Fé a dois

Data de publicação: 26/09/2018



Por, André Luís Kawahala e Rita Massarico Kawahala

A cada dia o casal é chamado a viver sua fé individual, mas apontando-a para o viver a dois e da família

Em nossa vida, a fé é uma experiência inexplicável. Você precisa querer crer e precisa receber de Deus o dom de crer, para poder vivenciar a fé e, então, professá-la. Subentende uma fidelidade a si mesmo e ao objeto da crença, e por isso em latim fé é fides, raiz de onde se origina a palavra fidelidade. E dessa experiência geram-se três atitudes da fé: “crer em”, “confiar em”, e “entregar-se a”. É uma experiência pessoal, mas, quando passamos a ser uma só carne, torna-se, aos poucos ou rapidamente, algo a ser experienciado a dois. Mas como isso poderia acontecer?
Sair de si – Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26). E esse é o fundamento para a fé a dois. Saber que existe a origem de tudo e inclusive da vida como a conhecemos. A profunda e belíssima simbologia e significado da Criação no primeiro livro da Bíblia nos mostra duas realidades importantes: o poder de Deus é partilhado como presentes (dons), na Criação, e a vida é o mais precioso. Independentemente da crença, ou não crença, que se professe, reconhecer o potencial da vida humana de nascer, crescer, desenvolver-se e transformar pequenas e grandes coisas à sua volta é tomar consciência de que existe, sim, Algo ou Alguém que realizou, realiza e realizará, no todo da existência, um projeto no qual cada pessoa participa ativamente. E onde o ser casal é um fundamento, a única forma existente de manter a vida. O que leva à segunda realidade, que aponta que, nesse projeto, é importante a união entre homem e mulher, não somente para a continuidade da geração de vida, mas para o testemunho do amor como reflexo do Criador, pois cada um é chamado a sair de si para viver com a outra pessoa uma vida compartilhada, comprometida com o bem mútuo e o auxílio essencial para chegar onde se propõe ir, aquele ponto que Deus espera que alcancem. Esse sair de si para o encontro com o outro é a manifestação real da fé, porque é preciso que haja um “eu” crente desejoso de encontrar um “você” crente que possam manifestar mutuamente essa fé na outra pessoa, assim como a manifestam a Deus.

Cotidiano de fé – A cada dia o casal é chamado a viver sua fé individual, mas apontando-a para o viver a dois e da família. Papa Francisco, citando o decreto Apostolicam Actuositatem, do Concílio Vaticano II, sobre o apostolado dos leigos, afirma: “Os esposos cristãos são cooperadores da graça e testemunhas da fé um para com o outro, para com os filhos e demais familiares” (Amoris Laetitia, 321).
Homem e mulher, que assumem seu papel irrenunciável de esposos e pais, testemunham a fé em atitudes simples e sinceras que convertem seus filhos e podem mantê-los firmes na caminhada cristã, ainda que o mundo tente levá-los em outras direções. E, quanto mais firmes e unidas forem as ações do casal na fé, mais convincentes e fortes serão os reflexos na família. Afirmando que Deus existe, não somente pelas palavras mas pela prova do amor, da entrega, da caridade com o próximo e da partilha igualitária no lar, Igreja Doméstica, confirma-se a sua existência. Confiando a própria vida aos desígnios de Deus, entendendo seus propósitos e desejando participar ativamente desse processo divino, o casal o quanto é importante ser fiel a Deus nos bons e nos maus momentos da vida. Confiar em Deus nas dificuldades revela não uma dependência, como muitos dizem, mas mostra uma disposição de espírito em encaixar-se nos propósitos do Alto, abandonando as posições egoístas e a prática mentirosa de uma vida sem Deus.
Por fim, quando se entrega a vida pessoal e, em comum acordo, a vida conjugal a Deus, pela fé a dois, a família poderá observar uma mudança gradual na própria vida. Quando os filhos percebem que seus pais entregam seus caminhos Àquele que pode fazer acontecer para além dos esforços humanos, ficarão curiosos em ver como isso funciona. E Deus, que é fiel e jamais abandona aqueles que creem com fidelidade, virá para confirmar Sua promessa (cf. Dt 7,9).
E isso tudo precisa acontecer, independentemente da intensidade da fé dela e dele, que certamente nunca serão iguais. Mas se o casal professa e testemunha a fé em profunda união, porque acredita na vocação matrimonial – que Deus os chamou para esse fim –, torna a presença de Deus mais real e forte na transformação não somente da casa, mas de todos os ambientes onde eles se fizerem presentes.

A prática faz a diferença – Rezar é essencial. A ligação com Deus se faz através da oração. Que o casal reze em casa, sozinhos e a dois, pois essa é a base da oração familiar. Mas a expressão da fé a dois deve ir além. Marido e mulher devem participar juntos sempre, se possível, da missa dominical. Devem participar da vida da paróquia e envolver-se nas pastorais, serviços e movimentos. Devem participar e lembrar que deverão, nas dificuldades que surgirem, suportar uns aos outros no temor de Deus e no amor (cf. Ef 4,2) e perdoar os erros e ofensas como o Senhor faria (cf. Cl 3,12-14). Esse testemunho revela a fé do casal. Mas, sobretudo, como resultado mais belo da fé é revelar a esperança em um mundo melhor, construído a partir do viver em Deus, pois o casal que tem fé a dois jamais desiste de mudar a si e ao mundo para que sejam sempre melhores.
E você, leitor, acha possível viver essa fé conjugal? Pois no próximo mês falaremos um pouco mais da esperança de dias melhores pela fé do casal.




Fonte: Fc edição 989, Maio de 2018
Postado por: Família Cristã




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