Ler para poder crescer

Data de publicação: 15/03/2018


Ler para poder crescer

Pais devem ser os primeiros a estimular o hábito da leitura nas crianças. Na ausência deles, professores assumem a missão com bons resultados

Kaciane Caroline Marques do Nascimento tem 12 anos, uma paixão imensa por livros e uma biblioteca nos fundos de sua casa. Mora no bairro Lealdade e Amizade, em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo.
Filha de Adriana Cunha Marques e Silvio César Marques do Nascimento, a menina desde bem pequena sempre quis aprender a ler e escrever. “Quando ela era um pouco menor, brincava de escolinha com os seus outros irmãos”, conta Adriana, que concluiu o 1o grau e raramente lê livros ou jornais.
“Já o pai gosta de ler jornais e revistas de carros antigos”, conta a mãe. O casal faz parte das estatísticas que apontam que o brasileiro lê pouco. Segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro (IPL), feita com 5 mil pessoas em todas as regiões do Brasil entre 23 de novembro e 14 de dezembro de 2015, a leitura é um hábito de 56% da população brasileira.
Em média, os entrevistados disseram ter lido 2,54 livros nos últimos três meses, sendo 1,06 do começo ao fim. Entre os que têm o hábito da leitura, a média é de 4,54 livros no período, com 1,91 livro inteiro. Kaciane está muito além desses números, pois mesmo tão jovem afirma já ter lido 570 livros infanto juvenis.
“Quando eu leio tenho a sensação de que viajo sem sair do lugar, sabe? É maravilhoso. Conheço várias cidades sem sair da minha casa. E, além disso, a leitura ajuda a melhorar o vocabulário e a escrita. É muito divertido”, conta a menina.
A importância da escola – Mas de onde surgiu sua paixão pela leitura, tendo em vista que os pais não compartilham do hábito? Da escola, conta a mãe: “Quando entrou no 2° ano e conheceu a professora Maria Cristina, que incentivava todos os seus alunos, Kaciane começou a ler e não parou mais”.
A professora Maria Cristina de Godoi Augusto tem 49 anos e dá aulas na rede municipal de São José do Rio Preto há 25. Leciona na Educação Infantil (4 a 5 anos) e no Ensino Fundamental (6 a 10 anos). Quando conheceu Kaciane, em 2010, ela estava no 2º ano, tinha sete de idade e já estava alfabetizada, mas não tinha o hábito de ler.
“Muitas vezes os pais não incentivam a leitura, então cabe ao professor ser o exemplo aos seus alunos proporcionando uma leitura diária, prazerosa e com diversos gêneros textuais”, conta a professora, que, em parceria com a bibliotecária da escola, colocava livros com textos mais complexos, mais simples e apenas com ilustrações para as crianças que não tinham nenhum domínio da leitura.
O primeiro livro de Kaciane foi As Aventuras de Pedro Coelho, de Beatrix Potter. “No dia seguinte ao empréstimo, a Kaciane já havia lido todo o livro e começou a recontar a história para mim com riqueza de detalhes e com grande entusiasmo. Percebi que ela estava encantada com a leitura. Com isso, ela e outras crianças que começaram a adquirir o gosto pela leitura passaram a retirar novos livros em períodos mais curtos”, conta.
E desde então Kaciane não parou mais de ler e os benefícios são muitos. Os estudos mostram que, quanto mais as crianças leem, melhores alunos, ouvintes, cidadãos críticos, leitores e escritores elas se tornam.

“A leitura melhora o aprendizado, aprimora a capacidade interpretativa, proporciona um amplo conhecimento sobre diversos assuntos, faz com que o aluno comece a formar suas próprias opiniões, melhora o vocabulário, diminui os erros ortográficos e, com isso, ele passa a ter maior facilidade para a construção de um texto”, explica a professora Maria.

Para Alberto Silva Filho, pesquisador das Ciências Cognitivas e orientador em educação infantil e adulta, inclusive da terceira idade, com especialização em Educação Integral e Consciencial, a criança quando lê se torna mais crítica, mais observadora, mais consciente do mundo onde vive.

“Sem contar que começa a pensar por conta própria, ganha autoconfiança e, com isso, potencializa sua autoestima. Torna-se mais criativa e motivada; mais disciplinada e organizada; passa a ter consciência de que pode ser útil. E tudo isso porque seu vocabulário e potencial para compreender todas as coisas se ampliam”, explica.

Alberto Filho destaca que os pais, responsáveis e mestres têm uma grande arma no incentivo à leitura: o exemplo. “A melhor e mais eficiente estratégia ainda é ler na frente das crianças. Com isso serão facilmente fisgadas. Começa pela curiosidade, já que enxergam os pais como exemplos que merecem ser copiados”, orienta.

Ele ressalva que os pais precisam ter um cuidado especial com o tipo de leitura que eles próprios farão diante das crianças e têm de lembrar de que se trata de um referencial para futuros leitores. Além de impor limites ao uso de TV, redes sociais, videogames e celulares.

“Disciplinar é mais eficaz. A restrição sem explicação ou motivo coerente suscita a rebeldia e a curiosidade patológica e de nada adianta os pais criarem restrições se eles próprios sentam para ler acessando internet, dividindo a própria atenção com o celular ou vendo TV. Por isso o exemplo prático é fundamental nesse processo inicial de autodisciplinamento”, explica Alberto, que sugere a prática de uma leitura eclética.

Biblioteca em casa – Kaciane contou com o exemplo e incentivo da professora e, no dia 11 de abril de 2015, inaugurou uma biblioteca nos fundos de sua casa. Lá estão cerca de 3.600 livros doados pela população de Rio Preto, pelo Colégio London, uma escola particular da cidade, onde estuda como bolsista integral desde 2016. Pessoas de outras cidades e estados também contribuíram com o acervo.
“Agora consigo incentivar a leitura para várias crianças e adultos através dela”, conta a menina, feliz. A biblioteca funciona das 14 às 17 horas, fora do turno escolar de Kaciane, atende crianças e adolescentes das imediações e de outras localidades e tem a cozinha da família como passagem obrigatória.
Os livros da biblioteca são organizados por um programa de computador, e os livros pessoais da menina ficam no quarto. “Quando as crianças ou adultos chegam aqui, ela faz um cadastro deles no computador e o cliente pode pegar até cinco livros e tem de devolver 15 dias depois. Se não terminar de ler, pode renovar”, explica a mãe.
E disse mais. “Pra mim é um orgulho ver o que minha filha conquistou, porque hoje em dia é raro conhecer crianças que gostem de ler e queiram que outras pessoas gostem também. Através da história da minha filha, ela incentivou muitas crianças e adultos a gostarem de ler e espero que continue assim”, confidencia Adriana.
Para as pessoas que não gostam de ler, a menina dos livros deixa a dica. “Você tem de pegar um livro do gênero que gosta, de poucas páginas, e depois vai aumentando.” Kaciane gosta de aventuras e romances, tanto que já lançou seu próprio livro, o Tanto Faz ou Qualquer Coisa – História de Kaciane, pela Livraria HN, com várias histórias de terror, suspense, mistério e aventura.
“Eu me sinto realizada e feliz, pois foi através do meu trabalho de incentivar a leitura que estou vendo a conquista dos meus alunos, em especial a Kaciane, que está sendo referência como uma grande leitora com tão pouca idade. A Kaciane já está fazendo a diferença”, revela a professora Maria Cristina.
Entre o hábito de leitura dos brasileiros, 42% disseram preferir a Bíblia. Em seguida, entre as leituras frequentes, aparecem os livros religiosos, os contos e os romances, com 22% da preferência do público. Os livros didáticos são habituais para 16% da população; e os infantis, para 15%.

 Dicas para pequenos e adultos lerem mais

•    Deixe livros e revistas espalhados pela casa;
•    Revistas em quadrinhos são excelentes para despertar o hábito da leitura;
•    Assista a filmes baseados num livro ou conto, as crianças poderão se sentir motivadas a lê-lo;
•    Faça passeios e viagens com livros ou periódicos que falem do lugar a ser visitado pela família;
•    Pergunte-lhes se não se interessam em ganhar de presente a assinatura de uma revista;
•    Leia livros com as crianças;
•    Leia na frente das crianças. Seja exemplo!
•    Para crianças antes dos três anos, o efeito da leitura será mais efetivo se fizer interpretações dos personagens;
•    Monte o recanto da leitura, um local onde livros e revistas fiquem de modo acessível e à vista de todos;
•    Visite bibliotecas e livrarias. Tornar isso um hábito é a certeza de um novo leitor que nasce em sua casa.




Fonte: FC edição 974, fevereiro de 2017
Postado por: Família Cristã




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