Somos chamados a ser santos

Data de publicação: 20/09/2018

Todos somos chamados a ser santos

Por, Moisés Sbardelotto

O neognosticismo foca toda a vida no que pode levar a uma “fé fechada no subjetivismo”, a “um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo”


No início de abril, o papa Francisco renovou o convite aos cristãos e cristãs à santidade. O Senhor “quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa”, afirmou o pontífice. Este é o tema central da nova exortação apostólica assinada pelo papa e intitulada “Gaudete et Exsultate, sobre o chamado à santidade no mundo atual”. O título retoma a frase de Jesus no Evangelho de Mateus: “Alegrai-vos e exultai” (Mt 5,12), dirigida àqueles que são perseguidos ou humilhados por sua causa. “O Senhor pede tudo” – afirma o pontífice – “e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados.”
Trata-se do quarto grande documento de Francisco em seus cinco anos de pontificado. O papa relembra que o chamado à santidade já se encontra presente em seus outros grandes textos: “Na Evangelii Gaudium, quis concluir com uma espiritualidade da missão; na Laudato Si’, com uma espiritualidade ecológica; e na Amoris Laetitia, com uma espiritualidade da vida familiar” (nº 28). Agora, na Gaudete et Exsultate, Francisco não escreve um “tratado sobre a santidade, com definições ou análises sobre os meios de santificação. “O meu objetivo é humilde”, diz o papa, “fazer ressoar mais uma vez o chamado à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades” (nº 2).

Santidade ao pé da porta – A exortação apostólica é relativamente curta – com pouco menos de 20 mil palavras e 177 parágrafos divididos em cinco capítulos. O primeiro aborda “O chamado à santidade”, recordando as várias testemunhas da santidade, na Bíblia, ao longo da história cristã, mas também hoje. Entre tais testemunhas, “podem estar a nossa própria mãe, uma avó ou outras pessoas próximas de nós”, explica Francisco. “A sua vida talvez não tenha sido sempre perfeita, mas, mesmo no meio de imperfeições e quedas, continuaram a caminhar e agradaram ao Senhor” (nº 3). Essa é a “santidade no povo paciente de Deus”, que pode se manifestar também “nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir” (nº 7). É o que Francisco chama de “santidade ‘ao pé da porta’”, ou seja, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus.
O importante para o papa é reconhecer que “ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica de um povo” (nº 6). Além disso, para ser santo, “não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. (...) Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra” (nº 14). A santidade, portanto, é um caminho e “irá crescendo com pequenos gestos” cotidianos (nº 16).
O segundo capítulo fala de “Dois inimigos sutis da santidade”: os atuais gnosticismo e pelagianismo, “duas falsificações da santidade”. Trata-se de duas heresias que surgiram nos primeiros séculos do cristianismo, mas continuam sendo atuais. Elas se manifestam como uma busca de “segurança doutrinária ou disciplinar” e dão origem a um “elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar” (nº 35). O neognosticismo foca toda a vida cristã no conhecimento da doutrina, o que pode levar a uma “doutrina sem mistério”, a uma “mente sem carne”, a uma “fé fechada no subjetivismo”, a “um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo”. Já o neopelagianismo põe toda a ênfase da vida cristã na vontade humana e no esforço pessoal, o que leva a uma “vontade sem humildade”, a uma “obsessão pela lei”.

Bem-aventuranças, santidade hoje – No terceiro capítulo, Francisco convida a Igreja a se colocar “À luz do Mestre”, voltando às palavras de Jesus, que explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo, ao narrar as Bem-aventuranças. Segundo o papa, elas são a “carteira de identidade do cristão”. “A palavra ‘feliz’ ou ‘bem-aventurado’ torna-se sinônimo de ‘santo’, porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade” nº 64). Refletindo sobre cada uma das oito Bem-aventuranças, Francisco as atualiza e sintetiza a santidade contemporânea deste modo: “ser pobre no coração”, “reagir com humilde mansidão”, “saber chorar com os outros”, “buscar a justiça com fome e sede”, “olhar e agir com misericórdia”, “manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor”, “semear a paz ao nosso redor” e “abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas”. Desse modo, o papa deixa claro que “ser santo não significa revirar os olhos num suposto êxtase” (nº 96), mas sim em responder concretamente ao apelo de Jesus a reconhecê-lo nos pobres e atribulados. Se a vida de um nascituro é sagrada, “igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte” (nº 101).
No quarto capítulo, Francisco ressalta “Algumas características da santidade no mundo atual”, ou seja, traços espirituais indispensáveis para combater alguns riscos e limites da cultura de hoje. A eles, Francisco responde com cinco grandes manifestações do amor a Deus e ao próximo: 1) suportação, paciência e mansidão; 2) alegria e senso de humor; 3) ousadia e ardor; 4) santificação em comunidade; e 5) santificação em oração constante.
Por fim, no último capítulo, o papa fala de “Luta, vigilância e discernimento”. Se “a vida cristã é uma luta permanente”, é preciso “força e coragem para resistir às tentações do demônio e anunciar o Evangelho” (nº 158). Mas como saber se algo vem do Espírito Santo ou do espírito do mundo e do espírito maligno? Com o discernimento, responde Francisco. Não se trata apenas de uma boa capacidade de raciocinar e de senso comum, mas é também um dom que é preciso pedir. “É verdade que o discernimento espiritual não exclui as contribuições de sabedorias humanas, existenciais, psicológicas, sociológicas ou morais; mas transcende-as. Não bastam sequer as normas sábias da Igreja. Lembremo-nos sempre de que o discernimento é uma graça” (nº 170).
Francisco encerra o documento rezando ao Espírito Santo para que infunda em toda a Igreja um “desejo intenso de ser santos para a maior glória de Deus”. “Assim, compartilharemos uma felicidade que o mundo não poderá nos tirar” (nº 177).











Fonte: Fc edição 989, Maio de 2018
Postado por: Família Cristã




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