O dom da ciência

Data de publicação: 09/10/2017

Por Maria Inês Carniato, fsp *

Luz de Deus no olhar humano,
a ciência é o dom dos profetas e dos santos
 
     Muito mais ampla e profunda do que o conhecimento intelectual, a ciência sobrenatural ilumina o olhar dos santos, que de simples se tornam sábios, como o foi São João Maria Vianney. 


Ver tudo à luz de Deus – A Sagrada Escritura tem passagens que só o olhar da fé pode entender. Diz Isaías sobre o tempo messiânico: “O bebê vai brincar no buraco da cobra venenosa, a criancinha enfia a mão no esconderijo da serpente. Ninguém fará mal, ninguém pensará em prejudicar, na minha santa montanha. Pois a terra estará repleta do conhecimento do Senhor, assim como as águas cobrem o mar” (Is 11,8-9). É uma afirmação assustadora para a lógica humana, mas reveladora sob a luz do “conhecimento do Senhor”.
Diz o profeta Daniel: “Lá no alto, existe o Deus do céu que revela os mistérios” (Dn 2,28a). Mistérios que põem ao alcance humano a ciência de Deus, uma ciência como a do israelita Eleazar. Torturado por defender a lei de Moisés, ele diz aos algozes: “O Senhor, que tem a santa ciência, sabe que eu, podendo escapar da morte, estou suportando cruéis dores em meu corpo ao ser flagelado, mas sofro-as de boa vontade em minha alma, por causa do seu temor” (2Mc 6,30).
Jesus, no templo de Jerusalém, ao ver a viúva ofertar uma pequena moeda, proclamou aquela oferta maior do que a dos ricos (cf. Mc 12,41-44). A ciência contempla aquilo que as aparências escondem.
O apóstolo Paulo promete aos efésios: “Conhecereis também o amor de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento, e sereis repletos da plenitude de Deus” (Ef 3,19). Paulo sentia-se iluminado pela ciência do Espírito, sua experiência o fez aclamar: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus! Como são insondáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos!” (Rm 11,33).


Luz do profundo – O conhecimento que o apóstolo Paulo experimentou não está ao alcance das simples faculdades humanas. Requer o amor ativo e serviçal. Ele advertiu os cristãos de Corinto: “Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de remover montanhas, mas não tivesse amor, eu nada seria” (1Cor 13,2). 
Enquanto o dom da inteligência conduz a criatura ao íntimo de si mesma, onde ela aprofunda as raízes no Criador, o dom da ciência a inunda de um conhecimento que transborda sobre toda a criação. A ciência ilumina a profundidade de tudo e vê o bem e o mal até onde as aparências materiais mostram o contrário. Se a fortaleza é o dom dos mártires, a ciência é o dom dos profetas, que enxergam no futuro as consequências dos atos presentes.
A ciência traz a contemplação. Contemplar Deus é a atividade dos anjos, que, pelo Espírito de Cristo, foi oferecida aos seres humanos.  

Um “ganso maluco” – São João Maria Vianney, ao ver-se em uma foto, exclamou rindo: “Tiraram-me um retrato! Sou eu mesmo, tenho um ar de maluco e me pareço com um ganso!”. Tal simplicidade, unida à ciência sobrenatural, fez do mais humilde dos sacerdotes um mestre de bispos e cardeais.   
      Nascido em 1786, em Dardilly, na França, e falecido em 1859, João Maria Vianney aprendeu a ler na escola da aldeia, antes que fosse fechada pela Revolução Francesa. Cresceu entre rebanhos e vinhas, mergulhado na oração e no desejo de ser sacerdote. Aos 19 anos, tentou realizar o sonho, mas não foi aceito por falta de instrução, ficando sua preparação básica a cargo de um sacerdote da Diocese de Lyon, padre Carlos Balley.
Aos 25 anos de idade, João Maria Vianney entrou no seminário de Verrières, para cursar Filosofia e Teologia. Marcado por um forte impedimento, não conseguia aprender o latim. Na primeira vez em que foi interrogado, nada entendeu e ficou mudo. Os professores tentaram ajudá-lo por seis meses, sem resultados. E, com pesar, o demitiram, por suporem nele incapacidade intelectual.
Padre Balley, no entanto, certo da vocação do jovem, dispôs-se a explicar-lhe a teologia em língua francesa, ao que ele entendeu sem dificuldades. Tempo depois, voltou ao seminário para os exames finais e ficou, outra vez, sem palavras diante das questões formuladas em latim. Só foi aprovado quando os professores testaram seus conhecimentos falando francês.   
Ordenado sacerdote aos 29 anos de idade, com a dolorosa fama, não verdadeira, de fraca inteligência, padre Vianney foi destinado como cura (capelão) da esquecida aldeia de Ars, com pouco mais de 200 habitantes. Aos sábados, ele preparava longamente a homilia dominical e a repetia em voz alta, noite adentro.
Os anos se passaram, a santidade do Cura d’Ars se divulgou, e peregrinos vieram de longe se confessar com ele. Sem tempo de se preparar, ele suplicou ao Espírito Santo a graça de falar no púlpito sem elaborar antes a homilia. Progrediu de tal modo na ciência sobrenatural que até sacerdotes e bispos passaram a vir escutá-lo, pedir conselhos, confessar-se e rezar ao seu lado.
O biógrafo Francis Trochu descreve um comentário do Cura d’Ars ao Sacramento do Matrimônio: “Quando dois esposos se acham há pouco casados, não se cansam de olhar, acham-se tão simpáticos, tão cheios de boas qualidades! Admiram-se e se dispensam mil amabilidades. Mas a lua de mel não dura para sempre. Chega o momento em que esquecem as qualidades que descobriram um no outro e aparecem os defeitos que não haviam percebido. Agora já não se podem suportar. O marido diz à mulher: ‘Preguiçosa, rabugenta, nulidade!’” (Trochu, O Cura d’Ars, p. 187). Uma visão tão sábia, prática e humorística da vida cotidiana ajudava os ouvintes, humildes ou letrados, a verem a simplicidade da fé.
Os documentos da canonização confirmam casos em que o Cura d’Ars deu provas de conhecer, à luz de Deus, as mentes, os corações e até fatos futuros da vida das pessoas. Bispos e cardeais o consultavam sobre questões difíceis, e ele sempre os iluminava com palavras proféticas. Canonizado em 31 de maio de 1925, pelo papa Pio XI, São João Maria Vianney foi, na mesma data, proclamado Protetor dos Párocos.    
No coração de um santo de pouca instrução humana, que, com humildade bem-humorada se comparava a um maluco com cara de ganso, o Espírito Santo acendeu a mais alta chama da ciência de Cristo.
Na próxima edição, conheça o dom da piedade.

* Maria Inês Carniato, fsp, é Irmã Paulina e mestra em Teologia.

 




Fonte: fc edição 942-junho 2014
Postado por: Família Cristã




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