A família Xerente

Data de publicação: 21/06/2017

Por Osnilda Lima, fsp*

Em meio ao intenso contato com a cultura não índio, no estado de Tocantins,
 o povo Xerente consegue manter e expressar sua cultura e tradições



Na aldeia Cachoeira, a 90 quilômetros da capital de Tocantins, Palmas, no município de Tocantínia, Romário Srowasde Xerente, de 23 anos, casado com Sandra Krtadi Xerente, pais do pequeno Rivaldo Simnãntê Xerente, é uma jovem liderança na comunidade. O nome xerente de Romário: Srowasde, significa “floresta”.  Na cultura desse povo, o nome indica projeto de vida ao indivíduo. Srowasde fez curso Técnico em Enfermagem, foi eleito, em 2015, conselheiro tutelar no município, e este ano iniciou o curso de graduado em Serviço Social.
Sentado no chão à sombra de uma grande árvore, enquanto Sandra Krtadi fazia o pequeno Simnãntê dormir, um ancião preparava a palha de palmeira para fazer artesanatos e crianças corriam de um lado para outro, em brincadeiras animadas subiam nas árvores, escondiam-se por detrás dos generosos arbustos, Srowasde contou sobre o modo de viver do povo Xerente. Com sorriso largo começou pelo seu casamento com Krtadi:
 – Tem dois anos que somos casados. Quem organiza o casamento e é responsável pela noiva é o tio dela, o irmão da mãe. No dia anterior ao casamento o tio saí para caçar. No dia do casamento a noiva acompanhada pelo tio leva a caça preparada e oferece à família do noivo. Então o ritual do casamento se inicia. No fim da celebração a noiva volta para a casa dos pais. O fim do dia é o noivo para ao encontro dela. O casal fica morando com os pais da noiva por cerca de um ano, só então constroem a própria casa.
Srowasde fala das crianças, da tradição oral ensinada pelos anciãos. Enquanto desenha no chão, se mostra preocupado com o futuro de seu povo:
– Os akwẽ são uma grande família. A minha esposa, nosso filho e eu, não somos uma família isolada, mas a família akwẽ. Por isso, a gente pensa no futuro, nossas crianças vivendo na liberdade, inocente de tudo, e sabemos que lá em Brasília planejam contra o nosso bem viver aqui. Nossa reserva esta aldeada por cidades e fazendas. Por todos os lados. Isso impacta nosso modo de ser. Tem horas que a gente chora só de pensar como será nosso futuro, como cuidaremos de nossas crianças, dos nossos anciãos. Hoje temos essas crianças brincando, correndo na sua liberdade. Mas o que será delas amanhã? Nossos filhos e netos, como viverão?.
 Interroga-se Srowasde e exclama:
– Aqui tem harmonia em tudo!
O povo Xerente, ou Akwẽ, como se autodenominam, assim como a língua que falam, está entre os grupos tidos como minoritários. Sua população é de aproximadamente 3.600 pessoas distribuídas em cerca de 72 aldeias no estado de Tocantins, Região Norte do Brasil. Xerente é uma denominação que receberam, provavelmente no período colonial, como faziam as expedições portuguesas que aqui chegavam e logo davam nomes a rios, montes e lugares.
Os akwẽ convivem com a sociedade dos não índios há aproximadamente 300 anos. A forma organizacional apresenta-se integrada, como nos conta Srowasde. O grupo está constituído em dois subgrupos que eles chamam duas metades, mas interdependentes. Cada metade possui três clãs distintos com características peculiares. Tal identificação é recebida de maneira hereditária, por parte do pai. Um dos elementos externos dessa representação é a pintura corporal que o indivíduo usa, em particular nos dias de festa. A pintura é feita de jenipapo, carvão ou urucum. Uma metade se apresenta com uma série de círculos, enquanto a metade usa uma série de listras.
A interação entre as metades na formação do todo ocorre na forma de reciprocidade, desde o casamento, a nominação das crianças, as festas, até a morte dos indivíduos. Eles trocam deveres, obrigações e responsabilidades. O casamento é exogâmico, isto é, a pessoa originária de uma metade se casa com alguém da outra. O cuidado e a preparação da jovem indígena para o casamento são levados em conta por um membro pertencente à outra metade, no caso, o tio da jovem, irmão da mãe. Por ocasião das festas, a pessoa de uma metade pinta o corpo dos indivíduos da outra, e vice-versa.  Quando um indígena morre, o enterro é feito por pessoas da outra metade, e assim reciprocamente.
O ritual de nomeação das crianças é específico.  As meninas são nomeadas duas de cada vez, sendo uma de cada metade, e ambas recebem o mesmo nome. Elas ficam no centro do círculo de cantores, que passam pela aldeia, cantando em frente de cada casa, enquanto os nomes são confirmados pelo canto. Na nomeação dos meninos, o homem e a mulher escolhidos para “cantar” os nomes são de metades opostas. Os meninos, agrupados em metades, chegam um após o outro, alternados, e assim vão recebendo os seus nomes.
Na resolução das questões relacionadas a cada aldeia, o ancião de uma metade manifesta a sua opinião, a mesma precisa ser ratificada ou contestada por um ancião da outra metade. Na corrida da tora de buriti, duas toras, uma para cada metade, são carregadas por dois grupos de jovens, como um time competidor. Cada grupo é comandado por um ancião, de metades opostas. No final da competição, as toras são colocadas em pé, no pátio, lado a lado, e os dois times se dão as mãos, fazendo um círculo em redor das toras, onde cantam e dançam encerrando a cerimônia.
Como a maioria dos povos indígenas, os akwẽ são nômades e, neste caso específico, migrantes, isto é: obrigados a sair de suas terras por interferência dos não índios. Alguns estudiosos sugerem que eles migraram do Nordeste brasileiro para o Norte, fugindo de aprisionamentos e guerras, no fim do século 18.
Hoje, a inquietação de Srowasde é no sentido de como preservar todo esse modo de viver do povo akwẽ, devido à absorvente interação com a cultura do não índio.
– Nós nos preocupamos, há interferência no nosso modo de viver. As mudanças acontecem, a nossa cultura é afetada. Há uma pressão, pois precisamos entrar no sistema de vida do não indígena, por questão de sobrevivência nossa. O grande desafio é que não estamos preparados para manter nossa cultura e nos adequar à cultura que nos chega. Isso gera um impacto cultural e social. Estamos no processo de aprendizagem. Já temos alguns problemas da cidade, que começam a chegar aqui, como por exemplo, as tecnologias, o alcoolismo e o consumo de produtos industrializados que prejudicam a saúde. Não podemos medir o impacto que isso está gerando em nossa cultura.
A jovem liderança, Romário Srowasde Xerente, que trás no nome Akwẽ seu projeto de vida, alerta:
– Nós nos inspiramos na natureza, respeitamos seus ciclos. Mas, com essa exploração desenfreada, um dia os bens naturais se acabarão, o mundo, a terra está sendo destruída aos poucos, de forma silenciosa, porém criminosa. Água represada, o curso dela alterado, as terras reviradas, os pés de pequiás tirados do lugar onde nasceram naturalmente. O sol aquecendo além do seu normal. O que está acima de tudo hoje é o dinheiro. É ele quem manda em tudo. Eu penso, haverá um dia em que o dinheiro nada valerá. Você o terá, mas não haverá coisas para serem compradas. Vai faltar a natureza, a água, a terra, os bens naturais para a sobrevivência. Sei que falando isso sou um grão de areia, numa enorme praia.

* Reportagem realizada com o apoio da Comissão Episcopal para a Amazônia, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).





Fonte: FC edição 964 - Abril 2016
Postado por: Família Cristã




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