Arte talhada pela fé

Data de publicação: 11/12/2017

Por Karla Maria, de Zipaquirá, na Colômbia

Fé, arte, mineração e turismo misturam se a 180 metros abaixo da terra e, talhadas pelo sal, encantam olhos e corações, em Zipaquirá, na Colômbia
Chegamos à cidade do sal, Zipaquirá, a 50 quilômetros de Bogotá, em um dia frio com 14ºC e chuva fina, daquelas insistentes. Já inebriada pela elevada altitude de 2.650 metros acima do nível do mar, a pequena e tranquila cidade de telhados terrosos, sacadas, janelas e paredes largas – lembranças da colonização espanhola – nos acolheu com uma população de cerca de 100 mil habitantes e um tesouro, que a cidade guarda em si, uma das maravilhas da Colômbia: a Catedral de Sal.
Incomum para a maioria dos fiéis e engenheiros, capaz de arrebatar por sua beleza e engenharia de difícil entendimento, a catedral foi construída dentro da mina de sal. Resultado da evaporação de um pequeno mar que havia na região há 70 milhões de anos e que, após um movimento telúrico, uniu os picos de duas montanhas, deixando o sal preso em uma cavidade no interior da terra.
E foi ali, naquela cavidade, 180 metros abaixo da terra, que surgiu a catedral. Há evidências de extração de sal desde o século 5 até o 16, antes mesmo da chegada dos espanhóis na região. Naquela época o local já era usado como santuário religioso pelos antigos mineiros.
Em 1954, contudo, iniciou-se a construção da catedral, que foi dedicada a Nossa Senhora do Rosário, a Virgem de Guasá para os mineiros. Por motivos de segurança, a catedral foi fechada em 1990 e reaberta em 1995 da maneira que é hoje, pronta e à espera de turistas que somam, segundo a administração do templo, cerca de 500 mil por ano.
As “paredes” da catedral são, portanto, de sal. É possível provar, sentir seu sabor nada insosso. “Se vocês querem lamber a parede e comprovar que realmente é de sal, vocês podem fazer, é cortesia de Zipaquirá, mas, por favor, não lambam muito sal, senão terão de ir ao banheiro”, brinca uma das guias que acompanham os turistas, com jeito de peregrinos, rocha abaixo entre as estalactites.
A visita só é possível com capacete e lanterna, embora especialistas confirmem que não há riscos de implosões e desabamentos. Isso, é claro, se você não for convidado a participar de um simulado de saída de emergência, que dá um certo frisson aos turistas.

Fé e sal − Além de ser convidado a lambiscar o templo, o turista é convidado a, em ritmo de oração ou curiosidade, mas em silêncio respeitoso, percorrer os 2 quilômetros de via-sacra, recordando o caminho de calvário de Jesus Cristo. “A catedral é dividida em três partes, na primeira há as 14 estações da via-sacra; na segunda parte, a cúpula, o coro e o labirinto; e na terceira parte, as três grandes naves laterais, que se chamam Nascimento, Vida e Morte”, afirma outra guia.
No caminho de sal, temperado pela fé, cruzes são alegoricamente talhadas e ao longo da via-sacra vão se enterrando de forma mais e mais profunda no solo, representando as quedas e o sofrimento de Jesus. É catequese. É arte, onde a dor da lembrança se mistura à alegria da beleza inusitada.
“Em todas as estações vamos encontrar de quatro a cinco genuflexórios também talhados no sal”, conta a guia, entre jogos de luzes que iluminam os passos e lembram um tempo de recolhimento, uma Quaresma fora do tempo. Os números que identificam a estação são de madeira de cedro, originários da primeira catedral.
Terminadas as estações, seguindo por túneis, a uma temperatura média de 17ºC, é possível respirar um ambiente mais salino, uma limpeza aos pulmões. Caminhando ainda pelo chão liso, chega-se à cúpula central, com sua abóbada arredondada e luzes azuis em meio à escuridão que representa a comunhão entre céu e terra.
Mais à frente, uma linda vista panorâmica da Catedral de Sal de Zipaquirá. Neste ponto, você também vê a escultura de um anjo com um trompete simbolizando a ressurreição de Jesus Cristo. Ainda na grande cúpula está uma cruz talhada na rocha salgada, criada tendo por base mármore branco, liso e suave de 16 metros de altura por 10 metros de largura e 80 centímetros de espessura. Destacam-se ainda um presépio gigante, esculpido pelo artista italiano Ludovico Consorte, em 1950, e uma Pietà, retratada com rostos que lembram os traços dos nativos indígenas da região talhada também em 1950, pelo escultor zipaquirenho Miguel Sopó.
Há ainda a representação em três dimensões da imagem da Criação do Homem, feita originariamente por Michelangelo. A peça esculpida em mármore possui 2,6 metros de diâmetro, talhada pelo artista plástico Hugo Garcia Villalobos.
"É um lugar único, que não se pode comparar com nenhum outro do mundo", destaca um dos guias, em francês, na cavidade abaixo da terra, onde o mundo se mistura para ver a beleza da natureza, talhada pela arte e pela fé.
“Foi construída nas entranhas da terra e é um lugar religioso", orientou aos turistas. Sem dúvida é um local de oração. Se estiver em Zipaquirá, na terra de Zipa, o líder do povo Muisca, em algum domingo, saiba que às 12 horas há missa na capela, ali mesmo, debaixo da terra.
Reze à Virgem de Guasá e a tantos mineradores que por sua fé e suor deram “vida” à primeira maravilha da Colômbia, que vale a pena ser visitada, já que é considerada uma das realizações mais notáveis da arquitetura colombiana, também denominada "joia da arquitetura moderna". A catedral representa para o povo colombiano um valioso patrimônio cultural, ambiental e religioso.
Ao término do passeio, uma saída com destino ao Museu do Ouro, em Bogotá, seria um bom destino, já que este abriga a maior coleção de objetos indígenas de ouro da época pré-colombiana, com mais de 30 mil peças de todas as regiões do país.




Fonte: FC edição 955- julho 2015
Postado por: Família Cristã




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