O poder do abraço literário

Data de publicação: 28/06/2018



Por, Karla Maria, de Fortaleza, no Ceará

Da terra do Cordel e de Iracema brotam experiências literárias capazes de ampliar não só a cultura do indivíduo, mas também de criar laços e relações fraternas entre idosos

Em uma livraria no centro de Fortaleza (CE), um grupo de mulheres com seus cabelos brancos e grisalhos elegantemente penteados vai se aproximando em torno de um livro, de mais um lançamento no mercado editorial. Pegam, folheiam, fazem perguntas. Umas andam apressadas até o caixa, outras, em passos mais lentos, passeiam por entre as páginas com olhos concentrados, como se não quisessem perder o compasso da leitura.
Ao final do lançamento, declamam poesias, uma a uma, versos que tocam a alma do leitor mais contumaz. São artistas, amantes dos livros, da literatura, membros do Projeto Abraço Literário, do Serviço Social do Comércio (Sesc), que há dez anos segue comprometido com a democratização da leitura e a ampliação do número de leitores no País.
Mas não é só isso. Para além do desejo de ampliar o acesso à leitura e mudar as estatísticas acerca do tema, o Abraço Literário é um ponto de encontro de pessoas que se tornaram amigas a partir dos livros e das leituras compartilhadas. “Gosto muito do Abraço Literário. Sempre gostei de literatura e de cultura e é muito bom fazer parte deste grupo, porque faço amigos que também me incentivam a ler autores diferentes”, revela Antonia Aldenir, com seu sotaque único.
Ela tem 70 anos e o sotaque denuncia a região onde nasceu, na cidade de Iguatu, no sertão, distante cerca de 380 quilômetros da capital cearense. Há cerca de cinco anos, Antonia é membro do Abraço Literário e nele faz o tempo valer a pena. “Menina, eu gosto muito de ler e agora tenho essa oportunidade, porque quando eu era nova não tinha tempo não, era muito trabalho”, revela a senhora, que já trabalhou com panificação, fotografia e diz ter sido até frentista.

Tempo favorável – Antonia revela que, quando jovem, tinha dificuldade de ler porque não sobrava muito tempo. “No ônibus, por exemplo, quando a gente é jovem precisa ficar de pé e, com a bolsa na mão, ficava difícil ler, hoje não, como estou velha, me dão lugar no ônibus, então eu sento e leio”, diz Antonia, que divide seu tempo no transporte público entre leitura e oração.
Sua paixão é a poesia. Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa estão entre suas paixões, embora também aprecie crônicas. “Faço parte do grupo de poesia, declamo com muito carinho e paixão mesmo”, diz a senhora, que é casada há 41 anos e tem dois filhos e um neto.
Antonia participa também com assiduidade da Casa Juvenal Galeno. Trata-se de um espaço no centro de Fortaleza que tem o objetivo de preservar e divulgar o legado do escritor Juvenal Galeno. Ele foi o criador da poesia popular brasileira, pioneiro no folclore do Nordeste do Brasil e o primeiro escritor do Ceará a ter a sua obra publicada em livro pela Secretaria da Cultura, entre outros feitos.
“Precisamos estar nesses locais para valorizar a nossa cultura, inclusive nas escolas. E esta é uma das atividades que mais gosto de fazer com o Abraço Literário, visitar as escolas, levar os livros aos mais jovens e mostrar a beleza que é a leitura, a maravilha que são os livros na vida da gente”, diz Antonia.
O Abraço Literário promove encontros, na grande maioria entre pessoas idosas, para desenvolver a prática da leitura dos diversos gêneros literários, como poesia, conto, crônica, cordel, romance. As reuniões acontecem sistematicamente por meio de rodas de leitura e possibilitam aos participantes a apresentação de textos e comentários sobre o que leram, compartilhando impressões.
“Somos um grupo aberto, no qual temos participantes dos mais variados perfis, com o intuito de trocar experiências humanas”, conta Lúcia Marques, técnica de cultura do Sesc. Ela destaca que não há regras limitantes para a participação no grupo. “Buscamos não delimitar nem faixa etária, grau de escolaridade ou qualquer outro padrão, mas, atualmente, os abracistas, na maior parte, são pessoas idosas e outras de diferentes idades, tendo em comum o interesse por leitura e escrita”, explica.
Para a técnica, os benefícios dos encontros literários são muitos: promovem a democratização do acesso à leitura como ação cultural estratégica de inclusão social e desenvolvimento humano por meio das atividades, além de congregar pessoas para a troca de experiências literárias.
Outro aspecto apontado por Lúcia é a melhora da autoestima. “Tinha um senhor que sofria bullying por não saber ler convencionalmente, e, ao descobrir as palavras, resgatou a dignidade e o respeito perante os amigos de trabalho”, conta.
Destaca também que os idosos passam a ter senso crítico ao olhar para a sociedade, ampliando também o leque de leituras. “Os participantes do projeto saíram da zona de conforto das leituras dos livros midiáticos para os clássicos, saindo da passividade”, destaca.

Preferências literárias – A Bíblia é o livro mais lido no País, de diversos tamanhos, traduções e editoras. O livro sagrado está em boa parte dos lares brasileiros, e o número de adeptos à sua leitura é maior entre pessoas acima dos 40 anos. Os dados são do Instituto Pró-Livro, que de tempos em tempos realiza um amplo levantamento sobre o perfil do leitor e da leitura do povo brasileiro.
Seguindo a popularidade da Bíblia, estão os livros religiosos, de contos, romances e didáticos na preferência dos leitores. A poesia está em oitavo lugar na preferência deles e, por isso, por tais números, iniciativas como esta em Fortaleza tentam mudar o ranking e aguçar ainda mais o interesse dos leitores de todas as idades.
Lúcia está à frente do Abraço Literário desde 2007, mas o trabalho conta com outras profissionais tanto da coordenação de cultura do Sesc, através de Yassara Medeiros, como da coordenação de bibliotecas, comandada por Ana Paula Lima Barros. Juntas, elas estruturam os encontros com dinâmica de afetividade, informações, leitura compartilhada dos textos, gêneros e escritores diversos, inclusive dos abracistas, avaliação e abraço coletivo. Sim, tudo termina com um abraço.




Fonte: Fc edição 977, Maio de 2017
Postado por: Família Cristã




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