Olhar de Bia

Data de publicação: 11/12/2017

Por Karla Maria

Há 11 anos, a jovem guarulhense Beatriz Martins pratica e compartilha o bem tornando-se a mudança que quer ver no mundo
Às 19h, os tatames azuis e amarelos instalados na Associação Cecap?, ali pertinho do aeroporto, em Guarulhos, já recebiam pulos acelerados de crianças e adolescentes agitados. Era uma noite especial, de entrega de quimonos conseguidos depois de um ano de mobilização da Organização Não Governamental (ONG) Olhar de Bia.
A alegria no tatame era a emoção dos professores. “Sabemos que um quimono faz toda a diferença durante uma luta, até na parte técnica da disputa. Se fôssemos comprar em uma loja, não pagaríamos menos de 300 reais cada um. Os alunos que receberam a vestimenta precisam ter a noção de que não ficarão com ela para sempre, pois eles vão crescer. Além disso, esperamos que, em breve, alguns entrem no mercado de trabalho e tenham condições de comprar o seu próprio quimono”, ressalta Rafael Calazans, 35 anos, um dos professores de jiu-jítsu da ONG.
Ele é um dos voluntários da ONG Olhar de Bia que acreditam ser possível fazer o bem. Calazans, que hoje inspira crianças no tatame, deixou-se inspirar pela ideia de uma menina, a Bia. “Há 11 anos trabalhamos para transformar vidas. O esporte é um meio que utilizamos para atingir o nosso objetivo. Esperamos que cuidem destas ‘armaduras’ com o mesmo carinho que temos pelo projeto”, pede Beatriz Martins, a Bia, de 17 anos.

A rede do bem – Bia é a fundadora da organização não governamental que começou a partir de sua indignação, quando pequenina, aos seis anos, ao deparar com a situação de pobreza de crianças que pediam dinheiro e alimento nos faróis de sua cidade, em Guarulhos, na Grande São Paulo.
“Um dia eu estava passeando de carro com o meu pai perto de uma favela e vi o que, para mim, não era comum. Vi crianças com uma realidade totalmente diferente da minha e, incomodada, perguntei ao meu pai o motivo daquilo, e ele me disse que os pais delas não tinham emprego como ele e que não podiam comprar roupa etc. Eu vi aquilo e quis mudar tal história.”
E mudou. Ao longo dos 11 anos de existência do Olhar de Bia, mais de 130 mil crianças, jovens e adolescentes foram destinatários de modo direto ou indireto pelo desejo de mudança da jovem. No começo, lá pelos seis anos de idade, o que Bia fazia era guardar todas as balas que ganhava para poder dar às crianças.
“Eu ganhava bala e não comia, ia guardando em casa por meses essas balas. Meu pai começou a perceber e veio me perguntar o que estava acontecendo, aí disse a ele do meu desejo de dar as balinhas às crianças. Meu pai gostou da minha ideia, telefonou para alguns amigos e conseguimos naquele ano ajudar 600 pessoas”, conta Bia, entre os pulos no tatame ao lado.
De lá pra cá, essa rede do bem só aumentou, e segundo a própria entidade mais de 130 mil pessoas já foram alcançadas. “O esporte é uma isca para as crianças, a partir dele podemos evitar que entrem na vida do crime e das drogas. Encontramos no esporte também uma ferramenta de inclusão”, diz a jovem empreendedora do bem, lembrando-se do Bruno.
Ele tem 17 anos e uma energia incrível. Na noite de entrega dos quimonos, lá no Parque Cecap, a alegria e a energia de Bruno eram contagiantes. “Por várias vezes tentei incluí-lo e fazer com que praticasse um esporte, até que conheci o Olhar de Bia. Quando expus a situação ao professor, eles o acolheram, acompanharam lado a lado todos os exercícios, deram um quimono e o colocaram em campeonatos, com direito a medalha. Muitas crianças com outras dificuldades fazem parte da ONG e fico muito feliz porque é o que eles precisam, da inclusão, do brincar, do fazer esporte e serem respeitados”, desabafa a mãe do adolescente, Samira Guelli, no portal da entidade.
Além do jiu-jítsu, a organização não governamental oferece taekwondo e judô, bem como oficinas de música no mesmo espaço, no Parque Cecap. Todas as atividades são gratuitas e destinadas a alunos de 5 a 17 anos.
De olho no futuro – E não é só no tatame que a entidade trabalha. A solidariedade é praticada sempre com campanhas de doações de alimentos, brinquedos e tempo dos voluntários com a presença e trabalho nos asilos, escolas, creches. Mas para o presidente da ONG, Ricardo Martins de Souza, 47 anos, não basta apenas fazer a doação material. “Investimento no social precisa ter um propósito. E é exatamente isso que o Olhar de Bia sugere. Responsabilidade social de verdade”, conta Martins, pai de Bia.
Por isso a ONG oferece o Projeto Alicerce, que reúne profissionais de várias áreas de atuação para ministrarem cursos sobre suas profissões de forma voluntária a jovens, carentes ou não, que ainda não têm planos para a carreira. “O Alicerce prepara os jovens não só para o mercado de trabalho, mas também para a vida. É uma grade multidisciplinar que desenvolve habilidades pessoais e profissionais transformadoras”, explica Bia.
No ano passado, a Universidade Brás Cubas, através do polo de Ensino a Distancia (EAD) de Guarulhos, entrou como apoiador do projeto oferecendo as aulas gratuitamente em parceria com o Olhar de Bia. “Eu acredito demais na educação. E tenho certeza de que todos os jovens que passaram por aquelas salas de aula não serão mais os mesmos”, diz a gestora do polo de EAD da Universidade Brás Cubas em Guarulhos, Cristiane Rosa.
Os cursos versam sobre questões práticas também, desde como se portar para uma entrevista de emprego até como escrever um texto. “Chamamos de Alicerce porque queremos dar a base, formar mesmo. Muito mais do que formar pessoas para o mercado de trabalho, queremos formar as pessoas para a vida”, diz a jovem, que parece ter nascido com a missão de compartilhar o bem.
Família, origem de tudo – E de onde vem tudo isso? Da família. Bia é filha do meio do casal Ricardo e Jane Silva Souza. É uma casa de mulheres: a mais velha é Paula Souza Felipe, 24 anos, e a caçulinha é Vitória Martins de Souza. Juntos, os membros da família criaram o hábito de conversarem sobre os rumos que a vida vai tomando.
“Sempre conversamos muito e estivemos próximo das nossas filhas. Muitos pais escutam os filhos mas não prestam atenção, deixam as coisas passarem. Se nós colocarmos mais atenção nos filhos quando eles falam alguma coisa, teremos mais sucesso na educação deles. Foi isso que aconteceu com a Bia”, conta o pai, que aconselha.
“O que eu deixo de conselho, se essa é a palavra correta, é escutar os seus filhos, sejam amigos. Se começamos a humanizar um pouco essa relação pai e filho, começamos a ter uma situação de cumplicidade e de amizade e, de certo modo, levamos isso também para a ONG Olhar de Bia”, conta o pai, que se emocionou na noite de entrega dos quimonos. E tudo porque há 11 anos deu ouvidos à sua pequena Bia.
Beatriz concluiu o Ensino Médio e atualmente trabalha 12 horas por dia representando a ONG em eventos e reuniões, angariando parceiros e patrocínios, dando entrevistas, participando e realizando atividades da ONG. Apresenta um programa de rádio diário lembrando aos seus ouvintes que é necessário amar as pessoas e cuidar delas, fazendo o bem.
Bia quer ser jornalista para pautar as questões sociais que permeiam a vida de tantas crianças e adolescentes em todo o Brasil. Que essa garota do bem conquiste várias manchetes por aí.




Fonte: FC edição 979- julho 2017
Postado por: Família Cristã




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