Gerações aproximadas

Data de publicação: 11/12/2017

Por Silvia Torreglossa   


O relacionamento entre netos e avós contribui para a saúde física e mental dos avós, e, para as crianças, a demonstração de segurança e amor eleva a autoestima

Já faz algum tempo que a casa dos avós era destino certo somente nas férias, feriados ou fins de semana, principalmente para netos que moravam em cidades diferentes das dos avós. Na casa desses parentes mais que especiais, tudo era permitido, dormir tarde, comer doce antes do almoço, pular no sofá, ganhar presente fora de época, fazer manha, deixar a lição para o dia seguinte, acordar sem arrumar a cama. Havia um lema no ar, quase uma equação: pais = obrigação, avós = diversão!
Hoje muitos avós preenchem outros papéis na vida da criança, assumem missões como levar e buscar da escola, acompanhar no médico e dentista. São aqueles avós que cuidam dos netos diariamente, ensinando valores, participando ativamente da criação, acompanhando bem de perto o desenvolvimento dessas crianças. Antes eles eram mães e pais duas vezes, agora podem ser considerados mães e pais mais uma vez!
O pediatra e avô Fábio Ancona Lopez é autor do livro Avós e netos – Uma forma especial de amar, a obra é uma espécie de compêndio que orienta os avós sobre as diferenças entre os cuidados praticados atualmente e os que eram aplicados no passado. Em seu livro, Fábio Lopez lembra que deve haver um equilíbrio de respeito na forma de educar as crianças a partir dos pais e na relação das mesmas com os avós.

Avós & netos − Os avós, principalmente a avó, têm participado ativamente, cada vez mais, da vida dos netos. Muitas vezes assumindo funções que antes era somente relegada aos pais. Quando pensamos nessa relação, também devemos levar em conta o que os netos podem trazer de mudança para a vida dos avós.
Um neto cotidianamente em casa torna-se motivo constante para que os avós realizem coisas que, muitas vezes, não estavam mais nos planos, ou seja, empurrar uma bicicleta, correr no parque, rolar no tapete, resolver pequenas questões da vida da criança, como orientar em relação à briga com amiguinhos na escola, dar conselho, arrumar lancheira, ajudar na lição. Além de fazer bem para a saúde física, pois obriga ser mais flexível, forte e ágil, melhora também a saúde mental, devido ao raciocínio que se deve ter para responder às questões elaboradas pela criança. “É preciso estar atento para entender como a criança pensa, como ela reagiu a uma determinada situação”, explica Fábio Lopez. A partir desses laços criados, o neto transforma-se em um companheiro de brincadeiras dos avós, compartilhando histórias e experiências.
Embora as crianças frequentem creches e escolinhas, o tempo de trabalho ou estudo dos pais excede este período e é quando os pais, normalmente, acorrem aos avós. Em uma realidade em que os avós passam mais tempo com as crianças, que os próprios pais, por questões de trabalho ou de vida acadêmica, muitas transferem para os avós as decisões sobre questões essenciais para a criança. E, nesses casos específicos, os pais não podem, nem devem, desautorizar os avós. Mais uma vez, o equilíbrio nas relações e o respeito fazem a diferença para a manutenção da paz no ambiente de convivência em que a criança é inserida.

Relação pais-filhos-avós − O relacionamento da criança com os avós só é equilibrado e tem resultados positivos quando vem ao encontro da compreensão mútua entre gerações, o que envolve também o direito dos pais. Segundo Fábio Lopez, a convivência harmoniosa em família vai ser refletida de modo fundamental na segurança da criança, “e segurança do neto é tudo aquilo que os avós querem, seja do lado do pai, seja do lado da mãe, isso implica superação de divergências religiosas, filosóficas, ou até ‘clubísticas’, um é palmeirense e o outro é corintiano, e mesmo assim eles podem conviver juntos muito bem, a ponto de se divertirem com isso”.
As pesquisadoras da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo, Ewellyne Sueli de Lima Lopes, Anita Liberalesso Neri e Margareth Brandini Park, na pesquisa Ser Avós ou Ser Pais: Os Papéis dos Avós na Sociedade Contemporânea, verificaram que “os efeitos dessa mudança de papéis compõem um quadro amplo e complexo, o qual pode se configurar com aspectos positivos – satisfação em prover a nova geração, senso de renovação pessoal e dever cumprido, ter companhia e afastar o sentimento de solidão – e negativos – queda na qualidade da saúde física e emocional, alterações na vida social e familiar, sobrecarga financeira e estresse”.
Mas, se o respeito aos limites de cada um envolve a relação pais-filhos-avós, o saldo só pode ser positivo para todos. Para as crianças, é a demonstração de segurança e amor, o que eleva a autoestima. Os pais ficam mais tranquilos sabendo que pessoas confiáveis tomam conta de seus filhos.
Esse sentimento sublime que une gerações tão diferentes também encheu o coração da escritora Rachel de Queiroz, quando escreveu sobre A arte de ser avó: “Netos são como heranças: você ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu (...) Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá netos para nos compensar de todas as perdas trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. E, quando você vai embalar o menino ao som de ‘passarinho como vai’, ele, tonto de sono abre, os olhinhos e diz: ‘Vovô, seu coração estala de felicidade, como pão no forno’”.

Segundos pais − Catarina Palmieri Hosizawa, 57 anos, e Yoji Hosizawa, 61, participam diariamente da vida da neta Sophia, de 7 anos, desde seu nascimento, em Atibaia (SP). Até os cinco anos Sophia vivia com a mãe e os avós, há um ano e meio a família decidiu que Sophia fosse morar com Catarina e Yoji em São Paulo. A partir de então os avós mudaram de rotina, escolheram a escola de Sophia e passaram a resolver todas as questões relacionadas à criança. 
“A Sophia vê a mãe, o padrasto e a irmãzinha todos os fins de semana, o pai mora no Japão, mas quando a mãe pergunta se ela quer ficar lá em Atibaia, ela diz que não, que quer morar com a vovó e o vovô”, diz Catarina. O avô de Sophia, ao assumir essa nova realidade, começou a sair mais de casa e andar mais para acompanhar a neta. “Aos fins de semana, quero levar a Sophia para andar de bicicleta no parque”, garante Yoji.
Além disso, o casal fala da motivação que é ter uma criança dessa idade em casa. “Conversamos muito com ela, isso faz a gente pensar, refletir, ponderar, tentamos ser realistas e sinceros, não adianta proteger demais. Quando cuidamos da criança em tempo integral, precisamos prestar atenção nisso.” Além de Sophia, o casal tem mais seis netos que, às vezes, têm ciúmes pela atenção que os avós despendem a ela. 
Os avós quando oferecem à neta cuidados e ensinamentos se sentem gratos e renovados, ao mesmo tempo em que a neta conta com atenção, dedicação, amor e carinho.




Fonte: FC edição 933- setembro 2013
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

A paternidade
É um direito ter o nome dos pais na certidão de nascimento; mutirões são realizados para que a população tenha mais acesso ao registro de paternidade
Navegue com segurança
Viver no ambiente digital abre novos horizontes e possibilidades, mas requer cuidados
O melhor alimento para o bebê
O aleitamento materno é uma unanimidade mundial. Todos os profissionais de saúde reconhecem
Hora do pesadelo
Pesadelos são ruins em qualquer idade, mas os pais ficam mais angustiados quando são seus filhos.
Viver bem dentro de casa
Uma família unida enfrenta e supera os desafios da vida com maior facilidade.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados