Rotina que educa

Data de publicação: 12/12/2017

Por Silvia Torreglossa 


Organização familiar torna o lar harmonioso, onde todos são conscientes de seus direitos e deveres e a constância traz segurança para todos na família

Existe uma regra ou um modelo que possa garantir que a família vai viver de forma harmoniosa dentro e fora de casa? Como organizar a vida de tal maneira que todos os membros da família se beneficiem das decisões coletivas ao estabelecerem rotinas que buscam simplificar a vida? Como envolver e motivar todos nesta tarefa?
A professora Karina Passos Ferreira de Souza, juntamente com seu marido, o analista de sistemas Bruno Ferreira de Souza, resolveram implantar em casa uma rotina que auxiliou no desenvolvimento das filhas, Juliana, 15 anos, e Lara, 13 anos.
“Adotamos a Lara com seis anos, ela apresentava baixa autoestima, não conhecia os alimentos como legumes e verduras, não sabia reconhecer as cores e nem os nomes das partes do corpo”, conta Karina.
Por conta desse déficit de educação adequada e carinho na primeira infância, a criança acabou por desenvolver grande dificuldade no aprendizado. “Quando matriculei a Lara no 1º ano, depois de uma semana, a escola convidou-a a sair porque não conseguiram lidar com uma criança com problemas de concentração e aprendizagem”, lamenta Karina.
Segundo a mãe, Lara não se concentrava, tumultuava a classe sempre pedindo algo para a professora, num esforço brutal e inconsciente para não aprender. Em casa era a mesma coisa, quando os pais reservavam um momento de estudo em família, Lara logo dava um jeito de distraí-los, “às vezes, ela escondia algum objeto só para eu perder tempo procurando”, lembra Karina. Os pais estavam determinados a encontrar uma solução, era a primeira vez que passavam por aquela situação, já que a filha mais velha foi adotada com apenas um ano.

Uma luz − Há dois anos Bruno, depois de pesquisar sobre o assunto, encontrou dois livros do pedagogo francês Serge Boimare que, hoje, servem de apoio para compreender o problema de aprendizado de Lara. As lições e explicações foram tão pertinentes que também motivaram Karina a aplicá-las com seus alunos na aula de valores na organização não governamental Projeto Música em Ação, em Cotia (SP).
Os livros Crianças impedidas de pensar e A criança e o medo de aprender, de Paulinas Editora, auxiliaram o casal a compreender o que se passava com a filha e ajudá-la a vencer o medo da aprendizagem, dessa forma se tornaram parceiros dos professores na tarefa da educação escolar da filha.
Todos sabem que as pessoas são diferentes, as crianças são diferentes, cada uma tem seu tempo de aprender e decifrar códigos, como ler, resolver questões aritméticas e tantos outros desafios que se apresentam na vida dos pequenos. E quando uma dessas crianças não responde ao estímulo dos educadores e fica à deriva, testemunhando os colegas passarem de fases, vibrarem com as conquistas, ganharem autonomia?
O medo pode estar por trás e na raiz do fracasso escolar e de várias dificuldades de aprendizado. Este pavor gera uma resistência inconsciente na criança e transparece no ambiente escolar, impedindo que ela conquiste o saber.
A criança e o medo de aprender mostra que a resistência inconsciente da criança em questionar seu universo mental faz com que ela bloqueie o aprendizado. O autor sugere que as mediações culturais, como contação de histórias que vão de Júlio Verne, à mitologia grega e à Bíblia, possam metaforizar esses medos.
Crianças impedidas de pensar é um livro pontuado por perguntas que concentram o interesse sobre os mecanismos pedagógicos colocados em prática na escola, que, para algumas crianças, são ineficazes, como no caso de Lara. O autor pergunta o por que de crianças inteligentes e aptas, ao concluírem o Ensino Fundamental, não são capazes de interpretar um texto ou de se expressar oralmente com clareza e coerência?
Apoiado em sua experiência profissional, Boimare evidencia em seus livros que a dificuldade dos alunos que seguem rumo à frustração escolar “não é tão complicado quanto parece e que há um modo de fazê-los avançar na classe comum...”. Segundo ele, a dificuldade de aprendizagem não decorre da explicação usualmente dada pela escola: falta de motivação ou incompetência para o aprendizado. Boimare defende que as crianças que não alcançam os saberes fundamentais têm sua capacidade bloqueada pelo medo de aprender e, consequentemente, falta a elas a capacidade para pensar.

Educação cidadã − Além do apoio dos livros e a aplicação dos conceitos lá descritos, o casal também buscou estabelecer regras no lar, que vão desde a organização dos materiais escolares até a administração da mesada.
“Elas precisam compreender desde pequenas que existe uma rotina, assim elas se sentem seguras e confiantes, cada uma sabe de sua obrigação, eu não preciso mais pedir que cuidem de suas roupas, organizem o seu dia, até quando eu dou carona para elas, se elas se atrasam, precisam tomar a iniciativa de me ligar avisando”, explica Karina.
As duas levantam cedo, arrumam suas camas, vestem os uniformes, tomam café da manhã com frutas variadas, linhaça e aveia, tomam leite e vão ao colégio. “Quando elas têm atividades esportivas à tarde, precisam levar os uniformes dos esportes, é obrigação delas pensar nisso”, lembra Karina.
Desde os sete anos as meninas arrumam suas camas. Entre nove e dez anos já tinham que lavar os tênis e a mochila uma vez por semana. “Desde os cinco anos elas cuidam de seus brinquedos, eles estão sempre limpinhos e bem cuidados”, diz Karina.
Quando a mãe de Karina adoeceu, ela percebeu que voltava para casa e tinha uma louça enorme esperando por ela. “Eu tinha ficado o dia todo no hospital, estava cansada, e mesmo assim ficava até de madrugada cuidando da louça, daí eu pensei que já podia pedir que elas me ajudassem nesse momento difícil”, conta Karina.
Hoje, a divisão de tarefas já está intrínseca no cotidiano da família, cada um faz um pouco e não sobra em demasiado para ninguém. Eu guardo o computador comigo, elas utilizam de acordo com as notas nas provas, se tiver acima da média dispõem de um tempo, senão não. “Assim também com o videogame, não deixamos que elas joguem à vontade, precisam entender que a vida não é como o jogo, não existe duas oportunidades de se fazer uma prova, no jogo elas têm uma quantidade infinita de vidas, isso não existe no mundo em que vivemos.”
Para ensinar as meninas a administrar seu tempo e seu dinheiro, os pais estabeleceram algumas regras para que elas conseguissem economizar ou ganhar uma determinada quantia. Por exemplo, temos quatro cachorros em casa, quem lavar um deles ganha 3 reais, e assim por diante. Dessa forma, elas podem se organizar para passear no shopping, ir ao cinema, fazer passeios e comprar o que precisam.
“Elas sabem que a obrigação delas é cumprir o acordo, se não cumprirem a parte no acordo não receberão a recompensa, a tabela de serviços extras também auxilia para a realização de tarefas diárias”, comenta Karina, que diz também que as filhas são companheiras entre si e muito divertidas.
Dessa forma, com uma educação equilibrada e cidadã, Lara foi se desenvolvendo como outras adolescentes da sua idade, todos sabem que existe ainda um caminho a trilhar, mas a família reconhece que está no caminho certo.

Tarefas remuneradas

Banho animais (cachorros) R$ 3,00
Limpeza do canil e bebedouro R$ 4,00
Pendurar roupas no varal R$ 1,00
Colocar roupas na secadora R$ 1,50
Tirar folhas da piscina R$ 0,50
Limpeza e plantio da horta R$ 2,00
Colheita da horta R$ 2,00
Rastelar entrada veículos R$ 2,00
Rastelar ao redor da residência R$ 2,00
Lavar e aspirar o carro R$ 5,00
Atualização de sites (hora) R$ 2,00
Nota acima da média tempo de computador

As tarefas remuneradas não são obrigatórias, cada uma escolhe o que quer fazer.

Tarefas não remuneradas

Arrumação da própria cama
Troca da roupa de cama
Louça diária (revezamento semanal)
Limpeza do balcão e fogão
Ajudar a carregar e guardar as compras
Preparativos para recepção de hóspedes
Lavagem de tênis
Passar a camisa de escoteira
Lavagem de roupas delicadas
Ajudar a dar medicamento aos animais







Fonte: FC edição 935- novembro 2013
Postado por: Família Cristã




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