Pecado e misericórdia

Data de publicação: 23/10/2017

Por Frei Luiz Turra*


O Mestre do perdão e da reconciliação chama seus discípulos a ligarem e desligarem na terra conforme sua prática misericordiosa

Começamos esta reflexão lembrando o pensador inglês, escritor e candidato à beatificação Gilbert Keith Chesterton (1874-1936). A principal razão de ter se tornado católico foi a necessidade de ver seus pecados perdoados. Tal perdão só era oferecido com a objetividade própria de um sacramento pela Igreja Católica. Ele não se conformava com a insanidade que lhe parecia viver por ter que guardar para si os pecados durante a vida inteira. Um colega escritor de Chesterton entendia a confissão dos pecados a um ministro de Igreja como um ato mórbido. A este amigo, ele respondeu: “Mórbido é não confessá-los, é ocultar os pecados, deixando que eles corroam o coração das pessoas – estado em que vive a maioria das pessoas das sociedades altamente civilizadas”.
Chesterton, como bom observador, descrevia com detalhes o que via nos templos católicos. As pessoas que iam comungar o faziam segurando com todo o cuidado os seus casacos e bolsas, ao contrário das capelas anglicanas, nas quais os fiéis deixavam seus pertences na antessala, sem nenhuma preocupação. Diante desta constatação, ele afirma, com bom humor: “Eu nunca deixaria sem vigilância um bem da minha propriedade em um lugar, no qual quem quisesse roubá-lo tivesse oportunidade quase simultânea de receber o Sacramento da Penitência”. Assim mesmo, confirmou preferir o catolicismo com seu Sacramento do Perdão, ainda que tivesse de vigiar seus pertences.

Reconciliação – Mesmo sendo santificada em Cristo, a Igreja não deixa de ser pecadora em nós, humanos. Aqui está a razão da necessidade fundamental de cultivar constantemente a atitude penitencial. Somos corresponsáveis na culpa e necessitados da constante cooperação no processo de conversão. Cada um é chamado a rever a vida, as atitudes, vivências e visões não só a partir de si mesmo. Nossa direção iluminadora de um viver saudável, integrado e integrador é Deus, que tem clareza do projeto de vida para cada um e da comunhão eclesial. Ao examinarmos nossa consciência, é fácil ficarmos girando demais ao redor de nós mesmos. Esse é um caminho perigoso e equivocado que nos leva a um beco sem saída.
Somos Igreja pelo Batismo e nos tornamos corresponsáveis pela vitalidade fecunda do corpo de Cristo. Na realidade, o pecado de um dos membros afeta e lesiona as relações com a comunidade inteira. Acaso não sofre o nosso corpo quando um de nossos membros está enfermo? Não atinge toda a família a ofensa ou o descaminho de um só filho?
A preocupação da comunidade não é bisbilhotar a vida das pessoas para lhe descobrir o cisco no olho. O Mestre do perdão e da reconciliação chama seus discípulos a ligarem e desligarem na terra conforme sua prática misericordiosa, sabendo que “há mais alegria no céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão” (Lc 15,7).

Empenho – A reconciliação da pessoa e da comunidade também é fruto de um caminho de conversão, que, para Jesus, consiste em crer no Evangelho, na Boa-Nova da proximidade salutar e amorosa de Deus. O empenho pela reconciliação parte do olhar de Jesus. Sua paixão é ajustar todas as humanas relações, conforme os projetos do Pai e as grandes aspirações inscritas no coração humano. Deduzimos claramente que a reconciliação não é uma questão “privada”, mas uma necessidade comunitária. Esta acontece em três níveis:
•    Com a Igreja toda: Somos o corpo vivo e sempre atual de Cristo. O Crucificado Ressuscitado atinge a todos e a cada ser humano em sua profundidade. Esta comunhão n’Ele e com Ele faz acontecer a comunhão dos santos. Para além de toda a barreira, estamos unidos na fé, no amor, na esperança, na graça, no bem e também no mal. São as mãos invisíveis que se unem para erguer o irmão caído. A súplica pelas vítimas do pecado vai favorecendo e contagiando a cura de todo o corpo da Igreja.
•    Com a comunidade particular: Quem nos rodeia pode exercer em nós uma acentuada influência transformadora. Esta pode nos ajudar pelo testemunho de vida, pela palavra, pelo convite e experiência de participação, pela conjunta formação cristã, pelo clima favorável e alegre que advém da vivência cristã, pela caridade organizada e pela viva celebração dos sacramentos, principalmente da Eucaristia.
•    Com a mediação do ministro: Falando do Sacramento da Penitência, de imediato vem à mente a presença do confessor. Na misericordiosa acolhida do penitente, o confessor se torna um “sacramento de Cristo”, para quem celebra o Sacramento da Penitência. Na próxima edição, trataremos melhor deste sagrado ministério do confessor. Até lá!

Perguntas
1.    Que lição pode ensinar o escritor Chesterton a respeito do Sacramento da Penitência ou Reconciliação?
2.    O que tem a ver a Igreja com a realidade do pecado das pessoas?
3.    Em que níveis podemos encontrar ajuda favorável à reconciliação?

*Frei Luiz S. Turra pertence à Ordem dos Frades Menores Capuchinhos




Fonte: FC edição 946- outubro 2014
Postado por: Família Cristã




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