Um canto negro

Data de publicação: 17/08/2018

                       
Por, Karla Maria

Um canto negro
As mulheres da família de Soffia souberam educar e cultivar o amor à origem negra. Agora, a menina canta a autoestima do povo negro contra o preconceito

Martin Luther King, líder da causa dos direitos civis nos Estados Unidos, foi morto com um tiro de rifle num hotel de Memphis, no Tennessee. Ele tinha 39 anos em 4 de abril de 1968, seu último dia de vida. Naquele mesmo ano, em que o Brasil vivia momentos de ditadura militar, em que pessoas eram presas e torturadas por defenderem também seus direitos civis, a pequena Lucia Makena crescia longe da política.
Cresceu, tornou-se uma mulher forte, tornou-se mãe e pai, depois avó, pedagoga e ativista dos movimentos sociais em defesa dos direitos civis da população negra, assemelhando-se assim à luta do reverendo americano King, para além da cor da pele.
Mas nem sempre foi assim. Lucia tinha situações práticas da vida a solucionar, como educar sua filha mais velha sem a figura de um pai, e questões como sua identidade negra estavam inconscientemente em segundo plano. “Eu tinha consciência, mas não era política. Uma coisa é você ser uma pessoa negra, outra é você ser uma mulher negra, consciente da sua negritude, da sua origem”, diz Lucia, que galgou seu protagonismo no movimento negro com o passar do tempo e com o Magistério.
Contou sua história em uma sexta-feira de outono, mais quente que a de muitos verões, em seu apartamento, no centro da capital paulista. Ao lado estava Kamilah Pimentel, sua filha mais velha, com 30 anos, e a neta, Soffia Gomes da Rocha Gregório Correa, de 12.
As três são militantes do movimento negro. Kamilah é estudante de Direito e, além de estudiosa de temas como preconceito racial, cultura negra e direitos civis, é promotora de eventos culturais que valorizam a identidade negra. Já Soffia é rapper, compõe músicas e as rima contra o preconceito.
Quando sobe nos palcos – e já foram muitos – com seu cabelo black power enfeitado por um laço colorido, tênis rosa choque e sorriso branco, Soffia passa um recado sério que parece suprir lacunas abertas pela falta de informação e formação nas escolas e lares brasileiros. 
Desde março de 2003, por força da Lei Federal nº 10.639, as escolas de Ensino Fundamental e Médio estão obrigadas a ensinar História e Cultura Africana e Afro-Brasileira. Segundo o texto da lei, o objetivo é promover uma educação que reconhece e valoriza a diversidade, comprometida com as origens do povo brasileiro. “Às vezes, as pessoas não sabem da história do Brasil, da história do povo negro. Às vezes, a escola não ensina e aí a família tem que ensinar, mas geralmente a família também não ensina. Os dois têm que falar. Se você estuda sobre a sua história, a sua origem, você começa a se valorizar mais”, afirma a MC.

Beleza e igualdade – Soffia espelha-se nas mulheres negras, como a escritora Carolina Maria de Jesus, Xica da Silva, Dandara dos Palmares, mas não só, espelha-se em sua mãe e em sua avó, aliás, para falar de beleza e igualdade, do preconceito que já sentiu e que luta para que ninguém mais sinta. Aos oito anos, chegou a casa dizendo à mãe que queria ser branca.
“Quando eu tinha oito anos, uma menina na escola fez uma coisa triste, aí em casa falei com minha mãe sobre aquilo. Ela resolveu me levar nas oficinas, e eu comecei a pesquisar mais sobre a minha história. Mas a sociedade, a televisão, a escola particular fazem isso com a gente”, desabafa a menina.
“É muito comum ver mulheres que queiram ser brancas para serem aceitas. Para chegar mais ao sucesso, a mulher negra que ainda não se reconhece como mulher negra quer se tornar uma branca, e isso é triste”, assume a avó, Lucia.
Soffia desde pequena foi estimulada pela mãe, pela avó e pela tia, Poty Caruana, a conhecer e cultivar sua identidade negra, por meio de literatura afro, idas a seminários e marchas da mulher negra, debates e brincadeiras em casa com bonecas negras de pano costuradas pela avó.
“Utilizamos estratégias para que ela cultivasse a identidade e a autoestima negras, e mesmo assim chegou o momento em que disse que queria ser branca. A luta é árdua, porque a televisão está a todo o momento dizendo para as meninas e meninos negros que o bonito e o correto é ser branco, magro e ter cabelos lisos”, conta a mãe, Kamilah, que, preocupada, levou Soffia a participar da oficina O Futuro do Hip Hop, que recebe apoio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.
“Foi lá que eu fiz as oficinas e comecei a cantar. Achei que era legal uma criança cantando hip hop, aí eu quis cantar também”, conta a rapper, que já participou de diversos programas da TV e fez várias participações especiais dentro e fora de São Paulo, em eventos de grande importância, como a comemoração do Dia da África, o VI Encontro Paulista de Hip Hop, o Festival Afrolatinidades em Brasília (DF), o XI Igbá – Seminário Afro Alagoano, o Aniversário da Casa de Hip Hop de Diadema, o Evento Hip Hop Mulher e a inauguração da Casa de Hip Hop de São Bernardo do Campo, na qual foi premiada com um troféu de artista revelação, entre outros.


Valorização do ser negro – Por falar em troféu, essa pequena e valente rapper está concorrendo ao Prêmio Multishow 2016 em três categorias: Melhor Música, com Brincadeira de Criança, Música Chiclete, com Menina Pretinha, e Experimente: MC Soffia (uma categoria parecida com revelação). “Fico muito feliz em vê-la cantando, levantando nossa cultura, porque a gente está em um momento em que as crianças estão se defendendo (do racismo), estão com este conhecimento”, diz a avó orgulhosa, e tem motivos suficientes para tal.
Soffia já reconhece o seu papel e o alcance de suas músicas, de seu sorriso, de seu black power, e diz que o rap significa “música de força e resistência”. “Antes as pessoas iam para a televisão e não podiam falar e agora eu falo.” E não fala pouco, embora demonstre certa timidez diante de tantas perguntas.
 “Todos os cabelos são bonitos. Eu acho que tem que gostar do seu cabelo, do jeito que ele é, os crespos e cacheados são muito lindos, porque dá para fazer vários penteados.” Sobre o preconceito que sente, diz que diretamente não sofre, mas... “Mesmo se eu não sofresse preconceito... Quando uma pessoa negra sofre, todos os negros sofrem. Se uma menina negra sofre, eu também sofro. Para mim, já é normal, porque eu tenho informação e sei que preconceito é errado, mas muitas pessoas ainda não sabem e ficam assustadas.”
Cansada depois de tantas perguntas, calçada em um tênis rosa vibrante, a menina revelou seu maior sonho, além de conseguir seguir inúmeras profissões. “O meu maior sonho é que acabe o racismo. Para que todas as pessoas sejam amigas umas das outras, pode ser loiro, negro, negra, que todas as crianças possam brincar do que quiserem. Eu também quero viajar para todos os países, quero conhecer a África.”

O sonho de Soffia só pôde ser sonhado porque a avó, Lúcia Makena, e a mãe,  Kamilah Pimentel, acreditaram, apostaram e fizeram do lar destas mulheres um ambiente aberto, de formação cultural e política, mas, sobretudo, de valorização do ser humano negro, da origem dele que perpassou a história e as chibatas e se encontra além-mar, na África.





Fonte: Fc edição 965, Maio de 2016
Postado por: Família Cristã




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