Missa versus ruídos

Data de publicação: 27/11/2017

Por Frei Luiz Turra


Nas celebrações eucarísticas, há o convite de superar os ruídos que atrapalham o encontro com Deus, que fala na brisa suave, na brisa da sabedoria

Na arte dos cuidados necessários para a celebração eucarística, somos convidados a superar os ruídos que prejudicam aquela harmonia favorável à cordialidade do encontro. Normalmente, no comum de nossos conceitos, entendemos o ruído como barulho incômodo ao normal do ambiente e do momento. Ruído aparece como interferência indevida e negativa. Há ruídos pequenos e grandes que nos atingem de muitos modos e formas. Há ruídos que nos surpreendem pela queda de algum objeto que provoca estrondo, e há ruídos de más notícias que estremecem instituições.
Na teoria da comunicação, toda a perda de informação na transmissão de uma mensagem; tudo o que dificulta a comunicação e perturba a recepção ou a compreensão de uma mensagem se chama ruído. No mundo dos ruídos, também lembramos os ruidosos, tanto ambientes, situações, como pessoas.
Existem ambientes ruidosos que não conseguimos modificar, nem remediar. Imaginamos um local de celebração, ou uma moradia situada à beira de uma avenida movimentada. Por mais que se procure isolar, sempre ficará um espaço ruidoso. O pior se dá quando temos que conviver com pessoas ruidosas que não querem modificar seu modo de se relacionar, não tem sensibilidade ao sagrado e nem procuram harmonizar sua comunicação.

Não somos anjos − No serviço pastoral, encontramos um pouco de tudo e até agressividades que dificultam a compreensão de propostas de atitudes. Num domingo festivo, ao celebrar a Eucaristia bem preparada e densa de motivações, chegou um fotógrafo com jeito de bom profissional e começou a desfilar no meio do povo nos momentos que mais exigiam concentração e atenção. Era tão voraz a agitação que chegou a derrubar o ambão na hora do rito do perdão. Mesmo assim não se acalmou. No final da celebração, procurei pensar com ele como poderia evitar tanto ruído e respeitar a assembleia. De imediato, respondeu-me: “Padre, não somos anjos!”.
De um lado concordei com a resposta: “Não somos anjos!”. Mas, exatamente porque somos humanos, necessitamos nos educar para a harmonia interior e a comunicação. De outro lado, não podemos justificar nossas atitudes ruidosas, como se fôssemos os únicos a viver neste planeta e prejudicar a concentração de uma comunidade.

Ruídos a superar nas missas − Creio que a preocupação em superar ruídos nas missas da comunidade se justifica por muitos motivos, mas especialmente por ser um “momento-reserva” de experiência do sagrado no meio da natural dispersão que constantemente ameaça a vulgarização da vida. Outro motivo forte é a possibilidade de educar e ajudar a comunidade a viver o encontro com Deus. É emblemático que “Deus não falou com o profeta Elias no vendaval, na tempestade, mas na brisa suave, na brisa da sabedoria. Jesus nos lembra que o Reino de Deus não vem ostensivamente, nem na confusão. É o Espírito Santo que deve nos levar para frente, com a sabedoria que é uma brisa suave” (papa Francisco).
Não é o caso de apelarmos para o perfeccionismo, mas sim para a possibilidade de nos educar e remediar o que pode prejudicar.  Às vezes, investimos tanto em obras secundárias e esquecemos que a boa comunicação é fundamental para uma ativa, consciente e frutuosa celebração litúrgica. Apontamos alguns ruídos que interferem na harmonia de uma celebração eucarística e que precisam do nosso cuidado:
Ruídos mecânicos do sistema de som de nossas igrejas.
•    Ruídos no uso de instrumentos, que devem ser afinados antes da celebração, e a pressa não permite.
•    Ruídos de leituras improvisadas, sem ser assimiladas, meditadas e menos ainda vividas.
•    Ruídos de silêncios não motivados e vagos. Até o silêncio pode se tornar ruído.
•    Ruídos de vaivém de pessoas alheias ao momento sagrado da celebração.
•    Ruídos de celulares ligados no momento da celebração.
•    Ruídos de conversas laterais, especialmente de agentes do serviço litúrgico.
•    Ruídos de recados inoportunos entre os grupos de animação, porque não se conhece o roteiro da celebração.
•    Ruídos de concordância gramatical, entre o pronome e o verbo, nas preces da comunidade e orações espontâneas.
•    Ruídos de uma criatividade infiel que não respeita o momento litúrgico.
•    Ruído de esquecimentos ou cortes de partes importantes da liturgia eucarística.
•    Ruídos de excesso de explicações que tornam pesada a celebração e saturam o povo.
•    A lista pode continuar com a observação dos leitores desta revista. Porém, se constatamos estas possíveis lacunas, mais importante é procurar saná-las num permanente processo de avaliação, começando com os agentes da Pastoral Litúrgica.

Sugestões pastorais − Sempre foi e continua sendo mais fácil apontar defeitos do que edificar virtudes; descobrir erros do que garantir acertos. A Pastoral Litúrgica, porém, tem condições de indicar algumas práticas que ajudam a superar ruídos:
Garantir e manter uma equipe litúrgica motivada, em estado de formação permanente;
Disponibilizar subsídios que ajudem a criatividade fiel e a fidelidade criativa;
Preparar a assembleia no “antes da celebração”, mediante ensaio de canto e convite a sintonizar com a Palavra que irá ouvir e ao mistério que vai celebrar. Na medida em que a assembleia vai se constituindo, é bom cantar e concluir o ensaio com um refrão meditativo;
Elogiar a boa participação do povo nas assembleias, mais do que apontar as falhas;
Garantir cursos e estudos sobre o fenômeno da comunicação global, como fenômeno humano, com seus meios, estratégias, porém sem esquecer a comunicação profunda e mistagógica.

Conclusão − A questão dos ruídos litúrgicos é uma realidade pastoral que necessita ser assumida como um desafio e um processo de maturidade. As normas litúrgicas já existem e são orientativas. Porém, mais do que normas necessitamos trabalhar as motivações e os exercícios de atitudes positivas. Na medida em que as comunidades vão fazendo a experiência da harmonia, da beleza e da profundidade, os ruídos desaparecem e o envolvimento afetivo e efetivo transforma o clima da celebração em experiência que vale a pena ser vivida.

Perguntas
1.    Como reagimos diante dos ruídos em geral e, especialmente, nas celebrações?
2.    Além dos ruídos citados no texto, lembramos alguns outros?
3.    Quais “remédios” poderiam ser usados contra o mal dos ruídos?





Fonte: FC edição 939- março 2014
Postado por: Família Cristã




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