Sintonia e sincronia

Data de publicação: 04/09/2017

Por Frei Luiz Turra

Para a Igreja Católica, a liturgia possui níveis de comunicação que permitem cativar o ser humano na sua totalidade, pois a simplicidade dos gestos e a sobriedade dos sinais comunicam e cativam


Para iniciar a nossa reflexão referente a esta realidade-chave da dimensão celebrativa da Igreja, evocamos um enunciado do papa Bento XVI: “Com efeito, a liturgia, por sua natureza, possui uma tal variedade de níveis de comunicação que permitem cativar o ser humano na sua totalidade. A simplicidade dos gestos e a sobriedade dos sinais, situados nos momentos previstos, comunicam e cativam mais que o artificialismo de adições inoportunas” (Sacramentum  Caritatis, 40).
A arte da comunicação, na celebração eucarística, é uma chave merecedora de um espacial cuidado para que o rito, na sua globalidade, não se torne um ritualismo vazio, mas seja vivido como uma experiência cativante e ao mesmo tempo mistagógica. Claro que a comunicação, na celebração da Eucaristia, não pode ser uma comunicação qualquer, mas especial, envolvente e toda direcionada ao mistério celebrado.

Participar, não assistir − Sabemos que a participação na liturgia é o DNA da renovação litúrgica proposta pelo Concílio. “Por isso a Igreja, com diligente solicitude, zela para que os fiéis não assistam a este mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas cuida para que bem compenetrados pelas cerimônias e pelas orações participem consciente, piedosa e ativamente da ação sagrada” (SC, 48).
Este sonho começou a acontecer e se constitui num longo processo que nos interpela sempre mais à comunicação global e à conversão. É certo de que temos um longo caminho a percorrer, mas precisamos acreditar nesta riqueza que nos é oferecida pelo Senhor e pela Igreja na caminhada da história. “Com efeito, o primeiro modo de favorecer a participação do povo de Deus no rito sagrado é a condigna celebração do mesmo; a arte da celebração é a melhor condição para a participação ativa” (SC, 38).

Além dos sentidos − Na celebração da Eucaristia, a verdadeira sintonia vai além dos sentidos. Não basta que todos ouçam as mesmas palavras, que todos vejam os mesmos símbolos e realizem as mesmas ações. Na verdade, só vemos bem com o coração. Só ouvimos bem com o coração.
A celebração do Mistério Pascal não pode parar no presbítero que preside, nem no leitor que comunica a Palavra, nem nos que servem no canto litúrgico, nem nos demais ministros em seus serviços. A referência que dinamiza e dá sentido e faz acontecer a sintonia é o Cristo vivo ontem, hoje e sempre.
É para Cristo e n’Ele que converge a liturgia da Palavra, tanto do Antigo, como do Novo Testamento. É por Cristo que a liturgia eucarística faz acontecer o memorial e o banquete da comunhão. “A beleza intrínseca da liturgia tem, como sujeito próprio, Cristo ressuscitado e glorificado no Espírito Santo, que inclui a Igreja na sua ação” (SC, 36).

Para a sintonia − A dispersão, a distração e a superficialidade são inimigas da sintonia. Nossa cultura atual, gerada pela idolatria dos meios, tende a desviar a pessoa e a sociedade dos fins e esvaziar a densidade justa das grandes aspirações do coração humano. Estamos sempre mais distraídos e expostos à superficialidade.
Uma assembleia em sintonia é possível desde que acreditemos no dinamismo do Reino em seu “já” e em seu “ainda não”. A graça libertadora de Deus sempre se antecipa e nos garante a possibilidade do encontro. Também se faz necessário acreditar que o coração humano continua inquieto na procura do “mais”, do “melhor” e do “maior”. O Mistério Pascal não é somente “visto” ou “contemplado”, mas sobretudo “vivido” e, portanto, destinado a criar um conhecimento experimental. Assim, pode se tornar o mais perfeito método de espiritualidade e sintonia.

Um caminho de beleza − Nossa celebração eucarística é uma verdadeira fonte da mais profunda comunicação e comunhão. A linguagem litúrgica fala e desperta atenção quando consegue sincronizar o “verbal” e o “não verbal”, o rito e o símbolo, o gesto e a palavra, a expressão corporal e o que se proclama.
Por exemplo: imaginemos o começo de uma missa, onde o presbítero que preside comunique a saudação, sem olhar para o povo. Pensemos num rito de perdão expresso com um canto de animação. Como é possível despertar alegria e ânimo numa assembleia litúrgica com rostos tristes e desanimados? E o canto litúrgico? “Verdadeiramente, em liturgia, não podemos dizer que tanto vale um cântico como outro... O canto deve integrar-se na forma própria da celebração... e corresponder ao mistério celebrado” (SC, 42).
O povo, em geral, tem um sexto sentido. Percebe logo quando os agentes da celebração estão sincronizados; vivem ou não vivem o que celebram. Uma coisa é sermos funcionários do culto, outra é sermos celebrantes sintonizados com o Mistério e sincronizados com o todo da ação litúrgica.

Conclusão − Creio que este tema da sintonia e a sincronia realmente necessite ser levado em conta com especial cuidado, pois se constitui num pressuposto indispensável à pastoral litúrgica. A qualificação deste cuidado de comunicação, além de ser um direito da celebração em si, é também um grande fator educativo para o povo de Deus. Numa grande cidade, o povo sedento de encontro com Deus migra para a fonte onde encontra mais água.

Perguntas
1.Como avaliamos a comunicação em nossas celebrações eucarísticas?
2.Qual é o foco que motiva e dinamiza a nossa sintonia na liturgia eucarística?
3.O que é sincronia e qual a importância na ação litúrgica?





Fonte: FC edição 938- fevereiro 2014
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Evangelização, sim!
Para Francisco, a evangelização não pode confundir-se com o clericalismo nem com o proselitismo.
O Anjo Bom do Brasil
Irmã Dulce,a religiosa que conquistou o coração do povo brasileiro será canonizada.
Mesa da Palavra
13º. Domingo do Tempo Comum - Ano C • 30 de junho de 2019 - Solenidade de São Pedro e São Paulo
Mesa da Palavra
A fé cristã professada pela Igreja Católica é de tal forma complicada, que só pode ser verdadeira.
Mesa da Palavra
Solenidade de Pentecostes.Quando ele vier, conduzirá os discípulos à plena verdade.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados