Fé na paz

Data de publicação: 17/09/2018


Por, Nathan Xavier

Quem diz matar em nome de Deus nunca, na verdade, o conheceu nem tem consideração por suas criaturas

Em assuntos que envolvem religião e violência é muito comum encontrarmos comentários acalorados de pessoas defendendo o desaparecimento completo das religiões. O argumento geral é que as religiões são as maiores responsáveis pelas guerras e lutas sangrentas ao longo dos séculos. Porém, representantes de diversas religiões concordam que uma interpretação fundamentalista e instrumentalizada de textos sagrados leva as pessoas, e não as religiões, a praticarem atos violentos em nome de alguém que, garantem, não é Deus.
Pablo Neves, diácono da Comunidade Santo Efrém, da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, em São Luís (MA), destaca que, nos episódios extremos de fanatismo religioso que resultam em atentados contra a humanidade, as pessoas matam em nome de si mesmas, se colocando no lugar de Deus. “Quem diz matar em nome de Deus nunca, na verdade, conheceu Deus”, garante. Da mesma forma, o sacerdote católico José Bizon, diretor da Casa da Reconciliação, espaço da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cuja finalidade é buscar o ecumenismo entre as Igrejas cristãs, afirma: “Pessoas que matam em nome de Deus são aquelas que leem o livro sagrado de forma errada e fundamentalista, tirando frases e palavras de seu texto e do seu contexto”. Por isso, o pastor Romeu Martini, assessor teológico da presidência da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, afirma que é importante os fiéis buscarem informações e aprenderem sobre a própria fé: “Na medida em que a Bíblia não é estudada e interpretada com critérios que a Teologia séria nos legou, haverá sempre quem vai invocar aquele ‘deus’ para cometer atrocidades em seu nome”.
Mohamed Zeinhom Abdien, presidente da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro, em nota de repúdio aos atentados de 13 de novembro passado em Paris (França), segue a mesma linha dos representantes cristãos ao afirmar que o Islã é a religião da paz. “Os indivíduos ou grupos que praticam ações criminosas não representam ninguém, senão a si mesmos, e devem ser levados à justiça para responderem pelos seus atos. Não devemos julgar uma religião pela conduta desse ou daquele suposto seguidor, mas sim pelo que de fato a religião promove”, assegura.

Justiça – Segundo religiosos e religiosas, uma autêntica prática da fé, além de não contribuir para a violência, não é passiva ao se confrontar com os problemas da sociedade. A tal propósito, a monja budista Coen Sensei ensina que as religiões contribuem para a paz “educando seres de paz, em paz e na paz, e renovando os valores éticos básicos de nosso pequeno mundo globalizado”. A ética, segundo ela, é uma das boas contribuições das religiões ao mundo. Já o pastor Romeu lembra que a palavra paz em hebraico – shalom – tem um sentido mais amplo. “Implica estar completo, são e bem em todos os sentidos. Ela tem um sentido social e religioso. Não se trata apenas da ausência de guerras e conflitos entre as pessoas, mas também da reconciliação com Deus, que possibilita a paz com os nossos semelhantes. É uma paz com justiça que gera satisfação pessoal e coletiva”, orienta. Citando Paulo apóstolo, padre José Bizon arremata que a paz é fruto da justiça. “A religião é ética e trabalha pela paz que gera justiça. Precisa ser aquela que se põe ao lado de quem tem dor, de quem está sofrendo ou sendo explorado”, completa.
O papa Francisco, em sua recente mensagem para o Dia Mundial da Paz, comemorado em 1º de janeiro, fala exatamente de uma das causas da injustiça. “A indiferença para com o próximo – filha da indiferença para com Deus – assume as feições da inércia e apatia que alimentam a persistência de situações de injustiça e grave desequilíbrio social, as quais podem levar a conflitos ou gerar um clima de descontentamento que ameaça desembocar, mais cedo ou mais tarde, em violências e inseguranças.”
A mensagem do papa reforça ainda a necessidade de mudar a mentalidade de que a paz é algo passivo. “A paz é fruto de uma cultura de solidariedade, misericórdia e compaixão. Cada um é chamado a reconhecer como se manifesta a indiferença na sua vida e a adotar um compromisso concreto que contribua para melhorar a realidade onde vive, a começar pela própria família, a vizinhança ou o ambiente de trabalho.” Em razão disso, o pastor Romeu ressalta a importância de ser justo, honesto e cuidar dos menos favorecidos sem explorar ninguém, e alfineta: “Cremos que não é nada difícil confrontar esses alicerces básicos com o que acontece em nosso País hoje e poder dizer por que não temos paz”.

Evangelização – Mas se um dos principais objetivos das religiões é levar seu entendimento sobre Deus aos outros, haverá algum momento em que elas irão discordar. É quando o respeito pelo outro e pelo diferente precisa prevalecer e, de certo modo, essa é outra lição das religiões na construção da paz. “O embate acontece se eu acredito que a minha religião é a única verdadeira”, afirma padre Bizon. “Segunda nossa tradição católica, devemos anunciar Jesus Cristo, que veio para salvar a todos e não alguns. Mas não podemos ignorar que há outras tradições religiosas que também apresentam seu modo de viver”, completa. Pastor Romeu indica que a religião, além de ser em primeiro lugar sinal de convicção de fé, precisa ser ainda apresentada e confrontada pela via do diálogo. “Eu posso até tentar convencer o outro em favor da minha religião, fazer proselitismo. Mas preciso fazer isso com argumentos e, sobretudo, com uma postura de diálogo profundamente respeitosa”, distingue.
O diácono Pablo ressalta a importância de se levar em consideração a bagagem e a vivência que a outra pessoa carrega. “Os conflitos surgem quando o orgulho humano não aceita o outro em sua particularidade, em sua própria caminhada e história. Caso as coisas não sejam como nós queremos, ou no tempo em que queremos, é preciso ter paciência e respeito”, lembra. E isso parece não ter faltado, na visão do sheik David Munir, imã da Mesquita de Lisboa (Portugal), quando do abraço histórico do papa Francisco, o rabino Abraham Skorka e o sheik Omar Abboud, em Jerusalém: “É pelo conhecimento do outro que o entendemos e se estabelece o mútuo respeito. E só se chega ao conhecimento de Deus a partir do respeito que estabelecermos entre nós”. Respeito que, aliás, deve estar presente em todos os momentos. Padre José Bizon lembra que quando, por exemplo, estamos no trânsito e alguém nos dá uma fechada, por descuido ou má intenção, geralmente queremos fazer o pior com a outra pessoa. Mas é preciso, justamente nessas situações, controlar nossos gestos desumanos e dar ao menos uma chance à paz. “Alimentar o perdão, a desculpa, a delicadeza, seja onde for”, pontua.






Fonte: Fc edição 961, Janeiro de 2016
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Evangelização, sim!
Para Francisco, a evangelização não pode confundir-se com o clericalismo nem com o proselitismo.
O Anjo Bom do Brasil
Irmã Dulce,a religiosa que conquistou o coração do povo brasileiro será canonizada.
Mesa da Palavra
13º. Domingo do Tempo Comum - Ano C • 30 de junho de 2019 - Solenidade de São Pedro e São Paulo
Mesa da Palavra
A fé cristã professada pela Igreja Católica é de tal forma complicada, que só pode ser verdadeira.
Mesa da Palavra
Solenidade de Pentecostes.Quando ele vier, conduzirá os discípulos à plena verdade.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados