Religiões na construção da Paz

Data de publicação: 25/01/2018


A paz não é apenas a ausência de guerras declaradas entre países, grupos, milícias...
Não há paz onde há fome, miséria, injustiça social, analfabetismo, intolerância, desrespeito. Não há paz onde crianças choram sem terra, família e educação.





Como podem as religiões participar da construção de sociedades mais igualitárias e justas, sociedades de paz? Entrevistamos a teóloga Cecília Franco para falar desse arco-íris como uma das muitas possibilidades para a construção de uma sociedade de paz. Natural de Mirandópolis, no interior de São Paulo, Cecília cresceu no convívio com as Comunidades Eclesiais de Base e os Movimentos Sociais. Graduou-se em Teologia no Instituto de Teologia de São Paulo (Itesp), com titulação do Pontifício Ateneu Santo Anselmo.
Há quase três décadas, Cecília é membro do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Cesep), um centro latino-americano de formação popular que tem o objetivo de prestar serviços às lideranças de movimentos sociais e comunidades das diferentes Igrejas cristãs, em seus trabalhos pastorais e de promoção humana. É também coordenadora do Curso de Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso do Cesep na promoção de uma sociedade de paz.

FC – As religiões têm conseguido cumprir seu papel na construção de uma sociedade de paz?
Cecília Franco – Há caminhos. Um deles trata todas as religiões como proselitistas - aquelas que querem converter as pessoas a determinada crença, e nesse caminho está a “verdadeira Igreja”, a “verdadeira religião” e muitas vezes essa reflexão é pautada em doutrinas. Há outro caminho que percebe que as religiões não têm sentido se não forem para a construção da paz, pautado no cerne da religião, que é a construção da vida, no Deus que partilha experiência, o respeito, o espaço do outro e não a conquista de novos adeptos. Esse caminho é o do respeito, do conhecimento e do diálogo, da construção de justiça e paz.

FC – O respeito é a base para o diálogo...
Cecília Franco – O universo das religiões que você conhece é um grão no mar. E aí você percebe que a sua tradição religiosa é uma das possibilidades e por que não abrir o caminho no qual você conhece o outro e reconhece que àquilo que o outro faz se assemelha aquilo que você faz? No respeito, você vive o seu projeto de fé e respeita o projeto do outro.

FC – A institucionalização de algumas tradições religiosas, no mundo ocidental, arrefeceu o objetivo de construir a paz? Existe uma disputa de adeptos ainda hoje?
Cecília Franco – Eu penso que sim. Se você considera todo o pentecostalismo cristão, independentemente de qual tradição, há uma busca de adeptos. Há uma corrida e atualmente mais acentuada, porque líderes dessas religiões têm meios de comunicação e pregam 24 horas aquilo que é daquela tradição religiosa, criticam o que é da outra religião ou a demonizam, e, quando você demoniza, está criando um processo de que apenas a sua é verdadeira e de que a do outro é do demônio. Assim surgem as intolerâncias religiosas, e os meios de comunicação são hoje os primeiros a criar esses conflitos na população.

FC – Os meios de comunicação, especialmente as TVs, seriam ótimos instrumentos para propagar esse diálogo, não?
Cecília Franco – Sim. Há alguns exemplos de meios de comunicação que buscam o diálogo, mas são poucos. Eles trabalham cada religião como conhecimento, diálogo. Se você vai pelas periferias da cidade e ouve rádios e TVs, você já sente isso, e em cidades do interior é ainda pior.

FC – Qual seria o papel do líder religioso no sentido de construir pontes e não cismas?
Cecília Franco – Acredito que os líderes religiosos deveriam dar o exemplo de respeito, passar conhecimento. Para que temos cursos de diálogo inter-religioso? Para isso, porque na hora que você convoca as pessoas das várias tradições para viver junto, participar do conteúdo comum e visitar os espaços religiosos, você está propondo um exercício de encontro, partilha e vivência. Elas estão com o “outro”. Por exemplo, a Teologia Cristã, eu posso estudar na Universidade Metodista de São Paulo, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), no Centro de Estudos Bíblicos (Cebi); nesses locais eu terei a teoria de bons professores, mas na hora que eu encontro o outro que professa a tradição religiosa diferente da minha, para conviver e estudar, pratico o exercício do desapego. Eu vou até o outro para conviver, para vivenciar, esse é o projeto do Diálogo Inter-Religioso para a Paz.

FC – As faculdades de Teologia e os espaços de formação, como seminários, congregações e institutos, têm formado suas lideranças com qualidade e abertura para o diálogo inter-religioso?
Cecília Franco – Falo da minha experiência. Eu estudei Teologia no Itesp, uma faculdade muito boa, ligada ao Pontifício Ateneu Santo Anselmo, de Roma. Tive seis meses de Ecumenismo. Nem era de Diálogo Inter-Religioso e era apenas uma aula por semana. É pouco, em um mesmo espaço e todos têm a mesma pergunta: Será que este é o melhor espaço para trabalhar o diálogo? Eu penso que não.

FC – Formação de mais qualidade e abertura às experiências de outras tradições religiosas seria um caminho para o diálogo?
Cecília Franco – Sim. E maior abertura à multiplicidade existente de tradições. Observe as de tradição africana. Esse universo é tão grande que se você quer conhecer, promover encontros para a paz, você terá de abrir os seus horizontes. No mundo, nós estamos focados para olhar com uma única lente, e isso nos deixa muito limitados e sem noção do que e quem é o outro.

FC – Algumas religiões são mais voltadas para o “eu”, no sentido do meu bem-estar, da minha prosperidade, da minha paz. O “nós” é esquecido. Isso é normal? É comum a prática de uma religião que pense mais no “eu” do que no “nós”?
Cecília Franco – Deus não traça nada para Ele, senão não teria sentido você estar neste mundo. Se você vive uma religião para conseguir um carro, um bem; se você não tem um processo de fé que pensa no bem de todos, não está vivendo o projeto de Deus.

FC – Qual o papel da religião na formação de um ser humano?
Cecília Franco – A religião tem o papel de fazer a pessoa feliz com as limitações dela, e essa felicidade deve se propagar do individual para o comunitário. A religião dá luz para o inverso do sistema em que está, que destaca e valoriza a individualidade do ser humano.

FC – Qual o papel do papa Francisco neste momento de busca de diálogo, de construção da justiça e da paz?
Cecília Franco – Ele fez um esforço muito grande de encontro com várias tradições, que estavam estremecidas. O papel dele é criar a harmonia, e nós sabemos que muitas pessoas, mesmo dentro do catolicismo, não o apoiam. Esse caminho que ele está traçando é o do diálogo, e à medida que você entra nesse caminho você não volta. Essa abertura é uma escolha, e aí surge o crescimento dentro desse projeto maior de Deus.

FC – É possível construir o caminho para a paz sem a religião?
Cecília Franco – Se você pega Gandhi, ele era hindu, ele dizia que só queria construir a paz. Há grandes místicos que têm esse foco de construir a paz e muitas vezes eles até dizem “não tenho nada a ver com religião”, mas no fundo eles têm uma mística que é maior do que o deus da tradição religiosa. Esse deus que cada tradição quer segurar para si. Deus não se amarra, não se segura. Ele é maior, está acima das amarras humanas.

FC – E os ateus...
Cecília Franco – Quando a pessoa diz que é ateia é porque ela ficou desencantada mediante uma tradição religiosa, e aí ela diz “eu não quero isso pra mim”. Ela não está preocupada com as doutrinas e talvez não tenha encontrado outra tradição. Muitas vezes, as pessoas que dizem não ter fé estão com a construção da paz no horizonte e não enxergam espaço ou importância nos ritos de determinadas tradições, mas estão lá construindo a paz.

FC – Essa é uma característica da juventude? As religiões estão perdendo a forma ou a linguagem para lidar com os jovens?
Cecília Franco – Há um bom tempo nós temos a pentecostalização e se focou muito na questão carismática. Focou-se no Espírito muito fora da realidade, e isso foi por um tempo, como uma onda, e essa onda está chegando ao fim, e aí se começa a perceber que a juventude está inquieta, e que é próprio dela ter essa inquietação. Esperamos que essa juventude, desencantada ou não, consiga construir o caminho da paz.

Por karla Maria
Foto Karla Maria
Imagem Pixabay




Fonte: 973 - FC Janeiro 2017
Postado por: Família Cristã




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