Memórias de uma lutadora

Data de publicação: 05/05/2017

Por Karla Maria; Fotos Luciney Martins


Militante de diversas causas sociais, irmã Alberta Girardi chega aos 94 anos com saudade da luta ao lado dos sem-terra


Pequenino, o corpo com pouco mais de 1 metro e meio de altura estava vestido com o hábito cinza de tantos e tantos anos. Esperava a repórter ali na região central de São Paulo (SP), no bairro do Brás, para uma conversa que, sabia, seria longa. “Qual a finalidade desta reportagem?”, pergunta com voz forte. Quando fica sabendo que é sobre sua vida, emudece, pensa e, enfim, aceita conversar.
Ali estava a italiana Maria Alberta Girardi. Esse é seu nome de batismo. Natural de uma Veneza de 1921, cidade ao nordeste da Itália, localizada entre 177 canais e 400 pontes distribuídas em 118 ilhas e muitas igrejas cobertas com ouro, mosaicos e afrescos de valor incalculável. Suas lentes grossas escondiam os olhos verdes que lacrimejavam sem motivo aparente. Talvez fosse a idade. É a idade. Pesam-lhe sobre os ombros 94 anos. As mãos estão no colo. Descansa a pele fina e branquinha enrugada pelo tempo. Em um dos dedos, aquele em que os amantes carregam alianças, há um anel de tucum, o símbolo de compromisso com os mais pobres. Símbolo de sua vida.

Mais pobres
– Maria Alberta nasceu em um momento pós-guerra. A Itália acabava de sair da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), e Benito Mussolini apresentava o fascismo como o novo regime do país. Um regime autoritário, impondo disciplina e proibindo organizações operárias que defendiam os direitos dos trabalhadores. Sindicatos e partidos políticos não existiam. Foi neste contexto que a filha de Maria e Alberto cresceu. “Quando eu tinha uns oito anos, a Itália já estava sob o fascismo. Era um regime cruel e meu pai era contra. Vivia meio escondido, sempre com medo. Isso ficou gravado na minha memória e me fez ter muita admiração por ele”, lembra.
A menina não era filha única. A família tinha três crianças: Giorgina, já falecida, e Amélia, hoje também religiosa, membro da Congregação de Charles de Foucaujd. O “também” é porque Maria Alberta Girardi é freira, conhecida por irmã Alberta pelo povo arrebanhado por ela ao longo de sua vida. Ela decidiu abraçar a vida religiosa quando tinha 12 ou 13 anos. “Eu sempre participei de ações católicas, mas, quando devia entrar na congregação, sempre me apresentavam uma lista de coisas de que precisava – era o enxoval. Mas como poderia comprar aquelas coisas todas se não tínhamos dinheiro?”, lembra irmã Alberta.
A família era pobre. A mãe cuidava da casa e fazia calçõezinhos para os meninos da escola, a farda do fascismo. Em 1943, quando seu pai voltou da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ela entrou para a Congregação das Pequenas Irmãs da Caridade fundada por dom Orione. O carisma era o cuidado com os mais pobres. “Os pobres mais pobres”, corrige. E assim, em Tortona, cidade ao norte da Itália, a jovem de 19 anos iniciou sua formação e com ela viveu as dificuldades da guerra, da fome. Forjava ali toda a estrutura para enfrentar a missão de seus 75 anos de vida religiosa junto aos sem-terra, sem-teto e sem dignidade. “Não tínhamos quase nada para comer, era bem difícil. Andávamos com um carrinho para pegar maçã e pera que caíam das árvores. Foi difícil, mas estou aqui viva”, lembra a freira.

Ameaças – Após a formação religiosa, irmã Alberta ensinou nos orfanatos da congregação. No ano de 1951 foi transferida para uma escola profissionalizante em Roma, para trabalhar na formação de jovens da periferia. Ali ensinavam cinema, fotografia e arte. Ficou 19 anos ensinando e lidando com a sétima arte. Mas se cansou e, em 1968, após o Concílio Vaticano II, pediu permissão para trabalhar nas missões da congregação, viajando para o Brasil, no ano de 1970. Logo que chegou foi para Araguaína, no estado de Goiás, agora Tocantins. Trabalhou em uma casa de acolhida para migrantes e logo se deparou com o sofrimento dos posseiros, expulsos da terra concedida com documentos do bispo, de Porto Nacional, por falta de cartório.
O projeto dos militares era mecanizar o campo. E assim os fazendeiros e os pobres eram expulsos violentamente. Diante dessa realidade, da necessidade de defender os pobres do campo, nasceu em 1975 a Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Em 1979, irmã Alberta já começou a se envolver na luta do povo. “Convivi com padre Josimo Tavares. A realidade era a de que não se devia proteger os pobres e queríamos fazer isso. Fui ameaçada de morte também”, lembra a religiosa. Ela trabalhou com o padre Josimo até 1986, ano em que ele foi assassinado. O jovem sacerdote era coordenador da CPT no Bico do Papagaio, um território no Tocantins que abrange 25 municípios. E irmã Alberta fazia parte de suas lutas. Tanto que, após ser ameaçada, sua congregação mandou que ela regressasse para Tocantinópolis, depois para a Ilha do Marajó, na cidade de Curralinho, e, finalmente, para Roma, na Itália.
“Eu nunca tive medo. Era uma causa que combatia”, revela a irmã. Em 1997, chegou a São Paulo, na terra de todos, e foi ali que conheceu a Fraternidade Povo de Rua, começando com seus voluntários as visitas feitas durante a noite aos moradores em situação de rua. Foi nesse período também que passou a colaborar com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e passou a atuar no setor de Direitos Humanos.

Missão cumprida – Não por acaso, no quilômetro 28 da Rodovia Anhanguera, no bairro Chácara Maria Trindade, em Perus, São Paulo, há a Comuna da Terra Irmã Alberta. Uma homenagem justa por ter ajudado a conscientizar os moradores em situação de rua de que deveriam ocupar terras improdutivas, abandonadas e começarem ali, organizados, um novo lar. A ocupação aconteceu em julho de 2002 e, de lá para cá, a irmã intensificou seu trabalho em busca da dignidade dos mais excluídos e marginalizados, entre eles os encarcerados. Ela também foi agraciada com o título de doutora honoris causa pelo Instituto São Paulo de Estudos Superiores (Itesp).
Durante muitos anos – não lembra quantos –, irmã Alberta visitou diversos presídios paulistas junto à Pastoral Carcerária. “Dentro do presídio não tem esperança, basta ver como eles vivem e são tratados. Aquilo não é vida. Com o trabalho da pastoral Carcerária é possível oferecer um pouco de esperança aos detentos, porque há também o trabalho de denúncia da Pastoral aos jornais”, lembra a senhora de 94 anos, que afirma já não temer a morte. Na verdade, parece até, serenamente, esperar por ela. “Minha missão foi cumprida, não pretendo fazer mais nada não. Se pudesse voltar atrás, voltaria a viver e lutar com os sem-terra. A vida com eles resume um pouco a minha vida de missão”, afirma irmã Alberta, que, após a entrevista, retorna para a sua “nova” rotina diária de rezar e esperar.




Fonte: FC edição 961 - Janeiro 2016
Postado por: Família Cristã




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