Viola, nossa viola

Data de publicação: 25/10/2017

Por Karla Maria


Antes utilizada na catequese indígena, hoje a viola caipira une arte, fé e tradição do sertanejo brasileiro

A viola é composta por cordas duplas agrupadas em cinco ordens. Pode-se encontrá-la também com 12 cordas, sendo três pares e duas cordas triplas, mantendo a ideia das cinco ordens. Possui um bojo construído, normalmente, com dois tipos de madeira, uma mais macia, como o pinho, no tampo, e outra mais dura, como o jacarandá, nos lados e no fundo. Detalhes técnicos a respeito da viola caipira terminam aqui para o leitor ser convidado a conhecer a boa história da moda de viola que surge no século 8 com o encontro das culturas árabe e europeia.
“Inúmeros instrumentos musicais foram gestados na Península Ibérica a partir do enlace cultural de mouros, cristãos e judeus sefarditas, por volta do século 13. Um deles foi a guitarra latina”, aponta o músico Ivan Vilela. Desta guitarra latina nasceu a viola caipira, também conhecida como sertaneja, cabocla ou brasileira, com encordoamento de arame. Um instrumento de som forte bem definido, capaz de unir a fé e a arte, o popular e o sagrado. Ciente disso, o padre José de Anchieta, logo que pisou no Brasil, no século 16, teria utilizado a viola, entre outros instrumentos musicais, para se aproximar dos indígenas. “Além das violas, os portugueses tocavam pífanos, tambores e gaitas, aliando a estes instrumentos indígenas, como maracás, buzinas e flautas”, completa Ivan.

Memórias – Séculos depois, padre Agnaldo José, nascido em Santa Cruz da Esperança (SP), faria o mesmo. Colocou sua voz às cordas da viola caipira de Marcelo Viola e, de novo, misturou fé e arte em louvação ao sagrado com o álbum Viola em Oração lançado por Paulinas-Comep. “Anchieta foi um dos pioneiros. No litoral de São Paulo, os Jesuítas usavam a viola como um meio de evangelização eficaz. Foi aí que surgiu a ideia de realizar esse trabalho”, revela o sacerdote filho de agricultores, que, quando criança, viveu no campo e aprendeu a gostar do instrumento.
Apropriada pelo gosto popular rural, a viola ali permanece. “Nossa viola sertaneja permaneceu nas mãos do povo, como um verdadeiro remanescente da velha viola portuguesa setecentista, a mesma que havia acompanhado as saborosas modinhas do sacerdote Domingos Caldas Barbosa”, registrou o musicólogo e folclorista Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, no artigo “Cultura política”, publicado em 1943 e onde é apresentada uma análise da viola no contexto urbano e rural.
O instrumento esteve muito presente ainda nas culturas bandeirante e tropeira, a ponto de se firmar como elemento cultural nos espaços em que andaram e se fixaram as bandeiras. Viajantes do século 19 relatam a musicalidade dos tropeiros que, nas horas do rancho, improvisavam versos ao som da viola. Aos poucos, no Nordeste, a viola foi se firmando como instrumento de repentistas, perpetuando a tradição árabe dos jograis, enquanto no Sudeste e Centro-Oeste brasileiros foi se tornando porta-voz do povo.

Resistência – Testemunha dessa interiorização do instrumento é o violeiro Oliveira Alves Fontes, com 75 anos. Morador em Guarulhos (SP), município da Grande São Paulo, mas nascido há 75 anos na então Comarca de Córrego das Perobas, região de São José do Rio Preto (SP), ele aprendeu a tocar modas ainda pequeno. “Observava um tio tocar até que decidi comprar uma viola porque não dava mais para, escondido, pegar a do meu tio emprestada”, recorda. O instrumento custou algumas galinhas e uma porca. Esta lembrança do violeiro que se tornou mestre de cateretê foi contada, claro, ao som de algumas modas.
Oliveira acredita que se música sertaneja de raiz ainda tem algum público isso se deve, em parte, à amiga Inezita Barroso, que apresentava o programa Viola, Minha Viola, na TV Cultura de São Paulo (SP), até a sua morte, em março. O show musical, de fato, estava no ar há 34 anos ininterruptos, sendo o mais antigo da TV brasileira, e significava um espaço de resistência do gênero. Por isso, a emissora estuda mantê-lo no ar com um novo apresentador, que poderá ser o ator Lima Duarte ou o cantor Sérgio Reis, entre outros cogitados. “Viola, Minha Viola é um programa conhecido até internacionalmente porque Inezita, com seu jeito único, divulgava o estilo”, credita o violeiro, frequentador assíduo do show, ao lado do grupo Os Favoritos da Catira, fundado por ele em 1978.
Para Oliveira, a música sertaneja urbana atual é ruim. “O sertanejo universitário não tem variedade de ritmo. São quatro ou cinco linhas de letras com pornografias e duplos sentidos que nada têm a ver com o sertanejo”, critica o violeiro, ainda fiel a Zé do Rancho, Bambico, Tião Carreiro, Douglas Cruz e a outros artistas sem mídia por falta de jabaculê, nome dado ao dinheiro com que se compra espaço em rádios, TVs e outros veículos de comunicação. Mas mesmo com pouco apoio, ainda ajudam a manter a autêntica tradição sertaneja nas orquestras de viola que se espalham pelo País, como a do maestro Rui Torneze, da Orquestra Paulistana Viola Caipira.




Fonte: FC edição 953- maio 2015
Postado por: Família Cristã




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