Cor e calor para a amizade

Data de publicação: 16/07/2018


Por,  Carmen Beatriz Fávero, fsp

A ave constrói o ninho até os filhotes aprenderem a voar, e o homem constrói um lar para que os filhos possam voltar.

 “A ave constrói o ninho; a aranha, a teia; o homem, a amizade.” Ao conceituar essa compreensão, o poeta inglês William Blake afirma que a amizade para o ser humano é tão essencial quanto o ninho para a ave e a teia para a aranha. Pela amizade, o homem transforma o ninho e a teia, dando-lhes sentido, cor e calor. Esses nichos ecológicos, simples arte técnica de seres que buscam a sobrevivência, quando aquecidos pela amizade, se transformam em realidades vivas. O ninho se torna família; e a teia, uma textura social costurada pela linha evolutiva do respeito e do progresso.
A família sem o calor da amizade seria apenas um teto, um abrigo, um agrupamento de pessoas; e a teia social, somente uma rede de relações conectadas por interesses egoístas, sem relevo e sem sustentabilidade. A arte e a beleza, seja do ninho, seja da teia, se revigoram quando a amizade lhes dá sentido, voz e seiva.
A ave constrói o ninho até os filhotes aprenderem a voar, e o homem constrói um lar para que os filhos possam voltar. O ninho da ave é provisório, exposto às intempéries, feito para ser abandonado; já o ninho humano é alicerçado por laços protetores, embebidos de afeto, esperando retornos, entrelaçando gerações.
 A aranha constrói a teia para a sua sobrevivência; o ser humano constrói a sociedade para a convivência. A aranha tece com fios frágeis, viscosos, fios de captura, de armadilha. Teias de refúgio, de cópula e de segurança. O ser humano tece sua rede com relações de troca, negociadas na confiança, conectando diferenças.
***
Esta é a vocação do homem, como se expressou o papa Francisco, em sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais: “Gostaria de encorajar a todos a pensar a sociedade humana não como um espaço onde estranhos competem e procuram prevalecer, mas antes como uma casa ou uma família cuja porta está sempre aberta  procurando aceitar uns aos outros”.
Francisco prossegue exortando para que a comunicação crie “proximidade”. Uma proximidade que “cuida, conforta, cura, acompanha e faz festa”. E o que é que aproxima gerando essas atitudes senão a amizade? Somente uma comunicação construída na confiança, na abertura, no abraço sincero, sem preconceito, pode promover a cultura do encontro, por meio da qual aprendemos a sentir e acolher o outro como amigo.
Construamos ninhos com o calor e teias com a cor da amizade, para suavizarmos o frio da solidão e colorirmos a teia das relações. As palavras de amizade, de esperança e de misericórdia – como nos exorta o papa – podem ser simples, mas seu eco ressoa para sempre. Ficam gravadas no mais profundo, e a simples lembrança resgata a alegria e o prazer de se ter amigos.
Só a palavra amiga cria o diálogo que constrói pontes para a cultura do encontro. Sem a confiança, a solidariedade e o interesse coletivo, transformamos nossas relações numa guerra de egoísmos, uma competição desumana, uma tragédia. Portanto, o ninho e a teia humana têm de ser tecidos e sustentados pelos laços da amizade duradoura, construtiva, que educa e apoia. Do contrário, seremos eternos pássaros feridos, perdidos, sem horizontes ou aranhas ardilosas entrelaçando fios que capturam, dilaceram, rasgam e destroem. De outra forma, estaríamos sempre nos refugiando em ninhos e teias na selva onde impera a lei do mais forte.
Bem-vindas as relações que nos surpreendem com uma amizade de passagem, mas alegram e dão relevo à arte do benquerer. Amigos à distância que alimentam a saudade, por vezes doída, mas nos proporcionam a alegria do reencontro. São esses desenhos todos, de laços multicoloridos, entrelaçados de cuidados, que aquecem e dão sabor à convivência humana.
Já dizia Cícero, o filósofo romano: “Quem afasta a amizade da vida parece que arranca o sol do mundo, pois os deuses imortais não nos deram nada melhor nem mais doce”.
Nada melhor, porque a amizade verdadeira pressupõe igualdade em termos de virtudes éticas, e nada mais doce porque somente os amigos verdadeiros podem conjugar a doçura do verbo conviver. E ainda que ninho e teia sejam sempre imperfeitos – porque em contínua construção – os fios da amizade os tornarão sempre mais próximos do belo, do nobre, do construtivo. Poetas e escritores souberam descrever muito bem a felicidade de se ter amigos:
 Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!


* Carmen Beatriz Fávero, fsp, autora do livro A pétala, de Paulinas Editora.




Fonte: Fc edição 979, Julho de 2017
Postado por: Família Cristã




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