Sim, eu estarei aqui

Data de publicação: 15/08/2017

Por Marcele Aires Franceschini

A doação incondicional ao outro é a maior prova de amizade que o ser humano pode encontrar, pois é a entrega,
o amor ao próximo, muito próximo ou quem sabe ainda um completo estranho



Ami. Kamarát. Vriend. Dost. Cara. Arkadas. Amicus. Amigo é coisa para se guardar... Não importa o idioma, desde os tempos mais remotos, o ser humano sempre precisou de uma “mão” amiga. Na Pré-História, a relação com estranhos surgiu como necessidade de sobrevivência, pois imagine grupos de hominídeos se fixando na mesma região sem harmonia. A própria invenção da agricultura só vingou devido à colaboração mútua.
Atualmente, a amizade deixou de ser imprescindível à sobrevivência. Se você quiser se alimentar, basta ligar ao delivery chinês ou saborear uma suculenta picanha em uma churrascaria, sozinho. Mas jamais será agradável como ao lado de uma companhia. Isto porque nosso cérebro está condicionado a estabelecer alianças. Desde que saímos do ventre, firmamos os primeiros laços de afetividade com nossos pais, avós, tios, irmãos, amigos da família. Os laços, portanto, são condutas humanas conscientemente buscadas, tanto nas relações familiares, nas trocas de conhecimento profissional/acadêmico, nas mesas de bares, em parques, festas de aniversário, trocas de presentes no amigo-secreto de Natal.
De fato, a amizade nos é tão crucial que sem a presença do outro não nos conhecemos. Mais grave ainda: não existimos. O excerto do poema Visitação da vida (Ed. Bagaço, 2000), da pernambucana Maria do Carmo Barreto Campello de Melo, simboliza essa exata medida: “Em mim / as coisas acontecem / mas eu com as letras do teu nome / nascendo em minha boca / te faço acontecer”.
É, pois, somente na presença do outro que instauramos nossa imanência. Sim, o outro é nosso único tamanho, nosso único caminho, pois todos os aprendizados, todos os erros, as experiências, as criações, as belezas e as grandezas só se efetivam quando compartilhadas. Stravinsky não compôs a Sagração da primavera para o deleite egoísta de seus próprios ouvidos. O imperador Shah Jahan não construiu o Taj Mahal apenas para demonstrar ao mundo a suntuosidade de um monumento de mármore, incrustado de pedras preciosas e fios de ouro: erigiu-o junto ao Rio Yamuna, na Índia, em memória de sua amada, que morreu após dar à luz ao 14° filho.
Memórias, memórias do outro, memórias de mim. Afinal, a amizade não seria o reconhecimento do outro como elemento sagrado a minha existência? Adélia Prado, em seu notório Ensinamento (Siciliano, 1991), dá conta dessa explicação:

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Em poucos versos, Adélia estabelece, com primazia, os domínios do amor, como avó que tira o pão do forno e sem saber o real motivo, entregamo-nos às delícias de um dia qualquer, à lembrança afetuosa de um cheiro que quase nos arranca o choro de saudade, exaltação de amor a quem nos é caro.

Amigo ama em tudo
− E por falar em memórias – Riobaldo, protagonista do célebre Grande Sertão: veredas (1956), de João Guimarães Rosa, tece impressões carregadas de poesia ao narrar as lembranças de sua Diadorim: “As vontades de minha pessoa estavam entregues a Diadorim”, (p. 31); “Se amor? E era aquele latifúndio... Diadorim tomou conta de mim” (p. 180); “Diadorim e eu, a sombra da gente uma só formava. Amizade, na lei dela” (p. 235); “Vi como é que olhos podem. Diadorim tinha uma luz” (p. 380). Leitor desse romance entende, de súbito, que o sentimento de amor/amizade de Riobaldo é confuso, visto que a figura de Diadorim se mantém anarquizada em sua mente. Não é para menos: Diadorim passa a obra escondendo um segredo, revelado somente após sua morte: era uma bonita mulher que se passara por cangaceiro bruto, pois queria se juntar ao bando de jagunços para vingar a morte do pai. Sem dúvidas, a história entre Riobaldo e Diadorim é uma metáfora da travessia humana: Riobaldo desconhece Diadorim (seu sexo, seu verdadeiro nome, seu passado, seus pensamentos), no entanto, nutre por ela amor. Independentemente do pulsar sexual, da atração física, do desejo de reprodução, a dicotomia Riobaldo/Diadorim nos faz entender que o poder do amor é sempre superior a quaisquer explanações lógicas que nossa vontade possa querer tecer.
Nossas memórias. Sempre na constatação da existência alheia. Na Biologia, a palavra de ordem é “mutualismo”, ou a relação benéfica em que um ser depende do outro para viver. Seria a relação de amor incondicional tempero ou natureza inexorável da amizade? Os versos finais de Amar você é coisa de minutos... , de Paulo Leminski, expressam a necessidade de servir ao outro como condição intrínseca que reside em qualquer ato de amor, seja ele concretizado na relação homem/mulher, pais/filhos ou completos “estranhos” que escolheram o caminho da amizade:

E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

Quem mais do que o próprio Cristo pregou esse amor? Não seria Ele um verdadeiro propagador da amizade? Na Bíblia, lemos uma franca passagem sobre a união nos Provérbios (17, 17): “O amigo ama em todo o tempo; e para a angústia nasce o irmão”.
Para a angústia nasce o irmão – em outras palavras, é na solidariedade que renascemos; é na ajuda mútua, desinteressada que evoluímos e aprendemos que a vida é muito mais do que um simples “empréstimo de ossos”, como canta o poeta chileno Pablo Neruda.
Amizade, certamente, é pressuposto indissociável do substantivo “solidariedade”. Um dos exemplos mais tocantes pode ser encontrado na carta que um imigrante vietnamita, policial na região de Fukushima, escreveu ao irmão ao constatar beleza na tragédia nuclear de 2011. A carta foi enviada a um jornal de Xangai, que a publicou – e posteriormente, o blog Japan Real Time, do Wall Street Journal, traduziu-a ao inglês (http://blogs.wsj.com/japanrealtime/). O policial narra um episódio que o havia tocado profundamente. Ao visitar uma escola infantil, encontrou, no final da fila da doação de alimentos, um menino de nove anos. Preocupado com o fato de que a criança poderia ficar sem comida, dirigiu-se a ela. Triste, órfão, completamente só, tremendo de frio, o garoto causou comoção ao rapaz, que o cobriu com sua jaqueta de policial e lhe deu sua porção de comida. O menino fez uma reverência, pegou a comida, foi até o início da fila e a colocou onde todas as outras esperavam para ser distribuídas. Ao questioná-lo sobre sua atitude, a criança respondeu: “Porque vejo pessoas com mais fome que eu. Se eu colocar a comida lá, eles irão distribuí-la com mais igualdade”.
Amizade é isso: a entrega, o amor ao próximo, seja ele seu pai, seu filho, seu primo, seu amigo de infância, seu colega de trabalho, seu parceiro de tênis, ou quem sabe ainda um completo estranho. A doação incondicional ao outro é a maior prova de amizade que o ser humano pode encontrar.




Fonte: FC edição 943 - Julho 2014
Postado por: Família Cristã




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