Marco Lucchesi e a nostalgia

Data de publicação: 06/04/2018


Por, Ariadne Guimarães
Marco Lucchesi e a nostalgia do todo

Um ser anfíbio, dotado de uma incrível capacidade de trafegar em mundos e horizontes diversos. Essa poderia ser a apresentação de Marco Lucchesi, poeta, romancista, memorialista, ensaísta e tradutor, o mais jovem imortal a assumir a presidência da Academia Brasileira de Letras (ABL), em dezembro do ano passado. Filho de pais italianos, criado em terras brasileiras, ele se acostumou desde muito pequeno a viver o plural dos signos. O português da rua, do brincar, e a intimidade do italiano em casa. Este foi o caminho até que a criança desse lugar ao jovem e “se perdesse” em quase duas dezenas de outras línguas, companheiras e irmãs em pelo menos uma dimensão: o amor à literatura.
Marco Lucchesi construiu um raro edifício de referências humanas. Associou a graduação em História, na Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói, ao mestrado e doutorado em Literatura, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ao pós-doutorado em Filosofia da Renascença, na Universidade de Colônia (Alemanha); e, por fim, a um viajar incessante, nas imersões em países estrangeiros e também nas páginas de mestres universais, como Rilke e Rûmî, cujos poemas traduziu, respectivamente, do alemão e do árabe para o português.
Tanta multiplicidade auxilia no entendimento de uma carreira marcada por sucessos não só acadêmicos, mas também pela organização de eventos que mobilizaram jovens, crianças e adultos, como a curadoria de exposições na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro (RJ), por ocasião dos 100 anos da morte de Machado de Assis e Euclides da Cunha, ou mesmo a tradução desafiadora de obras de Umberto Eco, bem como A Ilha do Dia Anterior, elogiada pelo próprio escritor italiano. 
“Procuro coincidências, ressonâncias, a vasocomunicação das partes, que os antigos denominavam simpatia. Dessa busca pode resultar um processo alquímico, o diálogo plural e sussurrado, como dizia Paracelso entre a flor e a estrela, a pedra e a palavra. Abordo algo dessa problemática em meus livros. A diversidade é-me inerente. Sou marcado pela nostalgia do todo”.

A casa de Machado – Aos 54 anos, Marco Lucchesi não foi o único jovem a surpreender a imprensa e a opinião pública ao conquistar a honra de ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Mas a recente eleição para a presidência da entidade, como o mais jovem nos últimos 70 anos, tem sido encarada por alguns observadores como sinal de mudança. Correta ou não, a leitura das manchetes não parece ter influência nos planos desenhados pelo escritor. Para ele, a idade não deve ser um valor em si mesmo.
“A Academia é sempre um lugar de encontro de gerações, onde todos aprendemos mutuamente. A instituição, que tenho a honra de presidir, mantém-se aberta, e o espírito não tem idade, assim como a inteligência e o sentimento de abertura. Estamos além da cronologia e sonhamos com um tempo da memória e do inconsciente onde tudo entra e faz parte. Basta evocar a máxima paulina do tudo em todos”.
Agradecido ao que classifica como “generosidade dos colegas”, Lucchesi descreve a ABL como um local destinado aos desafios da mutação e da permanência. Lá convivem, lado a lado, a luta pela manutenção e divulgação da memória e a  obra dos que partiram e, ao mesmo tempo, com igual força, os esforços pelo incentivo e descoberta dos novos talentos que ainda estão por chegar. Tudo isso sem perder de vista o Brasil, suas maravilhas e desafios.
No discurso de posse da presidência da casa, o escritor comparou o País a um livro em construção, um amálgama de muitos autores e múltiplas referências, como o belo e genial manto de Arthur Bispo do Rosário, artista plástico que passou a maior parte de sua vida internado na Colônia Juliano Moreira, um centro de tratamento psiquiátrico. Este cenário complexo e singular continua a encantá-lo e a desafiá-lo em igual proporção.

O belo e o desigual – O escritor descreve o Brasil como um país complexo e ampara suas convicções em um rol de vivências diferenciado. Em suas andanças, teve a oportunidade de subir o Morro do Horto com os peregrinos do padre Cícero, em Juazeiro do Norte (CE); visitar Canudos (BA), o arraial submerso e suas ruínas; e ainda a fazer incursões nos presídios do Estado do Rio, que visita “de modo contínuo e com os desafios inerentes”. Em comum, resume, encontrou a desigualdade.
Para Marco Lucchesi, ela é o inimigo comum a quem deve ser destinado um combate sem trégua. “Não haverá democracia e paz social sem o fim desse quadro”, acrescenta. O imortal reconhece que outras lutas farão parte do caminho, mas não sem perder de vista “o centro de nossas mazelas”. Ao defender o ponto de vista, recorda o papa Francisco e seus insistentes chamados à reflexão sobre as periferias, o diálogo inter-religioso, a acolhida e a defesa da terra como casa comum, documentada na encíclica Laudato Si". Questões presentes, infelizmente, também em outros pontos do mundo.
Hoje, uma das angústias do escritor é o paradeiro do amigo jesuíta Paolo Dall’Oglio. Defensor do diálogo inter-religioso com o mundo islâmico, ele desapareceu em 2013 num sequestro atribuído a extremistas islâmicos. “Eu o conheci na comunidade ecumênica de Mar Mussa, no deserto da Síria, no final dos anos 1990. Não esqueço o diálogo fraterno entre cristãos, judeus e muçulmanos, naquela paisagem de pedra e areia. Era o Deus da paz e da hospitalidade, jamais o Deus da máquina de guerra, do ódio e do extermínio, dos grupos radicais islâmicos e da ultradireita de Israel”.
Segundo informações publicada em um site árabe, e não confirmadas pelo governo italiano, Paolo Dall'Oglio foi assassinado em Raqqa, na Síria. Em homenagem à sua memória, Marco Lucchesi publicou um livro de circulação restrita, com as cartas trocadas em anos de amizade. “Fiz o que me era possível para encontrá-lo. Recebi do Geral dos Jesuítas uma carta extraordinária, assim como do papa Francisco, através do núncio apostólico. Sofro com a ausência de Paolo. Sonho que esteja vivo em alguma parte do mundo. Mas é apenas sonho.”
 

Autorretrato, Marco Lucchesi por ele mesmo
Fragmentos da entrevista para a revista Família Cristã

Minha vida começou bilíngue, até que eu me perdesse em quase duas dezenas de línguas e fragmentos, e alfabetos e prosódias e tantos desvarios, de quem veio depois de Babel e de seu legado de desassossego. Mas são duas línguas essenciais, e em que amo dar voltas, avançando e atravessando seu tecido espesso, que são o italiano e o português. Em que língua comecei a escrever ou a desescrever?  Não lembro. Acho que nas duas. Ou mais precisamente: numa interlíngua, numa zona flutuante de empréstimos, de vozes e silêncios.

II –
Trabalho sempre na minha vocação. Escrevo e sonho. Sonho e escrevo. Como num balanço contínuo. Vivo de silêncio e solidão. Mas interrompo tudo isso com os afazeres e as demandas de relação. A alteridade me fascina. Oriente e Ocidente juntos. As visitas que faço às prisões de modo contínuo e com os desafios inerentes. Como diz o padre Valdir Silveira, são hoje, as prisões, os navios negreiros deste século. Tenho meu telescópio e de noite contemplo as estrelas, sobretudo aquelas de Escorpião e de Sagitário, com rara beleza. Meu piano permanece vivo, eloquente. Mas não como outrora que me era central. Hoje nos visitamos mutuamente, o piano e eu. E, quando possível, vou ao teclado com as músicas que me pertencem dentro de meu mundo. Canto: porque me é essencial. Cantávamos em casa. Amo a ópera e a MPB. Gosto de andar. E me procuro por toda a parte. Ou ainda alguma coisa que busco e talvez adivinhe.




Fonte: FC edição 986 Fevereiro 2018
Postado por: Família Cristã




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