Depressão na família

Data de publicação: 22/11/2017

Por Cleusa Thewes *   

        
Ela chega devagarzinho, mas com força de fazer da vida uma contínua noite escura ou aparentar como pássaro ferido e sem ninho, e essas noites devoram sonhos, maltratam a mente, o coração, os sentimentos...
      
Paula e Noé
Eles se conheceram, namoraram dois meses e casaram. Paula busca em Noé a realização de suas expectativas conjugais. Isto é, um companheiro amoroso, comunicativo, trabalhador, maduro e cristão. Três meses depois do casamento, Noé deprime e tenta o suicídio.   Só então Paula percebe, e ele confirma, sofre de depressão. O diagnóstico psiquiátrico acaba com as expectativas romanescas de Paula. Noé tem depressão bipolar com traços autistas e esquizofrênicos.
Hoje, casada há dois anos, Paula convive com o humor instável de Noé. Ora é alegre e faz planos; ora se isola no quarto, triste, acabrunhado, quase mortificado.
Paula se sente sozinha, sem amor, carinho e atenção. Ela compreende a estrutura emocional frágil do marido. Na relação, quem precisa de cuidados é ele. Tudo isso ela entende. Porém entristece ao ver esvaziadas as expectativas conjugais, suas e do próprio Noé.  Diante do padre juraram cuidar um do outro. Era o que ela tinha idealizado. Mas Noé não consegue cuidar dela. Não porque não quer, mas porque não consegue. 
O dever do cuidar familiar caiu por inteiro sobre os ombros de Paula. A relação conjugal ficou capenga.  Mas ela é forte e compreende seu papel de guardiã. No entanto, o que a mantém em pé, cuidando de Noé, acima de tudo, é o amor.

Pâmela
Tem 24 anos, é acadêmica de arquitetura e ainda reside com os pais. Com frequência, sente-se desanimada, triste, sonolenta, irritada e briguenta. Percebe-se infeliz e diz: “Tenho um vazio, e não consigo definir objetivos pessoais e profissionais”.
Alivia a ansiedade no Facebook, bisbilhotando a vida alheia. Às vezes, seus familiares se impacientam com ela. Consideram-na irresponsável e preguiçosa. E de fato ela é. Não por culpa sua. Não. Porém, devido à depressão. Ela não consegue assumir conduta de adulta. Tem medo.  Seu quadro é delicado. Requer acompanhamento médico e terapêutico, e, logicamente, compreensão, cuidados e apoio da família.
Depressão, o que é?
A depressão é uma doença clínica ligada aos transtornos e alterações do humor. É a doença dos sentimentos, a experiência da nostalgia na alma, do escuro interior; é a perda de si mesmo na saudade do EU que se foi e não se revela por inteiro, permanecendo escondido no labirinto do ser humano. O escritor e compositor Jorge Trevisol canta a dor da depressão na canção Noite escura da alma, de sua autoria: “São noites que demoram tanto e derramam prantos, quase sem ter fim...” E uma coisa, posso dizer a vocês: Somente entende  e acolhe a dor do outro quem já viveu na noite escura da alma.

Os sintomas depressivos
Os sintomas ou as manifestações da doença são importantes. Eles são o primeiro alerta e revelam a doença à família. No convívio familiar, acessemos os olhos do coração, a sensibilidade, e observamos, com a razão, o que se passa com filhos, esposa, esposo. Há um conjunto de sintomas que podem se manifestar isolada ou simultaneamente, por períodos frequentes e repetitivos, sinalizando a depressão e a necessidade de ajuda.  Por exemplo, se sentir triste é normal, o que caracteriza a depressão é estar sempre melancólico e choroso, ultrapassando a fronteira da saúde.
Os sintomas que manifestam depressão são: tristeza, angústia, ansiedade, irritabilidade, medos, palpitações, suores e calafrios, sono alterado, apetite modificado (muita fome ou nenhuma fome), dificuldade de concentração, desmotivação, mudança frequente de humor, falta de prazer, queda do desejo sexual, fadiga, cansaço, pensamentos pessimistas de si mesmo e do futuro, culpa, vontade de morrer...
A depressão pode levar anos para ser identificada e há situações em que o sintoma precisa agravar, e muito, para os familiares se aperceberem e providenciarem os cuidados médicos necessários ao depressivo.

Família cuidando e familiar cuidado
Aceitar que a depressão é doença e que o depressivo necessita de cuidados médicos e terapêuticos é muitíssimo importante. Muitas famílias acham – já vi isso não poucas vezes – que o sintoma é passageiro. Logo mais passa, e a pessoa volta ao normal. Não caia nessa. Leve o doente ao médico, psiquiatra, terapeuta... Acolha-o e o ajude a suportar a dor, as lágrimas, a própria doença. Escute-o, leve-o para o sol, cuide da medicação e das refeições. Propicie-lhe o ambiente necessário para o restabelecimento. Entenda que a depressão não é como uma dor de barriga. Ela não cura com chá, ou tapinhas nas costas. Mantenha-se informado.  Cuide com fé, esperança, amor. E controle sua ansiedade, sua expectativa de cura, pois isso só serviria para acentuar a impotência e a culpa do doente. Além disso, o tratamento pode ser longo. 
Nos casos de Noé e Pâmela, acima resumidos, tanto os doentes como os demais familiares encontram-se no aprendizado do cuidar da doença emocional.
Amigas e amigos, aí está.  Cada família é desafiada a viver o sagrado juramento do cuidado na saúde e na doença. Façam isso, em cumprimento do segundo mandamento de Cristo: “Ame o seu próximo como a si mesmo.” E assim o amor jamais passará. Será eterno.
 Mãe da Saúde, cura-nos. Amém!
  





Fonte: FC edição 931- julho 2013
Postado por: Família Cristã




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