A catequese em atos e palavras

Data de publicação: 28/06/2018



Por, Moisés Sbardelotto

Em termos simples, trata-se de incentivar o uso das artes na obra evangelizadora, como a Igreja sempre fez ao longo da História

Agosto é o auge das férias de verão no Hemisfério Norte, especialmente na Itália, onde se comemora o chamado Ferragosto (do latim, Feriae Augusti), na festa da Assunção de Maria, 15 de agosto, ponto alto do período de descanso. Embora o papa Francisco pareça não precisar de férias – nesses quatro anos de pontificado, ele nunca desfrutou da famosa casa de verão pontifícia em Castel Gandolfo; ao contrário, até a transformou em museu aberto à visitação pública – ele também diminui o ritmo de sua agenda, cancelando nesse período, por exemplo, as Catequeses das audiências gerais das quartas-feiras, na Praça de São Pedro. Mas, como bom catequista, o pontífice sabe que é impossível “tirar férias” da prática catequética.
Foi justamente o que Francisco explicou em uma mensagem enviada aos participantes do Simpósio Internacional sobre Catequese, realizado entre os dias 11 e 14 de julho, em Buenos Aires (Argentina). “A catequese” – afirmou – “não é um ‘trabalho’ ou uma tarefa externa à pessoa do catequista, mas se ‘é’ catequista, e toda a vida gira em torno dessa missão.” Para o papa, ser catequista é uma vocação de serviço na Igreja, anunciando e ensinando aos demais aquilo que se recebeu do Senhor.

Primeiro anúncio – Na catequese, o fundamental é o querigma, o primeiro anúncio, o “dom que muda a vida”, segundo o papa. Mas de que se trata? Na exortação apostólica Evangelii Gaudium, Francisco traduz esse anúncio principal em palavras simples: “Jesus Cristo te ama, deu a sua vida para te salvar e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar” (nº 164). O querigma ocupa o centro da atividade evangelizadora da Igreja: “Nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio” (Evangelii gaudium, nº 165).
Por mais que seja um “anúncio”, isso não significa que deve envolver apenas palavras, discursos, conceitos. Ao contrário, como lembra o papa em sua mensagem aos catequistas, São Francisco de Assis, quando um de seus seguidores insistia para que lhe ensinasse a pregar, respondeu-lhe: “Irmão, quando visitamos os enfermos, ajudamos as crianças e damos comida aos pobres, já estamos pregando”. Isto é, o anúncio se faz, principalmente, com a própria vida, toda ela, mediante o testemunho, em sala de catequese ou fora dela, trabalhando ou em férias.
“O catequista” – continua Francisco – “caminha a partir e com Cristo. Não é uma pessoa que parte de suas próprias ideias e gostos, mas que se deixa olhar por Ele, por esse olhar que faz arder o coração. Quanto mais Jesus toma o centro da nossa vida, mais Ele nos faz sair de nós mesmos, nos descentra e nos faz ser próximos aos outros.”
Para explicar esse dinamismo do amor, Francisco usa a metáfora dos movimentos do coração: sístole e diástole. Ou seja, o catequista se concentra para se encontrar com o Senhor e imediatamente se abre, saindo de si por amor, para dar testemunho de Jesus. O próprio Jesus, recorda o pontífice, fazia o mesmo ao se retirar para rezar ao Pai e imediatamente saindo ao encontro dos famintos e sedentos de Deus.
Essa é a fonte daquilo que o papa chama de “catequese mistagógica”, isto é, que aponta para o mistério. A catequese, explica Francisco, é o encontro constante com a Palavra e com os sacramentos, e não algo meramente ocasional, como se fosse um momento prévio à celebração dos sacramentos de iniciação cristã. Na Evangelii Gaudium, o pontífice aprofunda: “O encontro catequético é um anúncio da Palavra e está centrado nela, mas precisa sempre de uma ambientação adequada e de uma motivação atraente, do uso de símbolos eloquentes, da sua inserção em um amplo processo de crescimento e da integração de todas as dimensões da pessoa em um caminho comunitário de escuta e resposta” (nº 166).

Conversão pastoral – Em um momento em que a educação em geral passa por grandes transformações, devido às atuais mudanças culturais, a “educação para a fé” também precisa se reformar, se atualizar. Na Evangelii Gaudium, Francisco pede uma conversão pastoral para tornar todas as estruturas da Igreja, inclusive a catequese, mais missionárias. “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação” (nº 27). Mas como pôr em prática essa conversão, especialmente na prática catequética?
Em sua exortação apostólica, Francisco oferece uma primeira resposta: dar uma atenção especial à “via da beleza” (via pulchritudinis). “Anunciar Cristo” – afirma o papa – “significa mostrar que crer n’Ele e segui-Lo não é algo apenas verdadeiro e justo, mas também belo (...). Nesta perspectiva, todas as expressões de verdadeira beleza podem ser reconhecidas como um caminho que ajuda a encontrar-se com o Senhor Jesus.” Em termos simples, trata-se de incentivar o uso das artes na obra evangelizadora, como a Igreja sempre fez ao longo da História, abrindo-se às múltiplas expressões artísticas atuais, aos novos sinais, aos novos símbolos, a uma “nova carne” para a transmissão da Palavra. E o papa é explícito ao sugerir o recurso também às “diversas formas de beleza que se manifestam em diferentes âmbitos culturais, incluindo aquelas modalidades não convencionais de beleza que podem ser pouco significativas para os evangelizadores, mas tornaram-se particularmente atraentes para os outros” (Evangelii Gaudium, nº 167).
Para isso – e aqui vem a segunda resposta do papa, presente em sua mensagem ao Simpósio Internacional sobre Catequese – o catequista também é chamado a ser criativo, a apostar na criatividade própria e dos catequizandos. O importante é “ter presente o estilo de Jesus, que se adaptava às pessoas que tinha em sua frente, para lhes tornar próximo o amor de Deus”. Não é preciso ter medo de mudar, de se adaptar, porque Deus mesmo renova todas as coisas n’Ele e nos precede na ação evangelizadora: “Ele já está na pessoa de hoje e ali nos espera”.
A catequese em tempos de Francisco é chamada a ser “uma verdadeira escola de formação na qual se cultiva o dom da fé que se recebeu, a fim de que os atos e as palavras reflitam a graça de ser discípulos de Jesus”.




Fonte: Fc edição 980, Agosto de 2017
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Liturgia da Palavra
25 de novembro de 2018 - 34º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Liturgia da Palavra
Liturgia da Palavra
18 de novembro de 2018 - 33º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Liturgia da Palavra
Matrimônio e sua dimensão
Só quem ama de verdade compartilha com o outro seus sonhos e se sente envolvido pelos apelos
Possibilidades e desafios
É um desafio resgatar o protagonismo dos cristãos leigos e leigas numa Igreja paroquial concentrada
Liturgia da Palavra
11 de novembro de 2018 - 32º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Liturgia da palavra
Início Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados