Comunhão em plenitude

Data de publicação: 05/05/2017

Por Edicléia Tonete, fsp

Como mãe, a Igreja pede sempre o mínimo. Mas os cristãos católicos podem dar bem mais do que isso



O ápice do mistério da fé celebrado no Ano Litúrgico é a Páscoa da ressurreição do Senhor. Por isso, o terceiro mandamento da Igreja – “Receber o Sacramento da Eucaristia ao menos pela Páscoa da ressurreição”, aconselha que não a celebremos sem participar plenamente, recebendo o Sacramento da Eucaristia. Nossos irmãos mais velhos na fé bíblica, os judeus, já celebravam a Páscoa, o momento culminante do ano, no qual faziam memória de tudo o que Deus realizou na vida do povo, desde a libertação do Egito, de uma realidade de escravidão, e a caminhada pelo deserto rumo à terra prometida.
O ponto marcante da Páscoa judaica é a passagem pelo Mar dos Juncos, ou Mar Vermelho, como é conhecida popularmente essa passagem do livro do Êxodo (cf. Ex 13). É quando os hebreus passam de uma vida de escravidão para uma vida de liberdade, tendo o próprio Deus como libertador e Moisés como o grande líder que ajuda o Senhor Deus a conduzir e libertar o povo. Por ser tão importante para os judeus, esse fato até hoje é lembrado. É por isso que Jesus realiza a sua ceia dentro da Páscoa judaica, dando a ela um novo sentido. O libertador, para os cristãos, é Jesus Cristo, o Filho de Deus, a nova e eterna aliança (cf. Mt 26,26-28).
No cristianismo, a Páscoa é também o momento de ápice e central da fé. Foi antes de ser levado à morte que Jesus se entregou à humanidade, dizendo sobre o pão e o vinho: “Isto é o meu corpo”, “isto é o meu sangue”, “tomai e comei”, “tomai e bebei” e “fazei isto em memória de mim” (Mt 26,26). A entrega de Jesus na cruz está profundamente ligada ao momento da ceia com seus discípulos. É a mesma doação. Um Deus tão grande se fez pão, vinho, corpo e sangue. Todos os que comungam deste pão não morrerão, mas terão a vida eterna (cf. Jo 6). Um Deus imenso se fez servo, obediente até a morte e morte de cruz (cf. Fl 2) O corpo de Cristo eucarístico e o corpo de Cristo na cruz, o sangue de Cristo eucarístico e o sangue de Cristo na cruz, duas realidades de uma mesma pessoa, de uma única entrega por amor. 

Mesas – Quando se vai a uma festa de aniversário não convém sair dela sem ter cantado os parabéns e experimentado o bolo do aniversariante. Quem se retira antes não participa da festa inteira. Assim também acontece quando participamos da celebração eucarística. A Igreja, em seu primeiro mandamento, recomenda que “participemos da missa inteira aos domingos, de outras festas de guarda, e nos abstenhamos de ocupações de trabalho” e, no terceiro mandamento, nos exorta a comungarmos “ao menos pela Páscoa da ressurreição”, mas isso é o mínimo necessário, não quer dizer que devemos comungar apenas uma vez por ano, na Páscoa. Podemos e devemos comungar todas as vezes que participarmos da celebração eucarística.
Na missa, temos duas mesas para comungar, a da Palavra e a da Eucaristia. A primeira é o momento no qual a assembleia litúrgica proclama e escuta as leituras bíblicas do dia. E a homilia também faz parte dessa mesa e ajuda as pessoas a compreenderem a Palavra de Deus para colocá-la em prática. Quem se alimenta dessa mesa fica forte na fé e vai compreendendo o que significa, de fato, seguir Jesus Cristo. Muitas comunidades, especialmente no Brasil, conseguem viver em nível profundo e radical a Palavra de Deus, mesmo que muitas vezes possa alimentar a fé apenas da mesa da Palavra, já que em várias comunidades só há missa uma vez por mês ou uma vez por ano. É claro que se pudessem participar todos os domingos seria o ideal, mas nem sempre é possível. Essa necessidade é suprida da melhor maneira possível pela generosidade e criatividade dos ministros leigos da Sagrada Comunhão e da Palavra, e, é claro, pelo próprio Jesus Cristo ressuscitado e sempre presente no meio daqueles que se reúnem em seu nome. 

Leigos – Notemos que os mandamentos da Igreja nunca se encerram em si mesmos, um está completamente ligado ao outro. O terceiro mandamento, por exemplo, está profundamente ligado ao primeiro, que pede participação integral à missa dos domingos e festas de guarda. A Igreja sempre pede o mínimo necessário. Como mãe que é nunca coloca fardos pesados nas costas de seus filhos, porém cabe a cada filho perceber o que pode fazer a mais para crescer na fé. O terceiro mandamento, assim como os demais, nos pede um pequeno gesto de comungar ao menos uma vez por ano, mas isso não impede que as pessoas com a possibilidade de comungar semanalmente ou até diariamente assim o façam.
Existe a possibilidade de participar da Sagrada Comunhão, fora da missa. É o caso dos doentes, acamados e também das pessoas que deles cuidam e, por isso, não têm condições de irem à missa na comunidade. Para isso, a Igreja prepara ministros extraordinários da Eucaristia. São leigos e leigas que visitam os doentes e levam a eles a hóstia consagrada, o corpo do Senhor Jesus. É uma missão muito bonita que a Igreja exerce ao visitar essas pessoas e levar até elas, também, um pouco de consolo e calor humano. Esses doentes que sofrem de diversos males participam mais vivamente do sofrimento de Cristo e, ao comungarem são fortalecidos com a graça e os dons da fortaleza e da confiança em Deus. Podem também receber a cura ou a paz necessárias para aceitarem a partida para a eternidade de forma mais tranquila e serena.

Exclusões
– A Eucaristia não se encerra na celebração da missa. Ao comungarmos o Corpo e Sangue do Senhor, recebemos a graça de deixar que Jesus Cristo viva em nós e assumimos o compromisso de testemunhá-lo aonde formos. O cristão é sal e luz do mundo assim como foi Jesus. Se comungarmos apenas para cumprir um ritual ou preceitos, os frutos dessa comunhão não se desenvolverão em nossas vidas. Pois Eucaristia é pão partilhado, doação e fraternidade. O cristão não pode se colocar acima dos outros. Pelo contrário, precisa dar testemunho, ser bondoso, caridoso e solidário, pois quem comunga o corpo de Cristo tem a missão de ser Cristo vivo para os irmãos e irmãs.
Comungar com o Senhor não é só comer e beber o pão e o vinho consagrados, mas ter as atitudes e sentimentos de Jesus Cristo, como recorda o apóstolo São Paulo na Carta aos Filipenses (cf. Fl 2,15). Aqui entra uma questão delicada: se a Igreja pede que comunguemos ao menos pela Páscoa da ressurreição, como fica o caso das pessoas que têm algum impedimento canônico, como, por exemplo, os casais de segunda união? É muito louvável a luta dos casais de segunda união que não desistem de participar da vida da comunidade e da vida do Senhor Jesus como um todo. São verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo. Sabemos que a Igreja, o papa Francisco e muitos bispos, padres e leigos estão olhando com muito carinho para esses irmãos e irmãs e temos a esperança de que essa realidade mude para não haver mais exclusão do banquete do Senhor. Comungar o Senhor e com o Senhor, a cada momento da vida, é o fruto da comunhão do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo na santa missa. Comungar é viver o amor, como nos ensinou o mestre Jesus Cristo.




Fonte: FC edição 961 - Janeiro 2016
Postado por: Família Cristã




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