A Paixão de Cristo

Data de publicação: 20/03/2018

A Paixão de Cristo Segundo Todos Nós

Por todo o Brasil, encenações da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo são revividas. Na periferia de São Paulo, as dores são adaptadas e atualizadas ao choro das mães que vivem nos morros

Na periferia é assim, o carro que passa tocando o funk divide espaço com o latido dos cães, com o grito das crianças descalças que batem uma bolinha no meio da rua, com traves do gol improvisadas, feitas de chinelos. É uma alegria que só diminui quando as estatísticas apontam que naquele local, no Jardim Peri Alto, zona norte de São Paulo (SP), a violência não para.
O Mapa da Desigualdade 2016, realizado pela Rede Nossa São Paulo, revela que o Distrito de Cachoeirinha, onde está localizado o Jardim Peri Alto, é o quarto mais mal avaliado da capital paulista no que diz respeito às políticas públicas, sobrando números de violência e falta de oportunidade de acesso à cultura e lazer para a juventude.

Ali, entre os morros de casas sem acabamento e gente de paz, mães e pais vivem suas cruzes, suas dores diariamente, e é sobre esse contexto que o grupo de teatro da Paróquia Santa Cruz, do Jardim Peri Alto, apresenta A Paixão de Cristo Segundo Todos Nós.
A ideia do grupo de teatro começou há cerca de 25 anos, como iniciativa da Pastoral da Juventude (PJ), motivados pelo tema da Campanha da Fraternidade de 1992: Juventude, Caminho Aberto. Mas foi apenas em 2007 que os jovens da paróquia sentiram a necessidade de realizar um trabalho de evangelização tendo como ferramenta o teatro, que surgiu a Peça da Paixão de Cristo.
“A intenção não era somente evangelizar por evangelizar e sim fazer um trabalho de conscientização da fé e da política a partir da morte de Jesus. Queríamos levar as pessoas do grupo, e principalmente os espectadores da peça, a uma reflexão social e política, sempre pautada no seguimento de Jesus”, conta Macilene Almeida Leite, 42 anos.
Macilene é pedagoga, diretora de um Centro Educacional Infantil da Rede Pública da Prefeitura de São Paulo, que atende crianças de até três anos e 11 meses. Ela, como poucos, sabe da importância de oferecer à juventude da região oportunidades de lazer e cultura.
“As dores aqui no nosso bairro são muitas. Nós estamos inseridos no Distrito Cachoeirinha, um dos mais violentos da região norte, e com frequência estamos nas mídias por esse motivo, então nossa peça é uma forma de levar cultura, porque aqui as políticas públicas não chegam”, denuncia Macilene.
Ela lembra que em seu bairro não há um posto de saúde, que a única escola pública que existe é do Estado e figura sempre entre as piores da rede no estado de São Paulo. “Levar a peça da Paixão para a rua, para as pessoas, é uma forma de a gente estar levando e mostrando que nas periferias não existe só bandido, só pancadão. Existe a arte, existem os jovens que estão interessados em fazer o bem, em fazer outras coisas e não fazem porque não têm o investimento necessário”, explica a diretora.

A Paixão – Este ano, a peça terá duas horas e meia, com público estimado de 2.500 pessoas. São cerca de 70 pessoas participando da encenação, entre atores, produção e a banda que acompanha o grupo. Há oito anos a Prefeitura de São Paulo ajuda com a parte estrutural: iluminação, palco, som, grades de proteção. “O nosso morro é o próprio cenário da Paixão de Cristo”, lembra Macilene.
Alguns jovens e suas famílias só começaram a frequentar a comunidade a partir do convite do grupo de teatro, como Fernanda Cristine Costa Carvalheiro, de 16 anos. Há seis, Fernanda participa da peça e garante que não é obrigada pela mãe. “Ninguém me obriga não, inclusive eu trouxe a minha família para a Igreja. Eu comecei a vir para o teatro, depois eu fiz curso de coroinha, me tornei cerimoniária e aqui estou hoje com a minha família”, conta feliz a jovem atriz.
“A gente vai acolhendo todo mundo e a partir daí a gente tenta fazer o trabalho de evangelizar, mas a nossa Igreja ainda falha muito nessa acolhida à juventude e às crianças”, desabafa Macilene.
Como as comunidades daquela região são pobres, a manutenção do grupo de teatro e a realização da peça são um desafio: uma mistura de criatividade para montagem de cenário e figurinos, com parcerias e mutirões que garantem a realização da peça.
“A gente encontra pessoas muito boas que nos ajudam”, diz Macilene, lembrando da costureira, dona Geni Oliveira, que tem um trabalho grande com as escolas de carnaval e costura os figurinos gratuitamente. A figurinista é Márcia Cristina Leite, 46 anos. “Todas as roupas dão trabalho, mas a de Maria exige mais cuidados”, aponta.
“A gente começa o ano sem nada, mas colocamos dinheiro do nosso bolso, nos doamos mesmo. Vendemos bolo no final da missa, camisetas, fazemos rifas e assim conseguimos realizar a peça”, conta o diretor da produção teatral Cléber Moraes Pereira, 36 anos.

Palavra de Deus – Responsável pela adaptação da Paixão de Cristo, Cléber lembra que este ano os Sete Pecados Capitais serão recordados para provocar a reflexão: “Será que apenas Judas traiu Jesus Cristo? Não estaríamos nós traindo-o diariamente?”, questiona Cléber, que também é professor da rede pública.
“Na Bíblia está o início da nossa reflexão e não o fim. Partimos da Palavra de Deus para refletir aquilo que Jesus Cristo viveu e aquilo que a gente vive diariamente”, explica Cléber, que vê a apresentação na rua como uma possibilidade ímpar de alcançar um público ainda maior e que talvez não conheça a história da Paixão de Jesus Cristo.
“Ao mesmo tempo em que passamos a história da Paixão de Cristo, passamos para o povo o momento atual da política e como devemos analisar este momento, mostramos como a disputa pelo poder causa dores e sofrimento ao povo”, conta o professor Flávio Casemiro de Souza, o Casemiro, 36 anos. Flávio é professor de História e participa do teatro da Paixão há sete anos. Já foi Caifás, Jesus, João Batista e este ano será o demônio.
No ano passado o demônio da peça da Paixão era um homem de terno preto. “Quisemos trazer a figura do político, da corrupção como o demônio que assola o País e as famílias. O demônio veio vestido de terno preto com a barba benfeita, e aí as pessoas conseguem fazer essa ligação”, diz Macilene.
Os jovens também fazem essa ligação. Carlos Eduardo Martins Paz, 13 anos, está no 8º ano e vive no bairro. Neste ano, pela primeira vez participa da peça. “Estou nervoso porque é muita responsabilidade representar Jesus, mas é muito importante levar essa mensagem de diálogo, paz e justiça para muitas pessoas”, conta.
Maria Eduarda dos Santos Silva Mendonça, de 11 anos, ainda não sabe se será economista ou arquiteta. Está no 7º ano do Ensino Fundamental e tem orgulho de participar da peça. “Eu participo todo ano, já faz uns três ou quatro anos. É muito emocionante com todo mundo vendo. Jesus foi honesto e sua história precisa ser recontada muitas vezes. O teatro nos uniu mais dentro da comunidade também”, diz Maria Eduarda, que está fazendo curso de coroinha e é membro do grupo de Perseverança na catequese.
Para Macilene, a pedagoga, que se emociona ao falar dos desafios em realizar a peça da Paixão na rua, o teatro foi um meio também de ajudar à juventude a sair das drogas. “Tenho certeza de que a gente já salvou muitas pessoas nesse sentido, porque aqui eles se comprometem a estar semanalmente na comunidade, às vezes cinco horas no domingo para os ensaios”, conta.
Mas Macilene, Cléber e toda a turma que está nos bastidores produzindo a peça e a interação com os jovens da região do Peri Alto querem mais. “O desfio maior é a gente conseguir formar um grupo coeso após o término da Paixão, para que a gente consiga fazer outras atividades de evangelização, de conscientização política com o povo da nossa Igreja e isso ainda não conseguimos”, desabafa.
Serviço
Peça da Paixão Segundo Todos Nós
14 de abril, Sexta-feira da Paixão, às 19 horas
Paróquia Santa Cruz (Avenida Santa Inês, 2.229 – Jardim Peri, São Paulo – SP)


Por,Karla Maria




Fonte: Fc edição 976, Abril de 2017
Postado por: Família Cristã




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