Setenta vezes sete

Data de publicação: 01/11/2017

Por Irene Paz


O ideal cristão do perdão infinito é desafiador para os limites humanos. Mesmo assim ele pode ser um modelo de vida que vale a pena ser perseguido

Uma diferença que separa a barbárie e a civilização está na capacidade humana de resolver conflitos dentro de um nível tolerável de sociabilidade. A ponto de, quando não possível obter uma conciliação fraterna, ao menos se chegar a um acordo de não agressão. Para tal fim os homens se valem da política, da diplomacia e, em casos extremos, da religião. Não poucas crenças ensinam fiéis a porem um ponto final em contenciosos através da aceitação de um pedido de desculpa. Bem antes de Jesus Cristo, por exemplo, pregar que os filhos de Deus deveriam perdoar setenta vezes sete, os antigos chineses já entendiam o perdão como um último recurso à Lei de Talião – “olho por olho, dente por dente” – que remonta a um código escrito pelo rei babilônico Hamurabi por volta de 1780 a.C (antes de Cristo). “É melhor perdoar do que se vingar, porque à vingança se segue sempre o arrependimento”, orientava o pensador e filósofo Confúcio (551 a.C.-479 a.C.).
Mas empregar o perdão nem sempre é fácil, o que pode ser conferido em âmbito doméstico. Um levantamento da Secretaria da Segurança Pública do governo do estado de São Paulo de 2014 apurou que brigas em família registradas no primeiro semestre daquele ano em Boletins de Ocorrência terminaram em pelo menos 200 assassinatos. O psicólogo Sérgio Kodato, coordenador do Grupo de Pesquisa do Observatório de Violência e Práticas Exemplares, da Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão Preto (SP), atribuiu parte do resultado à desorganização familiar, com a ausência da figura paterna que, antes, impunha disciplina. “Esse clima tende a afetar algumas famílias”, analisou. Já o sociólogo Luis Sapori, especializado em Sociologia do Crime e da Violência, interpretou que “os indivíduos estão desrespeitando regras da convivência civilizada e usando força física para fazer prevalecer seus interesses”.

Perfeição O fato de homicídios acontecerem em espaços e grupos sociais – o lar e a família – que deveriam se pautar pela paz sugere que encontrar o sentido do perdão na vida privada pode ser, ocasionalmente, tão difícil como em conflitos políticos entre potências tradicionalmente beligerantes. No entanto, isso é indispensável para o ser humano não ser tragado pelo seu próprio ódio. A propósito, os pesquisadores Giulia Paola Di Nicola e Attilio Danese, diretores do Centro de Pesquisas Personalistas de Téramo (Itália), e autores de O Dom do Perdão (Paulinas Editora, 2014), advertem sobre a virtude do perdão. “Dos pontos de vista teórico, social e político, o perdão é necessário para a convivência. Interrompe o círculo vicioso da vingança que leva as vítimas a se identificarem com os algozes e a repetir as crueldades sofridas, transmitindo assim a predisposição para a vingança e o aniquilamento do inimigo. Uma sociedade sem perdão é totalitária ou assiste, impotente, à morte de ambas as partes em confronto”, escrevem.
Particularmente os cristãos não podem reclamar da falta de lições sobre o perdão. “Através de seu Filho, Deus nos deu muitos exemplos de como perdoar, inclusive dentro da família, como a parábola do filho pródigo em que o pai mal espera o filho reentrar em casa para pedir perdão e já corre ao seu encontro para, no caminho, o perdoar. Esse é o maior sinal do quanto o Pai está pronto a nos desculpar. Seu recado é evidente: Deus diz que nós precisamos perdoar como ele nos perdoa”, interpreta o sacerdote agostiniano e doutor em Filosofia Pelayo Moreno Palácios. Quantas vezes? “Se preciso até setenta vezes sete, como está em Mateus. O número sete é empregado várias vezes no texto bíblico – Deus criou o mundo em sete dias e santificou o sétimo; a cada sétimo ano deve haver um ano sabático, o shabat, para o descanso da terra e a libertação dos oprimidos; Pentecostes acontece sete vezes sete dias depois da Páscoa – por indicar o máximo de perfeição. Isso significa que deveríamos perdoar além do máximo”, completa o sacerdote.

Libertação – Ainda que o ideal do perdão infinito seja uma meta perseguida, em particular, pelos cristãos, quem tem uma vida em família, comunidade ou sociedade sabe o quanto é difícil alcançá-la. Pois todo ser humano, como se sabe, é passível de falhas maiores ou menores. Mesmo assim se trata de um modelo de vida pelo qual vale a pena lutar se a pessoa almeja viver em relativa paz. “Apesar de sermos limitados, entendo que perdoar é necessidade fundamental em nossas vidas. O perdão liberta do pesadelo com o outro e permite viver em estado de graça. Faz bem para quem perdoa e para quem é perdoado. Ao contrário, guardar rancor nos aprisiona em um sentimento ruim”, afirma a aposentada Angélica Carvalho Gueiros, casada com José Adelmo Gueiros, e mãe de três filhos, já com três netos, e que afirma estar vivendo melhor após ter perdoado um irmão, por parte de pai, que a violentou quando ela tinha apenas 14 anos.
Segundo Angélica, a violência deixou sequelas, acabou com sua adolescência e parte da juventude. “Tentei o suicídio três vezes e não encontrava sentido na vida. Passei anos acumulando sentimentos de mágoa, rancor e até ódio. Mas após minha experiência pessoal com Jesus Cristo isso foi mudando e consegui aos poucos tirar os sentimentos ruins do coração. O perdão não me fez esquecer, mas me faz lembrar sem sofrer. Aprendi também que quando tenho dificuldade em me relacionar com alguém a culpa é minha por não aceitar essa pessoa como ela é. Assim também fica mais fácil me perdoar”, diz. A prova de ter superado o trauma através do perdão é que hoje Angélica conta com Deus para lutar pela vida que tentou tirar três vezes: há seis anos ela trava uma peleja contra um câncer. “Combato a doença com a graça divina e a serenidade. Tenho vivido um período de superações, e isso tem ajudado a me renovar a cada dia através da fé, da esperança e da confiança”, afirma Angélica, que, ao lado do marido, coordena a Pastoral Familiar da Diocese de Guarulhos (SP).






Fonte: FC edição 958- outubro 2015
Postado por: Família Cristã




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