Um sínodo dos jovens

Data de publicação: 18/05/2018


Por, Moisés Sbardelotto

Se a Igreja quer realmente ler os sinais dos tempos na realidade atual dos jovens e da sua relação com a fé e a vocação, é conveniente ouvi-los

“Queridos jovens, vocês são a esperança da Igreja. Como vocês sonham o seu futuro? Participem do #sinodo18!”. Foi com essa mensagem – enviada no último dia 12 de agosto via Twitter e marcada pela “gramática” digital de uma Hashtag e de um link específico – que o papa Francisco convidou os jovens a responderem a um questionário on-line em preparação à XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. O próximo sínodo será realizado em outubro de 2018, sobre o tema Os jovens, a fé e o discernimento vocacional.
A nova assembleia sinodal irá manter a inovação dos sínodos anteriores convocados por Francisco, isto é, a consulta de todo o povo de Deus mediante um questionário sobre a temática em questão. Um primeiro questionário para o Sínodo de 2018 já tinha sido divulgado em janeiro passado, junto com o documento preparatório do evento, para ser respondido exclusivamente pelas conferências episcopais, pelos dicastérios da Cúria Romana e pela União dos Superiores Gerais. Dessa vez, contudo, as perguntas são dirigidas diretamente a todos os jovens. A novidade é a possibilidade de os próprios jovens colaborarem no caminho preparatório do sínodo, respondendo ao questionário pela internet à Secretaria do Sínodo, sem a necessidade de enviar as respostas posteriormente, mediante outras instâncias da Igreja.
Esse gesto ressalta a importância que Francisco atribui ao papel dos jovens na vida da Igreja, seja pela escolha da temática do sínodo, seja por querer lhes dar a palavra de modo especial. Na exortação apostólica Amoris Laetitia, o papa já questionava toda a Igreja: “Quem é capaz de levar os jovens a sério? Quem os ajuda a preparar-se seriamente para um amor grande e generoso?” (AL, 284). Se a Igreja quer realmente ler os sinais dos tempos na realidade atual dos jovens e da sua relação com a fé e a vocação, é conveniente ouvi-los. E, se os próprios jovens entendem o mundo e entendem a si mesmos a partir da relação com a internet e as redes sociais digitais, como ouvi-los, entendê-los e levá-los a sério senão a partir dessa relação?

Jovens incluídos – Ao visitarem o site da pesquisa, disponível em seis idiomas, incluindo o português, os jovens são convidados a contribuir com essa sondagem cujo objetivo “consiste em oferecer-te a oportunidade de te fazeres ouvir, de te expressares, de dizeres quem és e aquilo que queres que os outros saibam a teu respeito”. A Santa Sé informa que todo o questionário é anônimo e não é necessário indicar nenhuma informação sobre a identidade pessoal, resguardando a privacidade de quem responde.
As perguntas abordam diversos aspectos da vida juvenil e estão divididas em sete partes: 1) “Quem sou eu”, onde são coletadas as informações básicas do jovem, como idade, país de origem etc.; 2) “Como me vejo e como vejo o mundo ao meu redor”, isto é, as atitudes e opiniões pessoais em geral; 3) “Eu e os outros”, sobre as pessoas e instituições que influenciam no crescimento pessoal e na tomada de decisões; 4) “As minhas opções de vida”, em que se abordam a formação pessoal e o trabalho; 5) “Religião, fé e Igreja”, sobre a vida de fé, a vocação e o papel da Igreja; 6) “A minha presença na web”, a respeito do uso da internet e das redes sociais digitais; e 7) Duas “Perguntas conclusivas”, uma sobre um episódio que o que responde considera como exemplo positivo do modo como a Igreja pode acompanhar os jovens nas escolhas que dão valor e plenitude à vida, e outra geral, sobre algo que não tenha sido questionado anteriormente. Todo o material coletado, depois, irá ajudar na redação do documento de trabalho do sínodo, o chamado Instrumentum Laboris, que será o ponto de referência para o debate dos padres sinodais.
Para colocar a Igreja “a caminho”, portanto, o papa Francisco convoca os próprios jovens para falarem sobre o seu “desejo de mudança”. Foi a eles que o pontífice enviou uma carta no dia 13 de janeiro passado, apresentando o documento preparatório do sínodo:
“Eu quis que vocês estivessem no centro da atenção, porque eu os tenho no coração. (...) Um mundo melhor se constrói também graças a vocês, ao seu desejo de mudança e à sua generosidade. Não tenham medo de ouvir o Espírito que lhes sugere escolhas audazes, não hesitem quando a consciência lhes pedir que arrisquem para seguir o Mestre. A Igreja também deseja se colocar à escuta da voz de vocês, da sua sensibilidade, da sua fé; até das suas dúvidas e das suas críticas. Façam ouvir o grito de vocês, deixem-no ressoar nas comunidades e façam-no chegar aos pastores. São Bento recomendava aos abades que, antes de cada decisão importante, consultassem também os jovens porque ‘muitas vezes é exatamente ao mais jovem que o Senhor revela a melhor solução’”.

Jovens em novo ambiente –
Esse apelo ecoa a exortação apostólica Evangelii Gaudium. Nela, Francisco já havia reconhecido que a pastoral juvenil vem sofrendo o impacto das mudanças sociais. Nas estruturas da Igreja, afirma o papa, “os jovens habitualmente não encontram respostas para as suas preocupações, necessidades, problemas e feridas. A nós, adultos, custa-nos ouvi-los com paciência, compreender as suas preocupações ou as suas reivindicações, e aprender a falar-lhes na linguagem que eles entendem” (EG, 105). Por isso, a iniciativa de questionar os jovens, e questioná-los no “seu” ambiente, ou seja, a internet, é um importante sinal de abertura da Igreja aos apelos juvenis.
Se Francisco deseja uma Igreja marcada pela sinodalidade, ou seja, pelo “caminhar juntos”, os jovens também têm muito a ensinar e a aprender: “Como é bom que os jovens sejam ‘caminheiros da fé’, felizes por levarem Jesus Cristo a cada esquina, a cada praça, a cada canto da terra!” (EG, 106). “Os jovens” – afirma o pontífice – “chamam-nos a despertar e a aumentar a esperança, porque trazem consigo as novas tendências da humanidade e abrem-nos ao futuro, de modo que não fiquemos encalhados na nostalgia de estruturas e costumes que já não são fonte de vida no mundo atual” (EG, 108).
O questionário pode ser acessado e respondido por todos os jovens, especialmente de 16 a 29 anos, interessados em contribuir com esse verdadeiro “mutirão” sinodal. O endereço é https://goo.gl/WghUvl. Além do questionário, também foi lançado um site especial do Sínodo de 2018 (http://youth.synod2018.va), disponível em inglês e italiano, onde é possível acompanhar as principais novidades sobre a preparação para a próxima assembleia sinodal.




Fonte: Fc edição 981, Setembro se 2017
Postado por: Família Cristã




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