Antoninha, a parteira do Vale

Data de publicação: 15/05/2017

Por Nayá Fernandes

“Doido é você que deixou seis e encontrou oito”, expressou a parteira Antoninha,
que fez o próprio parto de gêmeos, enquanto o marido foi buscar um carro para levá-la ao hospital



“Quando eu estava com idade de casar, 16 anos, teve um jogo de futebol na região. Toda a gente foi. De cavalo, de moto, com os carros que tinham. Eu não quis ir. Perto da minha casa morava uma parteira, a gente chamava de tia Mariíta. Era muito boa, era médica, não era só parteira não. Ela tinha uma filha barriguda. E, pouco depois que todo mundo saiu, a moça começou a sentir as dores para ganhar o menino. Tia Mariíta foi me chamar para ajudar, e disse: ‘Você promete que não vai se assombrar’?. Eu não assombro com nada, tenho Deus comigo. Foi meu primeiro parto. A moça gritava e esperneava, e eu saí de lá toda quebrada.”
Maria Antonia Esteves Santos, 70 anos, mora no município de Jenipapo de Minas (MG). Ao todo foram mais de 40 partos ao longo da vida e muita história para contar. Mãe de dez filhos, a Antoninha, como é conhecida, é parteira e rezadeira. Rezar ela aprendeu com o pai. Ser parteira, nunca quis, mas estava sempre disponível quando alguém chamava.
“Naquele dia, tudo que tia Mariíta fazia eu botava sentido. E vi que, depois do parto, ela tirou uns papéis de dentro da blusa. ‘O que é isso?’, perguntei. ‘É oração’. Pedi para ver as orações, e ela me disse que depois mostraria. Um dia, ela me deu todas as orações copiadas, e disse: ‘Você quer virar parteira?”’.
 Antoninha só foi registrada alguns dias antes do casamento. “Naquele tempo era assim, só registrava pra casar. Casei com 17 anos. Só que meu pai, quando foi ao cartório, errou, disse que eu tinha nascido dia 25 de maio. Mas sou de 2 de fevereiro.”
A parteira do Vale do Jequitinhonha nasceu na cidade de Minas Novas (MG) e sempre morou com o pai. “Minha mãe morreu eu tinha sete anos. Sempre fiz companhia ao pai. Ele me ensinou a fazer comida. Até fui pra Teófilo Otoni (MG) e comecei a estudar, mas, quando minha irmã casou, deixei minha tia e voltei pra morar com meu pai. Tudo pra mim era bom. Arrancava e soprava feijão. Capinava roça. À noite, limpávamos duas medidas de arroz no pilão. Tudo na maior alegria.”
Quando Antoninha casou, levou o pai pra morar consigo. “Eu sempre disse que, quem quisesse casar comigo, casava, mas eu não era sozinha, tinha meu pai. O juízo que eu tinha com 17 anos eu tenho ele até hoje. E assim, cheguei aos 70 anos.”

Uma fé de joelhos − “Cada um tem seu jeito de ser. Eu não sou pessoa de olhar cisco do olho dos outros, porque o meu tem uma travessa e eu não caço jeito de tirar.” Antoninha aprendeu a rezar com o pai, numa época, segundo ela, em que os filhos deviam ficar todos ajoelhados, enquanto ele ensinava as orações.
“Faço novena todos os dias, mas cada dia na intenção de uma pessoa. E converso com Jesus. Ele, que andou no mundo curando os doentes, cura ainda hoje. Eu sou uma pecadora, mas peço que ele escute. As pessoas ligam pedindo que eu reze pra isso e aquilo e, hoje em dia, a doença mais comum é a depressão. Depressão é uma coisa difícil, mas não é de vontade da pessoa não. Quando não sei o que fazer, entrego tudo nas mãos de Deus. Acho que só estou viva por isso.”
Enquanto falava, Antoninha preparava o lanche. Suco de manga e melancia, tudo natural. Peta, o biscoito de polvilho de Minas Gerais e bolo de fubá. “Ô gente, eu falo e vocês comem viu?” Com firmeza nas palavras e nos olhos, ela repetia, com um refrão, que não tem medo de nada, porque confia em Deus.
“Meu pai sabia curar. Curar não, porque nós não curamos ninguém. Nós falamos as palavras, é Deus que cura e nós carregamos esta confiança. Adulto é de um jeito, criança é de outro e criação de outro. Quem reza só pra si deveria rezar: pai meu. Temos que rezar por nossa família, vizinhos, amigos e inimigos, ministros da Igreja, presos, padres, bispos, irmãs de caridade, pelo papa. Rezar não dói. Aumenta nosso amor”, ressalta.
Mas, tem só uma cura que ela diz não saber. “É a de espinhela caída. O que eu sei é que tem coisa que remédio não cura, só mesmo a Palavra de Deus. Tirar sol e sereno da cabeça é uma delas. A gente pega um vidro com água e um pano branco e reza. Depois de três vezes, joga fora a água. A pessoa, tendo fé, cura. Tem gente que nunca mandou tirar e a dor de cabeça não passa. Vai e volta”, explica Antoninha.
 
Sem medo do parto − As histórias de Antoninha envolvem vida e morte. Ela, porém, se orgulha de que nunca nenhuma mãe e nenhuma criança morreram em suas mãos. “Quando a criança não chora, a gente chupa o nariz dela três vezes. A coisa que as parteiras mais têm medo é hemorragia. Eu não tenho medo não”, afirma.
“Lembro da Geralda Grossa. Vieram me chamar. Ô Antoninha, a Geralda morreu. Fui correndo. Cheguei lá, ela tava sangrando. Aí, molhei um pano. Falo pano, mas tem que ser uma saia preta. Molhada na água gelada, tem que colocar três vezes na barriga. Todo sangue saí e estanca. Depois desse dia, não tive mais cisma com isso. Confio em Deus. O trem é meio complicado, por isso não dou conselho pra quem quer ser parteira” diz a avó, enquanto os netos correm no quintal e, de vez em quando, vêm até a cozinha para pegar um biscoito da mesa.
“Já a Preta, errou feio. O menino tinha atravessado de um lado a outro da barriga. Aí, coloquei orações no seio dela e comecei a fazer massagem. E me perguntava: ‘O que vim fazer aqui?’ Cada vez que eu rezava, sentia como se estivesse sendo empurrada para trás. Só que eu não desanimo. Colocamos ela na cama. Deus ajudou e aquele menino nasceu. Parecia que não tinha cabeça, e fui acertando com a mão. Percebi que Preta precisava de mim. Todo mundo na casa chorava. Então gritei: ‘Calma, não tem ninguém morto aqui’. Toma conta do menino que eu tomo conta de Preta, falei pra Lica. E assim foi. O menino tinha lindos olhos verdes”, lembrou Antoninha, enquanto seus olhos, pretos como jabuticabas, fixavam o horizonte da janela da cozinha.

Nasceram os gêmeos − Antoninha já tinha seis filhos e ficou grávida mais uma vez. Ela nunca tinha feito pré-natal na vida, mas disse que sentia que tinha mais de um bebê na barriga. “Quando eu falava isso, o povo ria e dizia que eu estava querendo fazer ultrassom de mim mesma. Com oito meses, me deu uma dor de barriga com sangue. Fiquei preocupada e fomos pra Araçuaí. O médico disse que eu teria que ir ganhar o bebê lá no hospital, porque minha criança cresceu sentada.”
“‘Minha criança, doutor? São duas’. E o médico disse: ‘O que a senhora veio fazer aqui, então? Quer saber mais que o médico? Doutor, por cima de Deus mora mais alguém? Não, não mora. Por cima de Deus só a coroa dele. Se aqui não tiver duas crianças, não tem nenhuma’. Fui embora e prometi que ia voltar lá com as minhas duas crianças no colo.”
Depois de um mês, mais ou menos, Antoninha acordou cedo e foi preparar a comida para o marido, quer iria à feira na cidade. Começou a sentir enjoos e gritou. Percebendo a situação, ele foi correndo conseguir um carro para levá-la ao hospital.
“Eu disse que não precisava, mas ele foi. Então, entrei para o quarto e fechei a porta, por causa das crianças. Joguei as cobertas no chão e deitei. A primeira, a menina, nasceu e eu tirei com o pé devagar, para não machucar o outro. Nasceu também o menino sem dor e só então fiz um pouco de força. Levantei, juntei os dois, botei na cama e cobri com um lençol branco. Fui ao banheiro, tomei banho e me deitei novamente. Quando eles chegaram, me viram lá, deitada e só depois as crianças. Então, meu marido disse que eu era doida e eu respondi, ‘doido é você que deixou seis e encontrou oito’.”
“A gente cura com a presença”, lembrou Antoninha no final da entrevista. Ela e outras milhares de parteiras em todo o mundo são lembradas no dia 5 de maio, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) para homenagear essas mulheres que fazem a diferença entre a vida e a morte para 300 mil mulheres por ano, segundo dados do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). A data foi criada pela Organização Mundial da Saúde (ONU), em 1991. O UNFPA destaca que as parteiras são a chave para garantir acesso universal ao planejamento familiar voluntário.
“Os gêmeos ficaram doentes e resolvi levar ao médico em Araçuaí. Por sorte e porque Deus escreve certo em qualquer linha torta que for, era o mesmo que tinha me consultado antes. Ele me perguntou em qual hospital eu tinha ganhado as crianças. Disse que aquilo não interessava, mas que ele desse um bom remédio para os meus filhos. O remédio valeu”, contou a parteira do Vale.




Fonte: FC edição 941 - Maio 2014
Postado por: Família Cristã




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