Uma aliança de vida

Data de publicação: 02/08/2017

Por Karla Maria

Uma das instituições mais antigas do mundo, o casamento,  passa por mudanças e adaptações ao longo da História, 
atualmente caracteriza-se como uma escolha individual, responsável e autônoma, baseada no amor, mas não foi sempre assim.

O advogado Julio Amaro e a estudante Michele Maltez decidiram se casar. Eles vivem em São Paulo e já estão noivos. Decidiram compor as estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontam: cerca de 1 milhão de casais registram o enlace nos cartórios brasileiros anualmente. O casamento, uma das instituições mais antigas do mundo, sofreu mudanças e adaptações ao longo da História, de acordo com aspectos emocionais e socioculturais envolvidos. Hoje, o amor, a vontade de estar junto, ter filhos, constituir família é – na maioria das vezes – a mola propulsora dessa mudança de status que vai muito além das redes sociais. Mas nem sempre foi assim.
Na Antiguidade, por exemplo, o casamento era um acordo formal entre o noivo e a família da noiva, o pai. Tinha como principal objetivo gerar filhos legítimos que herdariam propriedades, poder. Daqueles tempos, dos romanos, herdamos algumas tradições: o véu da noiva, as alianças e o gesto do noivo carregar a mulher no colo, além de um certo machismo.
A mulher pouco ou nunca tinha o direito de escolha. Era apenas informada sobre seu casamento. Um cenário difícil de ser digerido por homens e mulheres de nosso século. Mas era assim. Já na Idade Média, o casamento passou a ser visto e vivido como um sacramento da Igreja, ou seja, passou a ser uma união consentida pelos dois, também com Jesus Cristo, na qual a indissolubilidade era exigida.
“A Igreja encara com tamanha seriedade a ideia de um homem e uma mulher construírem juntos uma família, que declara indissolúvel a união dos dois, caso tenha sido fundamentada numa promessa feita com liberdade”, escreveu padre Zezinho, scj; em seu artigo “Indissolubilidade do vínculo matrimonial”.
Para o padre palotino e mestre em Direito Canônico da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e professor da Faculdade de Teologia, Denilson Geraldo, a forma canônica do matrimônio possibilitou uma evolução na sociedade no que diz respeito à proteção da mulher. “O reconhecimento dos direitos da mulher de que respeitar a decisão dela de se casar ou não vem do cristianismo, da ideia de que não se pode mais ter os casamentos arranjados, ao menos na nossa cultura. Isto significa na minha opinião uma evolução.”
Em outra análise, o professor de Teologia Sistemática da Faculdade de Teologia do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, de Belo Horizonte (MG), Francisco Taborda, avalia em seu livro Matrimônio – Aliança – Reino que a inferioridade permanente da mulher com relação ao homem “própria da instituição do casamento patriarcal é rompida de certa forma no plano teológico, quando se reflete sobre o casal diante de Deus”.
O matrimônio nos moldes como temos hoje – para a cultura cristã ocidental – ganhou sua forma no Concílio de Trento (1545-1563) e a partir dali exigiu-se uma forma canônica da celebração do matrimônio. “A unidade matrimonial sempre foi para as culturas algo importante e de uma visibilidade social, por isso a forma canônica: o consentimento emitido pelos noivos diante de uma autoridade local que representa a comunidade: o pároco”, explica o teólogo da PUC-SP.
No ato do consentimento público, no momento em que os noivos estão diante do altar, de seus padrinhos e convidados, o pároco torna-se a testemunha. Os noivos é que celebram o casamento, que protagonizam o sacramento. As palavras trocadas “eu te recebo... prometo ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-te por todos os dias de minha vida” selam o compromisso simbolizado pelas alianças.
Alianças que Julio e Michele já compraram. O noivado aconteceu dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, sob as bênçãos da família e da Virgem Maria, de quem são devotos. “As nossas alianças entraram na igreja numa rede junto com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Foi muito bonito, as pessoas choraram”, conta Julio, católico desde pequenino, coroinha, com uma experiência no seminário e agora certo de que será um bom marido para Michele.
As alianças que os noivos já carregam na mão direita são o símbolo máximo do compromisso. Fundidas no fogo, elas lembram a chama do amor. De ouro denota seu valor, sua preciosidade. O dia e o nome do cônjuge – gravados no círculo fechado – são sinais para que não se esqueçam do dia em que deixaram de ser dois para serem um.
Mas os noivos não estão sozinhos nesse desafio. Ao lado estão os padrinhos, que, para além de garantirem os melhores presentes para o lar dos recém-casados, estão ali apoiando, orientando e até sustentando com amizade a nova família que se inicia.

Diferentes formas de união
– Atualmente, o cenário do casamento amplia-se. Muitas uniões conjugais que não passam pelo Sacramento do Matrimônio ou mesmo pelo registro civil estão fundamentadas nas necessidades práticas do dia a dia, nos anseios de prazer e realização do casal, o qual também pode decidir ter filhos ou não.
“Percebe-se a influência cultural e social no estabelecimento da relação conjugal, que se caracteriza atualmente como uma escolha individual, responsável e autônoma, baseada em laços de afeto e afinidade”, avalia a psicóloga Thays Barbosa Lima Araujo, autora de Casamento contemporâneo – Um olhar clínico sobre os laços conjugais.
Este é para o teólogo Denilson o matrimônio natural. “Está na natureza humana, qualquer ser humano que se une, em qualquer cultura, se une perpetuamente até que a morte os separe.
As culturas geralmente têm um ritual para celebrar esta união”, destaca o padre, lembrando contudo que para os cristãos esta união natural foi elevada à dignidade de sacramento.

Acabou e agora? – “O que Deus uniu o homem não separa”. Essa afirmação acompanha, guia, fortalece ou pesa em muitas vidas. Homens e mulheres que por diversos motivos chegaram ao fim de seus casamentos, conheceram um novo amor e se sentem culpados pelo sentimento ou até pelo relacionamento já iniciado e partilhado dia a dia. O que poucas pessoas sabem é que existe a possibilidade de pedir a nulidade do casamento para enfim poder receber o sacramento.
“No processo de nulidade matrimonial, é analisado se houve consentimento e os motivos são muitos, como falta de liberdade interna, da capacidade de escolha ou escolha condicionada por situações psíquicas, como traumas e outras situações”, esclarece o teólogo.
Os processos de nulidade levam no máximo um ano e meio para serem julgados, e o papa Francisco já criou uma comissão para agilizar os processos nos tribunais. “Cada diocese deveria ter o seu tribunal, mas falta gente qualificada para trabalhar”, lembra o padre. E avalia: “Acho que não temos mais processos de nulidade matrimonial porque o povo não conhece, porque se o povo conhecesse recorreria mais. Às vezes a pessoa está carregando um peso que não precisa carregar: casais de segunda união, por exemplo, que desejam sim se casar com as bênçãos da Igreja”.




Fonte: FC edição 948 - Dezembro 2014
Postado por: Família Cristã




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