O poder construtivo da infi...

Data de publicação: 27/09/2017

Por Padre José Rafael Solano Durán

A perseverança é a virtude que com maior afinco deve ser procurada não para sermos fortes e sim para sermos verdadeiros

Sempre que pensamos na infidelidade o fazemos de modo negativo. É verdade que ser infiel traz consigo uma carga profundamente destrutiva e quase que aniquiladora. Tive a oportunidade de receber aulas de Teologia Moral Fundamental do grande moralista Klauss Demmer. Ele insistiu ao longo do curso que na história de salvação o único que é plenamente fiel é Deus, mas que, de modo genuíno, Deus conta conosco, que somos infiéis. Essa descoberta tem-me levado a lidar com maior serenidade com as minhas infidelidades e com as infidelidades do meu próximo.
Muitos casais perderam o rumo ao saber que o seu cônjuge o teria traído. Partimos de um fato claro, ou seja, o de que a única “traição” não está circunscrita ao campo da sexualidade. Muitos cônjuges lutam diária e constantemente para serem fiéis nas atitudes, nas palavras e no agir.
Sermos ou não fiéis não depende da nossa capacidade ou do nosso poder de domínio. Muito pelo contrário, grandes figuras bíblicas distanciaram-se de Deus na medida em que praticavam infidelidades públicas ou privadas.
No ambiente no qual nos encontramos, percebemos que é muito mais frequente uma constante infidelidade. Nossos relacionamentos são excessivamente fragmentados e, por vezes, percebemos que confiar no outro é algo mais do que uma simples aventura, um verdadeiro “risco”. Por que confiar se tenho a leve suspeita de que, mais cedo ou mais tarde, me trairá. Essa pergunta desestabiliza e ao mesmo tempo sustenta muitas pessoas.  No tempo em que tudo parece inseguro, ser infiel vai além do que cometer uma simples traição, é uma estratégia dentro da estrutura social frequentemente utilizada. De fato, muitas pessoas não querem imaginar ou pensar sequer por um momento que poderiam ter sido traídas. “Já vi muitos querendo enganar, mas nenhum destes quis ser enganado”, assim afirma o santo de Hipona Agostinho.

A dignidade − Como então construir uma relação mais sólida e forte quando a infidelidade nos atinge, como reavivar nossa consagração sacerdotal, religiosa ou nossos votos conjugais quando por alguma razão temos sido infiéis? Uma resposta digna de ser vista é dada pelo filósofo personalista Emanuel Mounier.
A pessoa precisa retornar ao seu campo de dignidade. O fato de sermos infiéis ou cometermos um ato de infidelidade rompe nossa mais originária permanência dentro daquele campo de segurança que nos traz a dignidade. A infidelidade sustenta-se na mentira e, cada vez que por algum motivo desprovidos da verdade e da sensatez procuramos ser infiéis, perdemos aquele chão sólido e fecundo da nossa dignidade.
O ser fiel na relação com Deus e com o nosso próximo constrói em nós aquela imagem do rosto da epifania da presença; mas quando, por alguma razão, este ser fiel se desfaz, devemos sair de novo ao encontro do rosto da misericórdia! Jesus, afirma o papa Francisco, na bula O Rosto da Misericórdia, sempre volta o seu olhar sobre as nossas infidelidades com doçura esperança. Ternura para não nos recriminar e esperança para entendermos que, com a pedagogia do amor, cada vez que somos infiéis rompemos aquela Aliança perpetuada no amor do Pai, que sempre nos perdoa.
Reconstruir, após uma infidelidade, é constatar que o amor de Deus por nós é eterno, que ele nunca se cansa. Nossa fidelidade marcada pelas nossas limitações nos ensina que quando alguém é infiel para com nós nem sempre o faz de propósito ou de forma premeditada. Restabelecer um casamento no perdão, um noivado aplicando o bálsamo da reconciliação ou voltar ao ministério ou à vida religiosa na serenidade de quem se sabe perdoado é um sinal visível do saber recomeçar.
Aceitar que fomos traídos ou que cometemos uma traição não é nada fácil. As feridas podem ser profundas ou superficiais, as marcas podem ser na epiderme ou no coração, as consequências podem até trazer um distanciamento, um rompimento ou situações muito difíceis de encarar, tudo isto é possível. Mas reconhecer a infidelidade e procurar o perdão é, sem dúvida nenhuma, a maior e mais santificadora de todas as atitudes. Viver na infidelidade não é nem sadio nem humano; pensar que é um simples “caso” momentâneo ou eventual não é nada de bom. Para sairmos da nossa infidelidade, precisamos de coragem e sobretudo de paz interior para poder fazer aquele movimento de volta que fez o filho pródigo, Zaqueu, a Samaritana e o próprio Pedro. Fomos e somos infiéis, mas queremos voltar ao lugar aconchegante da fidelidade.
Estamos próximos ao evento santificador do anjo extraordinário da misericórdia, tenho certeza de que será um ano marcado pelo encontro com Deus, com quem somos constantemente infiéis, mas de modo especial um encontro com aqueles a quem por alguma razão ofendemos com a nossa infidelidade.
Lembremos que não será o ato de sermos fiéis ao longo da vida aquilo que nos promove e nos apresenta diante do Pai como pessoas justas. Será o nosso trabalho perseverante para sermos fiéis no pouco, naquele estilo de vida que cada um de nós tem.  A perseverança de fato é a virtude que com maior afinco devemos procurar, não para sermos fortes e sim para sermos verdadeiros, aqui se encontra a chave que abre a porta para uma vida em comunhão com aquele que, sendo fiel em tudo, conta conosco, que somos infiéis em boa parte das nossas vidas!




Fonte: FC Edição Nº960 - Dezembro 2015
Postado por: Família Cristã




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