Uma voz

Data de publicação: 16/08/2017

Por Karla Maria
“Eu gosto demais, a vida inteira o que eu mais gostei de fazer foi cantar. Cantar na igreja era o meu sonho”, Penha Oliveira

“Olha, era muito preconceito. Eu era pobre e negra, como seria diferente?”, Penha Oliveira. Ela canta, e que voz! Lamento pelo leitor não poder ouvi-la, não conhecê-la pessoalmente. Ela é Penha de Oliveira, mineira de 82 anos, pele negra, pernas frágeis, mas olhar firme. Filha de Elisa e Sebastião, passou a infância por cidades do sul de Minas Gerais, graças ao trabalho do pai, que era funcionário de empresa telefônica.
Viajou bastante até chegar com a família a São Paulo, aos 17 anos, onde ainda hoje mora. Já a conhecia, ouvira sua voz, seu canto em uma das tantas comunidades da Brasilândia, periferia da capital paulista, mas nunca tivera tempo para uma boa conversa, até que nos reencontramos. Foi em um dia de sol forte, no Santuário da Virgem de Guadalupe, na Cidade do México (México). Nos sentamos sob uma sombra depois da missa das 10 horas, estava calor, a paisagem era bonita, e a prosa começou acompanhada de pequenas demonstrações de sua habilidade vocal.
“Quando eu era criança, ficava ouvindo minha mãe cantar, ela cantava muito essas músicas de Igreja, aí fui aprendendo. Eu comecei a cantar com nove anos, e, na escola a minha diretora, dona Mariana Pinheiro, me colocava perto do piano junto dela, para eu aprender mais. Cantava todos os hinos na escola, aí comecei a pegar gosto pelo canto”, revelou Penha, que estudou até o curso primário.
Já adulta, chegou a fazer estudos específicos de canto por sorte ou carisma. “Eu dizia para meus amigos, ‘eu não tenho dinheiro para ficar pagando aula de canto, o dinheiro era para pagar contas, para meu sustento’, mas o maestro gostou tanto da minha voz que disse que eu não precisava pagar”, contou Penha.
Em São Paulo, fez “cortina de teatro”, no Teatro Alumínio, na Praça da Bandeira, na região central. Enquanto os atores se trocavam ou o cenário era alterado, Penha cantava acompanhada para entreter o público. “Eu colocava um vestido bonito e ficava cantando, enquanto estavam preparando o cenário lá atrás”, contou com um ponta de saudade.
Também passou pelos teatros da prefeitura, mas o que queria mesmo era cantar na igreja e começou em 1965. “Cantei pela primeira vez na Igreja da Cruz das Almas (Vila Iório), aí não parei mais de cantar.” Chegou a gravar uma música, a Ó Maria do Céu Imaculada, no CD Em Romaria com os romeiros do Grito dos Excluídos, gravado pela Paulinas-Comep.
“E cantava só música boa”, garante. La Traviata, a opera Sansão e Dalila e Madame Butterfly’ e cantou novamente, ali, no meio da entrevista, atingindo agudos precisos, arrebatadores, cativando peregrinos que passavam pelo santuário.

Casamentos – Além de cantar nas missas, Penha cantava e muito em casamentos. A Ave Maria, que emocionou muitas noivas. Foram 40 anos testemunhando os enlaces. “Cantei em São Paulo inteirinha, porque iam me pedir que eu cantasse em outros casamentos e eu sempre ia, até na Catedral Ortodoxa, no bairro do Paraíso, já cantei. Teve uma família que eu cantei no casamento e depois nas bodas de prata”, conta.
Em 1982, passou a morar com a amiga Virgínia Graziola e, desde então, não se largaram mais. “Minha mãe morreu, e eu tinha uma amiga que conhecia a Virgínia e acabei indo morar por lá”, diz Penha. Amigas e sempre juntas, ela canta e Virgínia toca, na Paróquia Bom Jesus dos Passos, também na região Brasilândia.
A dupla estava em peregrinação pela América Latina, que percorreu México, El Salvador e Colômbia. A jovem de 82 anos não para. Já conheceu a Terra Santa e viaja a Aparecida, no interior de São Paulo, sempre que pode, para visitar o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Leva consigo uma lista com o nome de todas as pessoas que lhe pedem orações e, desse modo, aos pés da Virgem Maria, diz um por um o nome dos que lhe pediram  oração.
As viagens começaram assim que se aposentou. Antes, foi empregada doméstica e trabalhou ligada à confecção. Por oito anos trabalhou com Dener Pamplona de Abreu, no Denner, o grande precursor da alta-costura brasileira. No ateliê dele conheceu muitos artistas, entre eles Angela Maria, para quem cantou, e Elis Regina. “Conheci a Elis quando se ela casou, porque seu vestido foi feito lá com o Dener. Eu a adorava. Era uma pessoa completamente simples. Me chamava de ‘Penha maravilhosa’, sempre descalça, se sentava no chão. Lá ela não cantava, a gente conversava, eu fazia um chá para ela, chá de boldo”, revelou.

Preconceito – Mas nem sempre tudo foi sorriso na vida da cantora, o preconceito, como não podia deixar de ser, a visitou. “Teve uma vez que o reitor de uma faculdade foi em um dos casamentos que cantei e ficou procurando no órgão quem era a dona da voz. Ele devia pensar: uma negra preta velha dessas cantando?! Mas só tinha eu ali ao lado do órgão, ele não acreditou que era eu. Puro preconceito, mas Deus que escolhe, e ele me escolheu para cantar”, desabafa lembrando de outras tantas passagens em que sentiu o peso de sua cor. “Olha, era muito preconceito. Eu era pobre e negra, como seria diferente?”, perguntou.
Atualmente Penha não canta mais, apenas em momentos especiais. “Hoje não canto mais, nem em casa. Não tenho mais como soltar a voz e olha, eu cantei por 40 anos, cantei tudo o que eu queria”, diz, com ar de satisfação. “Nem ouço mais música hoje porque é lamentável a qualidade, é ruim mesmo. Fico mais ligada nas TVs católicas. A televisão também não tem nada que me interessa.”
O sol quente já estava escondido pelas nuvens quando encerrávamos a boa conversa. “Olha, eu teria muitas e muitas histórias para contar, veja, onde estamos, já daria uma outra boa história. Estou encantada com este lugar, principalmente com o ofertório dos índios à Virgem de Guadalupe”, afirma, observando o jardim do santuário e a Virgem Maria negra.




Fonte: FC edição 947 - Novembro 2014
Postado por: Família Cristã




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