Quando ajuda vira intromissão

Data de publicação: 25/08/2017

 

  Por Nathan Xavier                                                       

 

Há muito que aprender com a experiência dos pais e sogros, desde que não se intrometam demais na vida do casal

 

É normal que jovens casais busquem alguns pequenos ajustes. Afinal, são duas vidas com culturas e vivências diferentes se unindo e que, às vezes, carregam bagagens nem sempre solicitadas, como a intromissão dos pais. Fábio Almeida, por exemplo, é casado há pouco mais de um ano com Luciana – completa a família o pequeno Murilo, de 11 meses – e conta algumas histórias de intromissão de Maria Almeida, sua mãe. “Ela sempre deu palpite”, diz. Um deles foi no cardápio do Buffet para o casamento. Ele e Luciana escolheram um molho de mostarda para acompanhamento da carne. “Mas tem que ser molho madeira”, atacou Maria. Os dois tentaram convencê-la de que mostarda era mais ao gosto deles. Qual prevaleceu? “O de madeira”, conforma-se Fábio.

Sem querer fazer uma leitura fundamentalista da Bíblia, tão em moda ultimamente, o fato é que Jesus, já em seu tempo e citando o Antigo Testamento, afirmou uma verdade sobre o casamento que é mais atual do que nunca. “O homem deixará pai e mãe e os dois serão uma só carne.” Bem, o fato é que “uma só carne” não deveria incluir alguns dedos de terceiros, em especial de pai, mãe, cunhadas, cunhados e afins. Afinal, as consequências podem ser desastrosas caso a ajuda se transforme em intromissão. Para comprovar, está aí a má fama de algumas – não todas, obviamente – sogras.

Crises – Outra intromissão foi com Fábio e Luciana já casados e a casa montada. Maria insistiu para que comprassem um tanquinho, máquina de lavar usada para lavar pano de chão ou tecidos pesados. Eles já tinham uma máquina de lavar e não precisavam do tanquinho. Maria insistiu, sem sucesso, mas não se deu por vencida. “Um dia ela ligou e disse que chegaria um tanquinho em casa”, lembra Fábio. Ela comprou o eletrodoméstico e mandou entregar. Ao menos desta vez prevaleceu a vontade do filho: “A fiz devolver”. Mas as intromissões ainda rondam o casal na disposição dos móveis e limpeza da casa, cuidados com o neto, finanças etc. O rapaz afirma que quem mais respeita é o sogro, Clóvis: “Ajuda sem se intrometer”. Mas até ele já cometeu deslizes, como consertar a porta da varanda sem ser solicitado.

A situação de Luciana e Fábio é universal. Uma recente reportagem da BBC Brasil relata que a Arquidiocese de Udine, norte da Itália, abriu um curso chamado Famílias em Diálogo, Como Ser Pais Eficientes com Filhos que Vivem a Experiência de Casal. A iniciativa objetiva orientar sogros e sogras a não interferirem na vida de casal dos filhos. Segundo o padre Giuseppe Faccin, responsável pela Pastoral da Família, da Arquidiocese, ao menos três em cada dez casamentos entram em crise devido aos sogros. “Em algumas regiões, a proporção chega a 50%”, afirma. A iniciativa, infelizmente, está longe de integrar o currículo dos cursos de noivos das igrejas no Brasil.

Outro lado – A ideia seria bem-vinda. Fábio e Luciana já se desentenderam por causa dos sogros. “98% das brigas são por causa dos pais. Não aceito coisas que a mãe dele faz, e ele não aceita coisas que meus pais fazem”, diz a jovem. E completa: “O Fábio foi criado de um jeito, e eu de outro. Mas quando casamos nos alinhamos. Porém, quando as mães entram em casa os conflitos começam, pois as coisas passam a não mais acontecer do nosso jeito”. Luciana afirma que controla um pouco mais as ações da mãe: “Ela faz do meu jeito, mas fica falando que devia ser de outro”.

É preciso paciência, pois os pais se sentem perdidos quando os filhos saem de casa. Segundo Josiane Souza, terapeuta de casais, julgamos muito os outros como responsáveis por nossos sentimentos, e isso é errado. “Não são os sogros os responsáveis por algo, mas a atitude deles que pode ser encarada de forma negativa.” E ainda lembra que “muitas vezes os sogros não se dão conta de que estão atrapalhando”. Luciana admite: “Eles não fazem por mal, mas por entenderem ser a forma correta”. Mas o fato é que nem por isso deixam de atrapalhar.

É a vida – Caso os pais estejam causando conflitos, a psicóloga recomenda uma conversa aberta entre o casal, para identificar os incômodos e quais atitudes, gestos ou fala não estão sendo bem recebidos. “Os outros só fazem o que permitimos”, lembra Josiane. E tudo depende de como recebemos essas atitudes. “Às vezes um dos dois está recebendo como uma crítica algo que na verdade não é”, completa. Na conversa entre o casal, pode surgir uma explicação para satisfazer a pessoa atingida: “Se a sogra está dando palpites na arrumação da casa, por exemplo, e a esposa se incomoda, pode-se chegar à conclusão que não se trata de uma implicância, mas é a sogra que se sente mais útil ajudando”, conclui.

Fábio e Luciana, no caso, já identificaram os incômodos. “É o cuidado demais e a confiança de menos. Eles não nos veem como adultos e acreditam que ainda dependemos deles”, conta Fábio. Para a terapeuta, se o casal concluir que a intromissão atrapalha, é preciso ser transparente. “O esposo deve falar com a mãe: ‘Quando a senhora fala como a gente deve arrumar a casa minha, esposa recebe essa fala como se ela não tivesse capacidade’.” Fazer tal colocação de modo adequado é importante para os pais não se melindrarem. “É preciso levar em conta que o problema não é a pessoa, mas a atitude dela”, reforça Josiane.

Apesar dos atritos que ocorrem em qualquer relacionamento, é sempre melhor quando os casais veem a ajuda dos pais como contribuição. “Há muito que aprender com quem tem mais experiência, apesar dos percalços”, garante Josiane. O próprio papa Francisco, na missa onde oficiou os primeiros casamentos de seu pontificado, confirmou: “As famílias constituem o primeiro lugar, onde nos formamos como pessoas e são os ‘tijolos’ para a construção da sociedade. Não é um caminho suave e sem conflitos! É uma viagem laboriosa, chegando a ser conflituosa. Mas é a vida!”. E, assim, Luciana e Fábio seguem em frente. “Apesar dos probleminhas pontuais, sou feliz por ter mãe e sogra juntas e se dando bem”, diz o jovem marido.





Fonte: FC edição 946- outubro 2014
Postado por: Família Cristã




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