A maior linha de ônibus

Data de publicação: 23/11/2017

Por André de Jesus

Viagem atravessa região amazônica e Cordilheira dos Andes, integrando o Brasil ao Oceano Pacífico, em 107 horas de estrada

Procurado por aventureiros, famílias e comerciantes que buscam economizar em passagens, um ônibus parte do Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo (SP), todas as quartas-feiras com destino a Lima, capital do Peru. A mais longa rota internacional de ônibus integra duas das mais importantes cidades da América do Sul. São 5.917 quilômetros de estrada. O roteiro é operado desde dezembro de 2010 pela empresa peruana Expresso Ormeño. A ligação terrestre entre Brasil e Peru foi possível com a conclusão das obras da Rodovia Interoceânica Sul, que conecta a fronteira brasileira com os portos do sul peruano.
A reportagem da Revista Família Cristã embarcou nessa aventura, que se inicia no Portão 57 da rodoviária Tietê, às 15h30. Dentro do ônibus, 23 passageiros – quatro brasileiros e 19 peruanos. Alguns raros momentos fora do ônibus ocorrem nas paradas para reabastecimento do veículo, alimentação e higiene. A primeira acontece ainda no primeiro dia, às 22 horas, em um restaurante à beira da SP-270, na cidade de Maracaí, interior de São Paulo.
O primeiro nascer do sol pode ser visto nas proximidades de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, mas a próxima parada é somente em Coxim, no mesmo estado. O precário estabelecimento, às margens da BR-163, oferece aos passageiros apenas banheiro para higiene matinal. O restaurante, às 9 da manhã, encontrava-se fechado. O almoço só foi possível quatro horas à frente, em Juscimeira, em Mato Grosso.


Passageiros aguardam para registrar a saída do País no posto de imigração em Assis, no Acre
Enfim, solo peruano − Do outro lado da Ponte da Integração, ligação entre os dois países, agentes da imigração verificam as bagagens e documentos dos viajantes. No local, oferta de câmbio do real para o nuevo sol, moeda peruana, acontece no meio da rua. Em meio à selva da Amazônia peruana, inicia-se a parte mais crítica do percurso. A Rodovia 3S, a Interoceânica Sul, tem o desenho extremamente sinuoso. Fortes chuvas são frequentes na região. Desmoronamentos de ribanceiras e animais na pista tornam o tráfego ainda mais arriscado.
Ao fim da tarde, no povoado de Quince Mil, o ônibus faz uma rápida parada para o jantar e segue rumo aos mais de 4.500 metros de altitude da Cordilheira dos Andes. Às 2 da madrugada, no horário local, a viagem para na rodoviária da histórica cidade de Cuzco, capital do antigo Império Inca até a dominação dos espanhóis. É o único intervalo destinado a embarque e desembarque de passageiros. Cinco terminam sua viagem por ali.

Os Andes e seus desafios − Durante o último dia na estrada, é possível apreciar as belas paisagens andinas. A cada curva, uma nova vista para as gigantescas montanhas da cordilheira. Segundo o estudante Vinícius Costa, 22 anos, que trancou a faculdade em Araraquara, no interior de São Paulo, para viajar por cidades do Peru, o roteiro proporciona “conhecer lugares inimagináveis, além da oportunidade de conhecer pessoas; uma nova língua”, afirma.
 O ziguezaguear do ônibus, no entanto, gera apreensão nos passageiros, que passam a poucos centímetros dos enormes penhascos à beira da via. Outro incomodo andino é o soroche, o mal de altitude, causado pelo ar rarefeito. “É muito ruim porque você fica com dor de cabeça, com enjoo”, revela a comerciante Lavínia Sanchez, 29 anos, que compra mercadorias na região central de São Paulo para vendê-las no Peru.
Na região de deserto andino, começa a descida com destino ao litoral peruano. A chegada à cidade de Palpa, às 7 da noite, causou alvoroço entre os passageiros. Parada para o jantar após dez horas rodando ininterruptamente.
De volta à estrada, o motorista pisa fundo nas longas retas da Rodovia Pan-Americana com destino à capital peruana. Cinco horas até o destino final, Lima. À 1 da madrugada, no horário local, o último desembarque, 107 horas após a partida na capital paulista.


Deserto dos Andes, próximo a Nazca, no Peru
Surpresas na estrada − Após 24 horas de estrada, o cansaço da viagem começa a ser visível. Enquanto as pastagens e plantações de grãos tomam conta do horizonte, os filmes exibidos nas telas do ônibus não são capazes de distrair a todos. Muitos se rendem à exaustão e dormem. Algumas rodovias do Centro-Oeste brasileiro passam por obras de reforma e alargamento. Em diversos trechos, as pistas funcionam em sentido único. As interrupções obrigam veículos a aguardar o fluxo oposto ser liberado, retardando o tempo de percurso.
Na capital mato-grossense, Cuiabá, uma nova interrupção desperta a surpresa dos passageiros. Agentes da Polícia Rodoviária Federal realizam fiscalização dentro do ônibus. Após a verificação de documentos e bagagens, o motorista segue até a próxima parada para o jantar, na cidade de Cáceres (MT).
O início do terceiro dia de viagem acontece em Rondônia, na Região Norte do Brasil. Na cidade de Pimenta Bueno, à beira da BR-364, é possível tomar um banho e almoçar. Quase todos ignoram o relógio apontando 9 da manhã e enchem seus pratos. “A próxima parada será somente às 8 da noite”, avisa o comerciante peruano Alex Cruz, 36 anos, que sempre escolhe caminhos diferentes para suas viagens entre Brasil e Peru. “Já viajei pela Bolívia; de barco, pelo Amazonas, mas esta é uma rota diferente”, revela o peruano.
De volta à estrada, o jantar acontece dez horas depois em Jaci-Paraná (RO). Cumpridos mais da metade do trajeto, os passageiros precisam desembarcar novamente. A BR-364 dá lugar às águas do Rio Madeira, próximo a Abunã, na divisa entre Rondônia e Acre. A travessia é possível apenas de balsa. Após uma hora de travessia do rio, a viagem segue em frente.
Com o amanhecer, falta pouco para a esperada chegada à fronteira, na cidade acreana de Assis Brasil. No posto de imigração brasileiro, os passageiros registram a saída do País. O peruano Jorge Ruiz, 26 anos, que há seis meses trabalhava em uma confecção de São Paulo, teve complicações. “Tive que pagar uma multa de 800 reais por exceder o limite de 90 dias”, confidencia o costureiro.



Palafita da comunidade de garimpeiros, na região da Amazônia peruana












Fonte: FC Edição Nº954, Junho 2015
Postado por: Família Cristã




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