Gastrotinga

Data de publicação: 21/06/2017

Por Jucelene Rocha

Timóteo Domingos está surpreendendo o Brasil com sua criatividade empreendedora que valoriza ingredientes colhidos na mata branca, a caatinga



Em Canindé de São Francisco, a 213 quilômetros de Aracaju (SE), conheci o jovem Timóteo Domingos, 18 anos. Ele acabara de chegar à casa de seus pais, em sua primeira folga depois de ter iniciado a faculdade de Gastronomia, que atualmente cursa em Maceió (AL).
Rapidamente Timóteo me convidou para visitar o seu quintal, seu grande mercado gratuito ao ar livre. “A minha maior inspiração está aqui ao meu redor, eu o chamo de meu mercado particular, e é aqui que encontro toda a matéria-prima para preparar minhas receitas”, explica Timóteo, que cultiva os frutos da caatinga de modo surpreendente e sob influência da avó.
Desde pequeno, Timóteo observava sua avó Rosa Domingos fazer bolos. Observava, provava e os vendia na escola, ainda nos primeiros anos do Ensino Fundamental. “Nos intervalos das aulas, eu montava uma banquinha e vendia os bolos tradicionais e as tortas que minha avó fazia”, conta o jovem, que, motivado também pela necessidade de gerar renda para a sobrevivência da família, decidiu empreender o mesmo caminho culinário da avó.
E empreendeu inventando receitas novas com os produtos da terra, vegetais típicos da caatinga que havia em abundância, como os diversos tipos de cactos, a catingueira, árvore de porte médio que dá nome ao bioma caatinga por ser abundante nesta região, a macambira, o mandacaru, além de árvores frutíferas como o umbuzeiro, entre outras.
“Eu via minha vó cozinhando e foi surgindo a curiosidade. Comecei a ajudar e, depois, a mudar as receitas dela. Desde criança, vinham as ideias na minha cabeça e eu começava a buscar esses ingredientes. Com oito anos, já tinha minhas duas primeiras receitas autorais: o brigadeiro de casca de melancia e o doce de umbu”, conta Timóteo.

Primeiras receitas – Rivalda Domingos, mãe de Timóteo, conta como tudo começou. “Depois de caçar os cactos no mato ele vinha aqui para a cozinha e quando a gente via já tinha algo pronto para comer. Quando descobri que estava utilizando cactos nas receitas, achei estranho, mas dei apoio, a gente sabia que esses alimentos não faziam mal, e as receitas ficavam boas”, conta orgulhosa.
A avó Rosa também relembrou altiva como foram esses primeiros experimentos. “Eu falava, ‘Timóteo, meu filho, você vai usar esses cactos na receita, será que vai dar certo?’. Ele falava, ‘Vai, vó, eu sei o que estou fazendo’”, conta sorrindo a avó coruja, que também esclareceu que nunca tiveram medo de experimentar as receitas à base de cactos porque no sertão é comum retirar os espinhos, picar e dar esse vegetal aos animais como alimentação. No entendimento da família, se não fazia mal aos animais também não haveria de fazer mal aos humanos, além do que Rosa lembrava que na infância a sua mãe já fazia chás e caldos com alguns tipos de cactos.

Novo conceito – A sabedoria popular e a intuição do jovem com talento para culinária e curiosidade de sobra para começar a testar suas invenções na cozinha deram certo. Hoje Timóteo coleciona mais de cem receitas doces e salgadas, além de sucos, e o futuro chef já tem planos encaminhados para lançar seu primeiro livro com receitas à base de ingredientes exclusivamente extraídos da caatinga. “Em 2011 eu tive a ideia de juntar todas as receitas que já faço e colocar tudo isso no projeto de um livro, no qual as pessoas vão poder conhecer e ter acesso não apenas às receitas, mas também a toda a cultura do sertão, que está por trás das receitas”, esclarece, entusiasmado.
Ainda durante minha visita a Canindé de São Francisco, sob um sol escaldante, vamos caminhando caatinga adentro e o jovem Timóteo faz questão de apresentar cada planta que encontramos pelo caminho e detalhar como prepara e utiliza cada ingrediente. A base da culinária desenvolvida por ele, e que apresenta a todos como gastrotinga, está em diversos tipos de cactos como o mandacaru, a cabeça-de-frade e o xique-xique, vegetais ainda hoje pouco utilizados na alimentação da população local, mas muito nutritivos e com grande potencial gastronômico por suas características de textura e sabor.
Hoje, cursando Gastronomia, Timóteo não economiza palavras para compartilhar seu grande sonho, desenvolver uma pesquisa científica sobre o bioma caatinga, catalogar todas as plantas e frutas, assim como seu uso, propriedades e potencial gastronômico e nutricional.

Sabedoria e intuição
– Mais do que fonte para as receitas, os cactos e demais plantas da caatinga nordestina servem de inspiração pessoal para o futuro chef, que se define como um sonhador e acredita na vegetação do bioma como “o alimento do século 21”, e até mesmo uma alternativa para acabar com a fome no sertão. “São plantas muito nutritivas, mas várias pessoas tinham e ainda têm um preconceito muito grande, porque elas normalmente são dadas como alimento para os animais e por apresentarem um aspecto a princípio inóspito por causa dos espinhos. Mas é na persistência que a gente chega aos nossos objetivos, como os próprios cactos, que florescem mesmo na seca”, compara Timóteo.
E seus objetivos não param por aí. “Meu sonho mais próximo é o lançamento da minha saga, que será uma série de quatro livros nos quais vou contar minha história e apresentar a diversidade da caatinga, a cultura do sertanejo, os ditos populares, os mitos do sertão, minhas receitas e as histórias que estão por trás de todas elas”, conta o jovem, que busca uma editora interessada no projeto e quem sabe um dia ter um programa de culinária na TV.

Sustentabilidade e preservação – Timóteo também se preocupa com a preservação da caatinga e deseja construir uma espécie de área protegida, organizar uma cadeia produtiva com todas as espécies de vegetais da caatinga. “Eu pretendo organizar agricultores que se disponham a cultivar cactos e outras plantas da caatinga, porque apesar de colher esses produtos de forma ecologicamente correta, vejo cada dia mais o desmatamento da caatinga. É preciso pensar na preservação e na reposição desses vegetais na natureza para que futuramente não haja a extinção, é uma questão de sustentabilidade. Vejo essa lacuna de garantia de preservação da caatinga até mesmo em nossa Constituição, que cita diversas vezes outros biomas como a Mata Atlântica, a floresta amazônica e não menciona nenhuma vez o único bioma integralmente brasileiro, a caatinga. Essa omissão também reflete uma série de preconceitos que cercam tudo o que compõe o bioma caatinga e que de alguma maneira precisa ser protegido”, lamenta.
Com pouquíssimos recursos financeiros, muita garra, incentivo da família e dos amigos, Timóteo segue uma rotina corrida entre o trabalho como cozinheiro em um restaurante de comida natural em Maceió, onde faz sucesso com a lasanha de quiabo e o brigadeiro de casca de melancia, e as aulas noturnas na faculdade de Gastronomia. Sempre que pode volta a Canindé para revigorar as forças e colher os ingredientes essenciais para suas receitas. Experimentei com curiosidade a lasanha de quiabo e um pedaço de mandacaru devidamente descascado e posso garantir: é uma delícia!




Fonte: FC edição 953 - Maio 2015
Postado por: Família Cristã




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