É hora de voar?

Data de publicação: 21/08/2017

Por Fernando Geronazzo

“Quando o clima familiar é bom, quando há diálogo e respeito mútuo,  o jovem prefere continuar morando
com os pais por muito mais tempo, até se estabilizar financeiramente ou resolver construir uma vida junto com outra pessoa”


A juventude é o período em que se vive intensamente o desejo de alçar o voo para a liberdade. É quando se descobre que asas podem levar para além da imaginação, para experiências novas e concretas. Mas como identificar o momento em que se sente pronto para o voo?
Rosie Botelho dos Santos, 20 anos, sempre foi uma jovem tímida, reservada. Como muitas garotas de sua idade, trabalhava e estudava – acabara de começar a faculdade de Design Gráfico. Filha do casal Adriani Botelho dos Santos, 43 anos, e Marcelo Botelho dos Santos, 41, Rosie vivia em um lar harmonioso em São Paulo (SP). Desde criança, participava com os pais de várias atividades pastorais na paróquia onde viviam, até que ela foi crescendo e, com a idade, também vieram as dificuldades da adolescência.

Crises – “Minha crise de ‘aborrescência’ começou com uns 13 anos. Na escola, começavam os problemas com os amigos que mexiam comigo por eu ser muito quieta. E, em casa, meus pais passavam dificuldades financeiras, e eu não entendia isso. Necessitava da atenção deles. Então comecei a me isolar”, conta a jovem.
Em relação ao namoro Rosie era muito reservada. “Eu tinha receio de apresentar meu namorado e não gostava de partilhar minha intimidade com meus pais, pois temia que eles julgassem as pessoas com quem convivia.”
Com o último namorado que tinha sua faixa etária, a crise entre Rosie e os pais se agravou. “Ele era a pessoa perfeita para mim. Gostava das coisas que eu gostava. Sempre foi muito gentil comigo. Vivíamos grudados, e eu escondia sempre mais dos meus pais as coisas que eu fazia”, conta a jovem, referindo-se inclusive sobre a questão da sexualidade. “Eu tinha muita vergonha de me expor para minha mãe. Quando eu saía para namorar, ela me ligava para saber onde eu estava. Eu não queria que ninguém interferisse no meu relacionamento. Era tudo muito mágico e bonito.”
Adriani, por sua vez, explica que sua atitude era de preocupação própria de uma mãe. “Eu não queria cuidar da vida dela. Mas, hoje em dia, vivemos em um mundo cheio de riscos. Se acontecesse algo com minha filha e ela não voltasse para casa, por onde eu começaria a procurar? Isso que eu queria que ela entendesse.”

O estopim – A situação-limite foi em agosto de 2013, quando Rosie chegou em casa cansada do trabalho e sua mãe foi falar com ela. Iniciou-se uma grande discussão que chegou até ao limite da agressão física de ambas, que foram apartadas por Marcelo. “Quanto mais eu falava as coisas para Rosie, mais ela me ignorava, aquilo foi me irritando. Então eu segurei forte no braço dela e ela partiu para cima de mim”, relata Adriani. “Eu nunca tinha partido pra cima de ninguém. Esse foi o meu limite”, completa Rosie.
Tomada pela raiva, Adriani despejou sobre a filha tudo o que pensava sobre o namoro dela, a ponto de dizer que os jovens jamais seriam felizes nesse relacionamento. Essa foi a gota d´água para Rosie deixar a casa. No dia seguinte à briga, Adriani e Marcelo tinham uma viagem que já estava programada, e Rosie não quis ir. Durante a viagem, a jovem fez as malas e foi para a casa do namorado.
Em seguida, Rosie e o namorado alugaram uma casa e foram morar juntos. “No começo, eu sentia muita raiva dos meus pais. Para mim, lugar certo era com meu namorado, uma pessoa que me ama, que faz tudo por mim, nunca levantou a voz para mim”, acreditava Rosie. Ela queria romper definitivamente com o passado, a ponto de pedir que fosse despedida do trabalho e abandonasse a faculdade de Design Gráfico que acabara de começar. “Só que um tempo depois, meu namorado também pediu demissão do trabalho. Mesmo assim eu me sentia feliz por estar com ele.” Então, o jovem casal se mantinha com as parcelas do seguro-desemprego.

Caindo em si – Enquanto isso, um vazio interior inquietava Rosie. “Eu não admitia que sentisse falta de meus pais. Mas aos poucos me dava conta de que ali não era o meu lugar. Eu imaginava que, indo morar com o namorado, eu encontraria a felicidade, mas, na verdade, tornou-se uma prisão em mim mesma.”
Então, Rosie tomou coragem e mandou uma mensagem para o celular da mãe. “Disse que estava me sentindo mal e arrependida.” Quando leu a mensagem, Adriani ficou surpresa. “Minhas pernas tremiam, eu não sabia o que escrever. Então eu apenas respondi: ‘Volta para casa, filha!.”
De acordo com a psicóloga, consultora comportamental e mediadora de conflitos Olga Tessari, são vários os motivos que podem levar um jovem a sair de casa. Em geral, é pela falta de liberdade, falta de respeito dos pais por ele ter opiniões, valores e conceitos de vida diferentes em relação ao que os pais acham correto ou adequado, por causa de conflitos de ideias... Em suma, é quando o clima familiar se torna insuportável, e ele resolve se afastar desse conflito que não consegue resolver, justamente por não haver diálogo. “Quando o clima familiar é bom, quando há diálogo e respeito mútuo, o jovem prefere continuar morando com os pais por muito mais tempo, até se estabilizar financeiramente ou resolver construir uma vida junto com outra pessoa”, completa a psicóloga.
Hoje Rosie não está mais namorando com o rapaz, pois ele não aceita voltarem a viver em casas separadas. “Eu o amo, mas prefiro minha família. É mais importante eu vivenciar essa experiência familiar. Posso ter tudo o que eu quiser, mas se eu não me sentir amada de verdade, como eu sou aqui em casa, esses sonhos não serão nada”, destaca a jovem, que agora tem novos planos, um deles é ser arquiteta.




Fonte: FC edição 939 - Março 2014
Postado por: Família Cristã




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