Antídoto contra as fake news

Data de publicação: 21/05/2018


Por, Nathan Xavier
 
Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, papa Francisco propõe a vacina diante da divulgação de falsas notícias

Todos os anos, desde 1967 sob o pontificado do beato Paulo VI, os papas propõem uma reflexão no Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado no domingo que precede a Solenidade de Pentecostes que, neste ano, será comemorado em 13 de maio. Não que antes não tenham se pronunciado a respeito, ao contrário, mas eram contribuições esporádicas. A partir do beato Paulo VI, o tema passou a ser recorrente e anual, sempre divulgado no dia 24 de janeiro, dia de São Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas. Para este ano o papa Francisco propõe um tema atualíssimo, as chamadas fake news, ou, “notícias falsas”. Na era em que a informação corre numa velocidade supersônica, as fake news, sem o tempo necessário para uma verdadeira checagem dos fatos, tornam-se pólvora para discussões incendiárias. Como diz o ditado, diante de fatos não há argumentos. Mas, e se os fatos são equivocados?
Tratar desse tema nas nossas comunidades e paróquias é de essencial necessidade. Como o próprio papa lembra em sua mensagem: “Nenhum de nós se pode eximir da responsabilidade de contrastar estas falsidades. (...) Por isso, são louváveis as iniciativas educativas que permitem aprender como ler e avaliar o contexto comunicativo, ensinando a não ser divulgadores inconscientes de desinformação, mas atores do seu desvendamento”. É preciso ensinar a discernir o que é verdadeiro e falso em meio a avalanche de informações, e cabe aos líderes e responsáveis da comunidade ajudarem nesse discernimento e darem instrumentos para que as pessoas não caiam nas armadilhas. Mas como fazer isso? O próprio papa nos apresenta essas ferramentas.

Fruto da falsidade –
Logo na primeira frase, papa Francisco enaltece a importância da comunicação, lembrando-nos do seu papel para a concórdia mútua: “No projeto de Deus, a comunicação humana é uma modalidade essencial para viver a comunhão”. Isso é importante, pois, por toda a mensagem, ele vai lembrar que o principal fruto das fake news é justamente a divisão entre as pessoas. E, muito habilmente, utiliza-se da mais famosa e conhecida história bíblica até para quem não é cristão: a tentação da serpente, descrita no livro de Gênesis. Antes, define fake news da seguinte forma: “Informações infundadas, baseadas em dados inexistentes ou distorcidos, tendentes a enganar e até manipular o destinatário. A sua divulgação pode visar aos objetivos prefixados, influenciar opções políticas e favorecer lucros econômicos”.
Ou seja, a divulgação de notícias falsas não é realizada de forma inocente ou sem propósito, mas visa aos “objetivos prefixados”. Em seguida mostra duas justificativas para que as fake news sejam tão eficazes, mesmo sendo falsas. A primeira por causa de sua “natureza mimética”, ou seja, a forma que ela se apresenta é plausível de ser verdade: “Falsas mas verossímeis, tais notícias são capciosas, no sentido que se mostram hábeis a capturar a atenção dos destinatários, apoiando-se sobre estereótipos e preconceitos generalizados no seio de um certo tecido social, explorando emoções imediatas e fáceis de suscitar, como a ansiedade, o desprezo, a ira e a frustração”. Elas não são reais, mas podem ser, podem ter acontecido, baseando-se em “estereótipos e preconceitos”. Quais são os preconceitos e estereótipos que nós carregamos? Já lemos hoje algo baseado nesses preconceitos?
O outro ponto que papa Francisco expõe como eficaz para que se acredite nas fake news é o que ele chama da “lógica da desinformação”. Essas notícias são geralmente difundidas pelas redes sociais, espalham-se rapidamente e dentro de um círculo fechado de pessoas que pensam da mesma maneira: “Em vez de haver um confronto sadio com outras fontes de informação, que poderia colocar positivamente em discussão os preconceitos e abrir para um diálogo construtivo, corre-se o risco de se tornar atores involuntários na difusão de opiniões tendenciosas e infundadas”. Como não há ninguém do nosso círculo de amizades do Facebook que contradiga a falsa notícia que compartilhamos, o que vai acontecer é que os comentários serão positivos, reforçando nossa crença naquela falsa notícia.
Para reforçar esses pontos, o papa propõe a figura da serpente que tenta a humanidade. “Na narração do pecado original, o tentador aproxima-se da mulher, fingindo ser seu amigo e se interessar pelo seu bem.” No diálogo a serpente distorce o que Deus disse, e a mulher repete a distorção criada pelo réptil. Em seguida o tentador mente, dizendo que Adão e Eva não irão morrer se comer do fruto proibido e justifica com um argumento falso, mas possível: “Deus sabe que, no dia em que comerdes da árvore abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, conhecereis o bem e o mal” (Gn 3,4-5). O papa lembra que “nenhuma desinformação é inofensiva; (...) mesmo uma distorção da verdade aparentemente leve pode ter efeitos perigosos”. E mais adiante, no texto, afirma: “A contaminação contínua por uma linguagem enganadora acaba por ofuscar o íntimo da pessoa”.

A verdade –
Mas para não nos deixarmos levar pelas fake news, a solução proposta por Francisco é justamente a verdade. Mas não qualquer verdade. “Na visão cristã, a verdade não é uma realidade apenas conceitual, que diz respeito ao juízo sobre as coisas, definindo-as verdadeiras ou falsas. (...) A verdade tem a ver com a vida inteira. Na Bíblia, reúne os significados de apoio, solidez, confiança, como sugere a raiz ‘aman, (daqui provém o próprio Amen litúrgico). A verdade é aquilo sobre o qual nos podemos apoiar para não cair”.
Nesse sentido, a verdade é Deus, “o único verdadeiramente fiável e digno de confiança sobre o qual se pode contar”. A verdade “brota de relações livres entre as pessoas, na escuta recíproca”. E completa: “A partir dos frutos, podemos distinguir a verdade dos vários enunciados: se suscitam polêmica, fomentam divisões, infundem resignação ou se, em vez disso, levam a uma reflexão consciente e madura, ao diálogo construtivo, a uma profícua atividade”. Conclui chamando à responsabilidade todos os jornalistas, quem, por profissão, “é obrigado a ser responsável ao informar (...) No mundo atual, ele não desempenha apenas uma profissão, mas uma verdadeira e própria missão”. Mais que a velocidade por comunicar a notícia, “informar é formar, é lidar com a vida das pessoas (...), um jornalismo feito por pessoas para as pessoas e considerado como serviço a todas as pessoas, especialmente àquelas – e no mundo, são a maioria – que não têm voz; um jornalismo que não se limite a queimar notícias, mas se comprometa na busca das causas reais dos conflitos, para favorecer a sua compreensão das raízes e a sua superação através do aviamento de processos virtuosos”.




Fonte: FC edição 988, Abril de 2018
Postado por: Família Cristã




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