Corpo em movimento

Data de publicação: 26/07/2017

Por Irene Paz

Atribuir às aulas de Educação Física a promoção da saúde pública é um equívoco.
 Nas escolas, essa disciplina, como as demais, se presta a formar cidadãos. E isso não é pouco


Recentemente, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) alertou que crianças e adultos estão praticando menos atividades físicas em todo o planeta. Segundo a diretora-geral da entidade, Irina Bokova, os governos precisariam investir mais em aulas de Educação Física, pois estas resultariam em economia na saúde e avanços na educação. Ato contínuo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou um apelo para os governantes reverterem os cortes nas aulas de Educação Física. No Brasil, simultaneamente, a Pesquisa Educação Física nas Escolas Públicas Brasileiras, realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), em parceria com o Instituto Ayrton Senna, a organização não-governamental Atletas pela Cidadania e o Instituto Votorantim, confirmou: o País era um dos destinatários do apelo ao concluir que 30% de suas instituições públicas de ensino não contam sequer com espaços destinados para essas aulas.
As informações acima se encaixariam não fosse a falta de uma relação de causa e efeito entre elas. A realidade europeia – a Unesco tem sede em Paris (França) e a OMS fica em Genebra (Suíça) – difere da brasileira em relação ao objetivo das aulas de Educação Física. “A atual concepção europeia e hegemônica da disciplina é higienista e contempla a saúde, enquanto no entendimento brasileiro ela é formadora de cidadãos e se insere como um componente curricular que ajuda crianças e jovens a analisar e a exercitar as práticas corporais disponíveis na sociedade. Os objetos dos nossos educadores físicos são a brincadeira, a dança, a luta, a ginástica e o esporte como experiências culturais e não como meios para diminuir a taxa de gordura e a frequência cardíaca”, explica Marcos Garcia Neira, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), pós-doutorado em Currículo e Educação Física e livre-docente em Metodologia do Ensino de Educação Física.

Não competir – Longe de questionar a importância para a saúde de uma atividade física supervisionada e sistemática, Marcos Garcia aponta que a prevenção de doenças e a promoção da saúde pública são atributos a serem trabalhados em outros espaços sociais. “Bons programas de saúde coletiva podem ser desenvolvidos por secretarias municipais ou estaduais de saúde, esporte e lazer. Já atribuir aos professores de Educação Física e às escolas a responsabilidade de melhorar a saúde da população é um despropósito sem lógica. Nossos educadores físicos são formados para trabalhar de maneira pedagógica e aproximar as crianças das experiências culturais”, reitera o pesquisador. E isso não é pouco, “Colaboramos na formação de pessoas que possam ler criticamente a sociedade e atuar para melhorá-la. Não podemos praticar uma Educação Física que manda o aluno descer para a quadra, correr, correr, correr, suar, suar, suar e, depois, voltar para a sala. Educação Física que trabalha apenas com o movimento não constrói senso crítico”, arremata.
Sob tal perspectiva, outro equívoco – que se acentua às vésperas dos Jogos Olímpicos, ainda mais quando estes ocorrem no Brasil – é sobrecarregar o educador físico com a missão de descobrir atletas. De acordo com Marcos Garcia, não cabe à escola formar competidores ou, pior, fomentar a disputa entre os alunos, fabricando adversários, mas promover uma reflexão sobre as manifestações culturais que envolvem os movimentos dos corpos, ajudando a compreender o mundo. “Não podemos partir do pressuposto de que um aluno ou um grupo vai ser privilegiado e participar de uma atividade enquanto a maioria vai apenas torcer. É claro que devemos estimular as crianças e jovens a prosseguir na prática dos esportes, mas em momentos extracurriculares. Se é para uma criança aprender alguma modalidade esportiva, o melhor a recomendar é a procura de um clube ou academia. O lugar desse trabalho não é a escola”, aconselha.

Leitura crítica – Aliás, a escola deve ficar atenta ao que seus alunos fazem além do horário das aulas e, sempre que possível, interiorizar as manifestações culturais da comunidade. Assim, danças contemporâneas que abordem o funk, o axé e o hip-hop, por exemplo, são válidas desde que se entenda o que está embutido nas letras de suas músicas e se faça um estudo sobre elas, envolvendo aí uma transversalidade com outras disciplinas – Português, História, Geografia etc. Um exemplo já consagrado dessa inserção da cultura popular nas escolas pode ser a capoeira. Na esteira da aprovação da lei que, em 2003, tornou obrigatório o ensino da História Afro-Brasileira em todo o currículo escolar, a arte marcial introduzida no Brasil pelos escravos bantos ganhou prestígio e espaço nas quadras escolares. O próprio Ministério da Educação (MEC) já sugeriu a admissão dessa luta como disciplina no currículo das faculdades de Educação Física.




Fonte: FC edição 954 - Junho 2015
Postado por: Família Cristã




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