Até onde ir?

Data de publicação: 05/06/2017

Pais devem cuidar dos filhos e protegê-los, mas, na adolescência, qual é a linha que separa preocupação legítima com invasão de privacidade?

Quando os filhos são pequenos, é dever dos pais orientar e monitorar suas ações, principalmente no ambiente virtual. Celulares e redes sociais facilitam o contato e a interação com diversas pessoas, mas também podem expor os pequenos a riscos sérios, como pornografia infantil, por exemplo. É dever dos pais acompanhá-los, orientando o que fazer ou não no ambiente virtual. Porém, muita coisa muda quando os filhos se tornam adolescentes, e as reclamações começam quando os pais ultrapassam certos limites. E se a preocupação com a segurança continua, como resolver o impasse entre pais e filhos? Qual é o exato momento em que a preocupação legítima se torna invasão de privacidade?
Alberto Rhein tem 35 anos, é instrutor de treinamento e líder de grupo de intercâmbio, levando muitos jovens a diversos lugares do mundo. Ele percebe todo o monitoramento excessivo dos pais no dia a dia dos filhos. No dia da reportagem estava com 37 jovens, de 12 a 17 anos, no Canadá: “Estamos passando por um inverno rigoroso, se não está nevando, está chovendo. Como somos de clima tropical, muitos sentem bastante o frio e é normal nos primeiros dias ficarem gripados ou com dor de garganta. Obviamente, e é o nosso dever, levá-los ao médico e avisarmos os pais. Mas mesmo dando todas as informações e tendo a confirmação necessária dos jovens, a marcação é cerrada o tempo todo”, conta, rindo da situação. “E mesmo depois de verem que está tudo bem, de eu passar detalhes de tudo, basta eu desligar o telefone para que os pais liguem imediatamente para os filhos e perguntem tudo de novo. Se está bem, se querem voltar para o Brasil, se precisam de alguma coisa”. Ele conta que o zelo excessivo ocorre não importando a idade, mesmo com os de 17 anos. Porém, mesmo tendo alguns anos a mais, Alberto Rhein conhece bem o que é sentir o zelo excessivo dos pais. “Nunca tive privacidade. Minha casa sempre foi pequena, e eu dividia o quarto com a minha mãe e meu irmão. Hoje ele casou, mas eu ainda divido com a minha mãe. A privacidade desde a adolescência é uma questão bem complicada em casa. E até hoje é um interrogatório toda vez que preciso sair.”

Acompanhar é dar segurança
– Em conversas com pedagogos em colégios é comum eles receberem reclamações dos adolescentes devido à invasão de privacidade dos pais. Rosângela Maia, coordenadora pedagógica de um colégio em São Paulo, diz que procura orientar os adolescentes e os pais do que é justo e do que é exagero. “Já tive pai que alterou a senha do celular da filha de 16 anos para que ele soubesse exatamente quando ela queria usar o aparelho. Ela precisava entregar o celular ao pai e usá-lo na frente dele. E o próprio pai reconheceu que não houve nenhum incidente que justificasse esse monitoramento, ele simplesmente se achou no direito de fazer. Isso é invasão de privacidade e ainda quebra uma possível relação de confiança necessária entre pais e filhos. A probabilidade de ela fazer alguma bobagem e não contar a eles é enorme. Pais acompanham, não são vigias do filho”, completa. Ela relata outras pequenas ações de que os jovens reclamam: “Entrar no quarto sem bater na porta, exigir ver todas as conversas com o namorado, namorada ou com amigos, mexer na mochila ou no armário e o famoso interrogatório antes de sair são as principais reclamações. Os pais precisam ter em mente que os filhos não são mais crianças”.
A pedagoga recomenda que se construa desde cedo uma relação de confiança com liberdade. “Se desde cedo os pais se mostram um porto seguro, próximos aos filhos, e, principalmente, ouvindo-os, a relação se estabelece. Vasculhar a privacidade não é a melhor maneira de se aproximar ou de acompanhá-los mais de perto, pois esse é um item muito importante para eles. Lembrando sempre que os pais são modelos para os filhos, mesmo os jovens, então, se os pais exigem respeito e bom comportamento, é muito importante tratar os jovens da mesma forma.” Portanto, ao invés do interrogatório excessivo antes da festa ou telefonemas de cinco em cinco minutos, o ideal é oferecer-se para buscá-los em horário pré-combinado. “Pais que confiam em seus filhos raramente são traídos, pois os filhos temem decepcioná-los”, ensina Rosângela.
Thalia Alves de Almeida, 18 anos é estudante de Direito e conta que sempre teve muito o respeito dos pais quanto à sua privacidade. “Quando eu saio eles não ficam no pé. Minha mãe me liga, mas por segurança. Eu me sinto muito respeitada em minha privacidade e sempre foi assim, desde pequena. Eles não olham no meu celular, nem entram no meu quarto antes de bater na porta.” Thalia reconhece que os pais têm um grande “segredo” para que essa relação se desenvolva. “Eles têm confiança em mim, então não tem por que eles invadirem minha privacidade. Também conversamos muito, e acredito que é tudo questão de conversar.” Rosângela pensa que o limite está exatamente na confiança. “E isso precisa ficar claro para o adolescente. Se ele entende que os pais querem protegê-lo e não controlá-lo, ele mesmo mostra o que está acontecendo e começa a pedir a opinião dos pais”.
Pequenos segredos são saudáveis nessa etapa da vida e faz parte do se tornar adulto. É importante esse cuidado dos pais, em mostrar que o adolescente pode contar com eles se precisarem, porém, tomando cuidado para não caírem no ridículo, sobretudo quando a situação envolve namoro. Rosângela recomenda que se separe o que é desejo e o que é necessidade, e saiba que se o filho ou a filha está namorando isso vem a ser um desejo pessoal, e não é necessário espalhar para toda a família se o próprio filho ainda não o fez. Caso o namoro esteja atrapalhando o rendimento escolar, aí, sim, a interferência dos pais é lícita e bem-vinda. Logo é preciso ficar atento a mudanças de comportamento que possam prejudicar o jovem no futuro. Hoje, mais velho, Alberto Rhein pondera sobre a interferência excessiva da mãe. “Acredito que o mais importante é eles saberem que os pais estarão ali quando precisarem. O acompanhamento deles é importante para não se sentirem seguros. Por mais que minha mãe tenha sido muito invasiva comigo, por diversas vezes ela me aconselhou e me abriu os olhos para muitas coisas.”




Fonte: FC edição 975 - Março 2017
Postado por: Família Cristã




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