A raiz da vida

Data de publicação: 05/06/2017

Por Osnilda Lima, fsp

Pão do Brasil, pão dos trópicos, pão da terra, camelo vegetal ou rainha do Brasil,
 a mandioca está presente na culinária regional brasileira e espalhada pelo mundo


Um produto 100% brasileiro, o aipim, a macaxeira ou a mandioca ganhou o mundo.  A raiz carrega em si versatilidade no nome, nas condições de plantio e nas formas de preparo. Dependendo da região do Brasil, é chamada de aipim, macaxeira, mandioca, maniva, uaipi ou xagala. Não há tempo ou terra ruim pra ela. “A mandioca é um camelo vegetal”, associa Joselito Motta, engenheiro agrônomo, e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Mandioca e Fruticultura Tropical, em referência ao fato de que a planta cresce em solos pobres e resiste a períodos de seca. O pesquisador lembra que a mandioca é um dos alicerces da formação da civilização brasileira. Já Luís da Câmara Cascudo a chama de “rainha do Brasil”, em seu livro A história da alimentação no Brasil.
“Na sua chegada ao Brasil, em 1553, o padre José de Anchieta viu a importância da mandioca e logo a ‘batizou’ de pão da terra ou pão dos trópicos. Quando Pero Vaz de Caminha escreveu a primeira carta ao rei de Portugal, comunicou-lhe que a raiz brasileira fazia sucesso entre os indígenas. Ao referir-se aos nativos disse: ‘Eles não comem senão doutra coisa a não ser dum inhame que brota da terra’. Era a mandioca, ‘o pão do Brasil’, o aipim, a macaxeira, desconhecida do colonizador europeu que sabia de algo semelhante, o inhame, proveniente das colônias da África portuguesa”, enfatiza Joselito, no artigo Viva a mandioca: a verdadeira face do Brasil.
Segundo Joselito, estudos em sítios arqueológicos auxiliados pelo uso do carbono 14 indicam o Brasil como o centro de origem e dispersão da mandioca. Sua importância alimentar é base de sustentação para mais de 600 milhões de pessoas no mundo.
Ainda de acordo com o pesquisador, o Brasil produz em torno de 27 milhões de toneladas de raiz provenientes quase na totalidade dos 14 milhões de agricultores familiares. A mandioca está presente no dia a dia de 80 países e representa uma das principais explorações agrícolas do mundo. Colhem-se 170 milhões de toneladas por ano. Entre as tuberosas, ela perde apenas para a batata. A África é o maior produtor mundial com 53,32%, seguida pela Ásia (28,08%), Américas (18,49%) e Oceania (0,11%).

O valor nutritivo − Os nutrientes encontrados na mandioca são o carboidrato, vitaminas do complexo B e minerais como o cálcio e o fósforo, e não contém glúten. O carboidrato constituído de amilopectina e amilose presentes na macaxeira serve como fonte energética, ao virar glicose que é a fonte de energia utilizada pelo cérebro e demais células do corpo, e é de fácil digestão. Já o fósforo é um mineral que ajuda a combater o cansaço e a fadiga, o cálcio é o principal nutriente para constituir ossos e dentes.
A folha de mandioca é rica em proteína, vitaminas A e C, ferro, cálcio e fósforo. As folhas cozidas podem ser utilizadas junto com outros alimentos, como no feijão, na carne ou com legumes.
Vale lembrar que a folha ao natural, crua, contém compostos tóxicos que, quando ingeridos, se transformam em ácido cianídrico, e essa substância pode levar uma pessoa à morte.
A Embrapa, no sentido de contribuir com o trabalho desenvolvido pela Pastoral da Criança, realizou diversos estudos dosando a quantidade de ácido cianídrico que restava em várias amostras de folhas de mandioca preparadas de diversas formas. Esses estudos mostraram que, para diminuir o ácido das folhas, estas devem, após a colheita e a lavagem, ser primeiro picadas e só então levadas para secar. E somente depois devem ser transformadas em pó utilizado como componente de multimistura, acrescidos à merenda escolar e cestas básicas, visando o combate à desnutrição.

Um rede de mandioca – Não só o alimento, mas em São Luís (MA), a mandioca formou uma rede de solidariedade. Sob a responsabilidade da Cáritas Brasileira Regional do Maranhão, criou-se a Rede Mandioca, uma articulação estadual de organizações formais e informais de agricultores familiares que atuam diretamente no cultivo, manejo, beneficiamento e comercialização da mandioca e seus derivados. A Rede Mandioca garante maior visibilidade do cultivo, melhor a qualidade da produção e, consequentemente, a renda das famílias, buscando, sobretudo, viabilizar a comercialização através de rede, na perspectiva da Economia Solidária.
“A mandioca tem a ver com a cultura indígena e negra, ou seja, com a identidade alimentar e étnica de nossa gente. Se isso tem um valor cultural tão forte, e um valor alimentar tão importante para o povo, por que isso lhes é negado? Se aproveitamos tudo da mandioca, desde as folhas até a raiz, como isso não dá futuro? Sabemos que quando se pede financiamento para criação de gado, mamona ou soja, rapidinho o investimento é liberado. Mas para o cultivo da mandioca, não! E muita gente só não morreu de fome porque tem mandioca. Toda mesa tem mandioca e seus derivados. Então, por que negamos esse alimento? Para favorecer o pão francês? Ah, mais foi a gente dar uma estética bonita à mandioca e seus derivados, e o banco nos chamou para conversar,” conta Ricarte Almeida Santos, secretário-executivo da Cáritas no Maranhão.
O agricultor José Araujo, da zona rural Unha de Gato em Lago da Pedra (MA), com emoção na voz e olhos marejados, afirma se sentir orgulhoso em fazer parte da Rede Mandioca. Ele teve acesso ao fundo solidário e, com o recurso, pôde investir na produção da mandioca e, hoje, além do alimento farto, ele conta que pode fazer da mandioca seu meio de sobrevivência e vê seus sonhos crescerem.

Frentes de ações − Segundo Ricarte Santos, a Cáritas trabalha em dois focos de ação: o primeiro lutar por direitos, por efetivação de políticas públicas. O outro aspecto é o enfrentamento, e crítica ao modelo político e econômico de desenvolvimento que está sendo implementado no Brasil, especialmente no Maranhão. “É um modelo violento, predatório e marcado pela corrupção, e entendemos que isso determina o aprofundamento da miséria, da pobreza caracterizada na negação dos direitos das pessoas, das comunidades tradicionais. Então o Rede Mandioca surge na perspectiva à conjuntura de enfrentar o trabalho escravo que envolvia várias outras entidades. E o nosso compromisso foi criar uma alternativa que evitasse o aliciamento de trabalhadores no campo para o trabalho escravo.”
Ricarte lembra que o Maranhão é o estado brasileiro que mais fornece mão de obra escrava. “Nossa tarefa visa mostrar que é possível permanecer no campo sem se deixar levar pelo aliciamento e falsas promessas de emprego e melhoria de vida em outros estados brasileiros. Isso começou em duas pequenas comunidades da cidade em Vargem Grande (MA): Vila Ribeiro e Riacho do Mel. Foram pequenas experiências de fomentar a mandioca, pois descobrimos que é a cultura mais plantada no Maranhão, é maior área plantada do Brasil, no entanto, temos a pior produtividade. Significa que não temos tecnologias e incentivos públicos, não temos crédito bancário para incrementar o plantio e para apoiar o pequeno produtor”, denuncia o secretário-executivo da Cáritas Maranhão.
“Vargem Grande era, como muitas cidades pobres do interior do Maranhão, um grande centro exportador de mão de obra escrava para outras regiões do País. O projeto inicial tinha a intenção justamente de evitar aquele êxodo, de garantir trabalho e renda através da produção de derivados de mandioca”, explica Lucineth Cordeiro Machado, assessora de Desenvolvimento Solidário Sustentável Territorial da Cáritas no Maranhão.
“Para nós, mais do que os produtos em si, que são muito importantes, pois alimenta cada família, mantém a sobrevivência, destacamos os valores da solidariedade, a entreajuda, acima de tudo o valor da pessoa humana, da dignidade, da vida em coletividade, respeito aos direitos do outros. Valorizamos muito a maneira como produzimos, como nos relacionamos com os vizinhos, com a terra, os animais e com a sociedade como um todo. O espírito da rede é o da solidariedade e do fortalecimento do princípio da agroecologia. O nosso desafio agora é a produção com quantidade e qualidade. E está em criar um selo de qualidade da Quitanda Rede Mandioca, obter a certificação da indústria e comércio para podermos comercializar livremente, com qualidade e diversificação da produção”, assinala a assessora.

Quitanda Rede Mandioca – Para dar visibilidade e facilitar a comercialização da diversidade produtiva cultivada pelos 18 municípios, 69 grupos, 2.500 famílias, atendidas pela Cáritas Maranhão, foi criado o centro de referência dos produtos do projeto Rede Mandioca a Quitanda Rede Mandioca. Localizado na capital maranhense, o empreendimento é a vitrine dos produtos à base de mandioca e babaçu: como a farinha de mandioca, goma, mandioca in natura, azeite de babaçu, urucum, mel, abóbora e outros gêneros alimentícios servidos como lanche na Quitanda. “A iniciativa busca aproximar os produtores rurais dos consumidores finais, evitando intermediários e disponibilizando produtos da agricultura familiar e sem agrotóxicos ou transgênicos.”




Fonte: FC edição 942 - Junho 2014
Postado por: Família Cristã




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