticas, cremos com teimosia que Deus acende o seu brilho de justiça, misericórdia e amor para fazer o Sol brilhar. Quando? Só Deus sabe, mas sabemos nós que as nossas opções e ações pascais poderão acelerar este dia das maravilhas de Deus rumo a terra onde correm leite e mel. Passamos pela dor, mas cremos na vitória, pois o mesmo Cristo Ressuscitado ainda carrega em seu corpo glorioso as cicatrizes da vida encarnada.
Que o fogo pascal nos faça rezar do fundo do coração uma prece que chegue até Deus, como este humilde pedido do doutor da Igreja, o santo armênio São Gregório de Narek: “Tu, Deus Altíssimo, jamais trazes uma sentença fatal, mas sempre um decreto de liberdade. Tu não nos fazes morrer, mas tu nos ressuscitas. tu, não só nos libertas, mas Tu nos salvas”.




Fonte: FC edição 956 - Abril 2015
Postado por: Família Cristã




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