A cidade de Nossa Senhora

Data de publicação: 11/10/2018


Por, Nathan Xavier
 
Para compreender a história da Padroeira do Brasil, deve-se conhecer um pouco da história de Guaratinguetá, a cidade de Aparecida surgiria depois
Conhecer a história da aparição da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida é viajar por um pedaço da história do País. As duas se entrelaçam ao longo do tempo e atingem em cheio a religiosidade do povo. Tanto que até mesmo evangélicos têm respeito ou chegam a pedir a intercessão de Nossa Senhora Aparecida, algo inusitado para uma expressão religiosa que não admite veneração de imagens e muito menos a exaltação à mãe de Jesus, como os católicos praticam. A fé romeira em honra a Aparecida, nascida no meio do povo, conseguiu permanecer em seu coração até nossos dias. Mas em que ponto a história da pequena imagem de terracota tirada das águas do Rio Paraíba se emaranha com a história do Brasil? Já começa com o motivo pelo qual os pescadores foram até o rio para pegar peixes.

Pesca abundante – Conde de Assumar era uma importante personalidade em 1717. Seu nome era Pedro Miguel de Almeida Portugal, nascido em terras lusitanas e colecionador de títulos da Coroa Portuguesa, como era comum na época da monarquia às pessoas que ganhavam a confiança do rei. Nomeado pelo Reino de Portugal como 3º governador da Real Capitania das Minas de Ouro e dos Campos Gerais dos Cataguases (nome oficial das terras que se tornariam os estados de São Paulo e Minas Gerais), chegou ao Brasil em julho de 1717, desembarcando no Rio de Janeiro (RJ), seguindo viagem por mar até Santos (SP) e depois por terra até São Paulo (SP), onde tomou posse da Capitania a 4 de setembro, em cerimônia na Igreja do Carmo. Mas seu objetivo, segundo a ordem do rei, era Minas Gerais, no intuito de manter a ordem entre os mineiros da região e garantir as rendas da Coroa. Por isso, no começo de outubro, conde de Assumar vai em direção a Vila Rica, em Minas Gerais, conhecida hoje como Ouro Preto.
A Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, nome oficial da cidade, surgiu como povoado em 1628 através da doação por parte do Reino de Portugal a Jacques Félix, um bandeirante, e seus filhos, de terras no Vale do Paraíba. Lá ele fundara a cidade de Taubaté e, mais ao norte, surgia, em torno da antiga capela de Santo Antônio, hoje a catedral do município, Guaratinguetá. No ano de 1651, foi elevada a vila pelo capitão Domingos Luiz Leme, antes disso os índios dominavam aquelas terras até a chegada dos brancos e era abundante o número de garças, que marcavam a paisagem local, por isso o nome Guaratinguetá, que, em tupi, significa “muitas garças”.

Caminho do Ouro – O comércio era a principal atividade da então vila. Isso porque o local é estratégico, sendo um entroncamento dos caminhos que levavam a São Paulo, Vila Rica e Parati, importantes cidades na época da colônia de Portugal. Ao terminar a cansativa subida da serra, o conde permanece alguns dias em Guaratinguetá esperando suas bagagens. Lembrando que na época o caminho era percorrido a pé ou a cavalo em meio a trilhas na floresta, o que tornava difícil o trecho. Nessa estada, a Câmara da Vila pede aos pescadores o melhor pescado para servir a esse senhor ilustre, o conde de Assumar. Nesse ponto, a história é mais conhecida.
Os pescadores não conseguem pescar nada, até que a rede traz o corpo da imagem de Nossa Senhora da Conceição e, em seguida, a cabeça. Depois dessa aparição (daí, Aparecida), os pescadores conseguem muitos peixes para o banquete do conde. “Um questionamento que coloquei no meu livro é se Pedro Miguel ficou sabendo dessa imagem, mas, infelizmente, não sabemos”, comenta Tereza Galvão Pasin, professora aposentada e autora do livro Senhora Aparecida – Romeiros e Missionários Redentoristas na História da Padroeira do Brasil, da Editora Santuário.
O que se sabe, por registros históricos, é que “ele foi recebido com grande festa na cidade e os peixes foram abundantes”. Mas a escritora conta outra curiosidade: “Segundo o diário do próprio conde, ele chega a Guaratinguetá no dia 17 de outubro. Logo, por que nossa festa é dia 12?”. São detalhes históricos, mas que enriquecem o conjunto. O fato, explica Tereza, é que a data já tinha sido mudada várias vezes. Primeiramente foi em março, acompanhando a data de Nossa Senhora da Conceição, em Portugal, depois trocada para maio e a última, sendo Padroeira do Brasil, foi colocada em 8 de setembro. Tempos depois, na década de 1950, os bispos pediram ao Congresso que fosse trocada para dia 12 de outubro, longe da festa da Independência, e numa data que não havia nenhuma comemoração.
A imagem permaneceu quase 30 anos na casa de Felipe Pedroso, o pescador mais velho presente no dia do encontro da imagem, até ser construída a primeira igreja, pequena, feita ainda de sapê. Com o crescimento da devoção e os relatos de milagres, o que fazia atrair mais gente, foram sendo construídas igrejas maiores até a atual basílica, considerada a segunda maior do mundo, só perdendo para a de São Pedro, no Vaticano.
 A cidade de Aparecida (SP) surgiria apenas em 1928, com a emancipação de Guaratinguetá. Boa parte dessa história é contada cronologicamente pelo livro de Tereza e também no recente inaugurado Museu de Cera (veja mais sobre o museu às paginas...). Uma religiosidade que toca o coração de todos, pela autenticidade e simplicidade do povo que recorre à Senhora Padroeira do Brasil: “As pessoas procuram a imagem e estão ali por devoção, por fé, atraindo todas as classes sociais, de diferentes partes do Brasil. É muito bonito”, resume Tereza.




No Santuário Nacional de Aparecida encontra-se o Museu de Cera, dedicado à história do encontro da imagem no Rio Paraíba
Por, Osnilda Lima, fsp *

Uma viagem do século 18 até o atual. Além de um encontro com a arte, é possível percorrer e experienciar o caminho de fé iniciado pelos pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso e vivido por atuais devotos de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Esse trajeto pode ser percorrido no Museu de Cera Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida (SP). Os cenários remetem ao ano de 1717, quando aconteceu o encontro da imagem da santa, na segunda quinzena de outubro, até eventos atuais, relacionados à imagem.
Conta a história que o então governador das capitanias de São Paulo e Minas Gerais, dom Pedro de Almeida Portugal, conhecido como conde de Assumar, passou pela Vila de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, em sua viagem para a cidade mineira de Vila Rica. Tal visita desencadeou uma série de acontecimentos e resultou na maior história de fé e devoção do povo brasileiro.
Os três pescadores foram incumbidos de buscar os peixes para a realização do banquete a ser oferecido ao conde. Após improdutivas tentativas na pescaria, desceram o Rio Paraíba do Sul e, quando já estavam prestes a desistir, João Alves lançou novamente a rede e, em vez de peixes, apanhou o corpo de uma imagem. Ao jogar novamente a rede, apanhou a cabeça da imagem; se tratava da escultura de uma santa. A partir desse momento a pesca se tornou abundante. Desde então surgiu um grande movimento de fé.
Percorrer o Museu de Cera é fazer memória de momentos históricos ocorridos no decorrer do tempo e exibidos em 20 cenários, com mais de 70 estátuas realistas. A visitação inicia-se com o conde de Assumar em um cenário que remete ao século 18.  Em seguida, podem ser vistos o encontro da imagem da Santa no Rio Paraíba e os milagres atribuídos a ela. Além disso, o espaço também destaca personalidades religiosas, políticas e outras que têm relação com a devoção a Nossa Senhora Aparecida.

Os personagens – Retratado em uma das estátuas de cera, ao lado da imagem do papa Francisco, está o atual cardeal arcebispo de Aparecida, dom Raymundo Damasceno Assis, que assim se exprime: “Aqui estão muito bem reproduzidos a história e o crescimento da devoção a Nossa Senhora Aparecida. O romeiro encontra um espaço cultural e religioso que enriquece o passeio a Aparecida”.
Entre os personagens, está o boneco do astronauta Marcos Pontes, primeiro brasileiro a ir ao espaço. “É uma grande emoção ver a estátua em minha homenagem no museu. Sempre que possível visito o Santuário de Aparecida e, muitas vezes, para pedir ajuda mesmo à santa. Que essa homenagem a mim sirva de inspiração, sobretudo à juventude, ela também pode sonhar e realizar grandes feitos”, enfatiza Marcos Pontes.
Já o ex-jogador de futebol, Ronaldo Luís Nazário de Lima, ou Ronaldo Fenômeno, que também tem uma estátua em sua homenagem, ressalta sua devoção a Nossa Senhora Aparecida e lembra a grave lesão sofrida no joelho direito em 2000 e sobre sua visita ao santuário dois anos depois, em que fora o artilheiro da seleção brasileira na conquista do pentacampeonato mundial. O craque lembra que voltou à basílica para deixar na Sala das Promessas uma camisa da seleção brasileira e uma réplica do joelho, em cera, em agradecimento à intercessão de Nossa Senhora Aparecida. “Ser devoto de Nossa Senhora ajuda a manter minha fé e, na época em que trouxe os pertences para oferecer, foi em agradecimento pelas vitórias em minha vida pessoal e profissional. Quando visito o santuário é muito mais para agradecer, do que para pedir. Desejo que esta estátua, em minha homenagem, sirva de inspiração aos milhares de devotos que por aqui passam para que mantenham e cultivem sua fé”, exprime Ronaldo.
Para a romeira Dulce Novaes, de Volta Redonda (RJ), visitar o museu foi reviver uma experiência marcante em sua vida. “Contemplar a cena do papa São João Paulo II, quando visitou Aparecida em 1980, me emocionou muito. Na época fiz de tudo para estar aqui e ver o papa de perto. Para mim foi reviver aquela alegria, aquela emoção, me senti também representada na cena do museu.”
Antonio Alves, de Catalão (GO), devoto de Nossa Senhora, lamenta a falta de pessoas que, segundo ele, pelo bem que fizeram à Igreja no Brasil deveriam estar representadas no museu. “Eu gostaria muito de, assim como há o cenário da Rádio Aparecida, seria imprescindível a estátua do redentorista padre Vitor Coelho de Almeida, ele fez um bem enorme ao povo evangelizando por meio da Rádio Aparecida. Sugiro, também, uma estátua do padre Zezinho, scj, um grande comunicador de nossos tempos”, recomenda Antonio.

As cenas – Entre as diversas cenas, no museu, vale destacar a vila dos pescadores; a casa de Felipe Pedroso, onde começou a devoção à santa. No local, as famílias vizinhas passaram a se reunir para rezar aos pés de Nossa Senhora Aparecida. Vale ressaltar que, com o passar dos anos, o número de fiéis foi aumentando e, em 1732, Atanásio Pedroso, filho de Felipe, construiu um oratório para acolher a imagem, no bairro Itaguaçu, à beira da estrada, para facilitar o acesso dos peregrinos.
Está, também, retratado o cenário do milagre das velas. Foi durante um dos encontros de devotos, na primitiva capela construída no Itaguaçu, que, de repente, as velas ao redor da imagem se apagaram sem motivo aparente. Silvana Rocha, que organizava a oração do terço, se aproximou para acendê-las, mas parou quando viu que as chamas se reacenderam sozinhas.
É possível adentrar no cenário da primeira capela. Padre José Alves Vilella foi o primeiro religioso a documentar os relatos relacionados ao encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Então vigário da igreja de Santo Antônio de Guaratinguetá, foi também o responsável pela oficialização do culto e pela construção da primeira igreja no Morro dos Coqueiros, em 26 de julho de 1745.
Há a cena do milagre do escravo. Fugitivo, Zacarias estava sendo reconduzido por seu patrão de volta à fazenda, quando, ao passar pela capela de Nossa Senhora, pediu que fosse feita uma oração em frente à imagem. Foi neste momento que as correntes que o prendiam se soltaram, caindo ao chão.
O cenário mãe e filha. Após uma peregrinação que levou várias semanas, a devota Gertrudes Vaz e sua filha cega chegaram a Aparecida, vindas de Jaboticabal (SP). Ao se aproximarem do povoado, após uma curva, a mãe foi surpreendida com a menina dizendo que estava vendo a igreja.
Outro cenário é o do cavaleiro e a marca da ferradura. Em meados do século 19, um cavaleiro vindo de Cuiabá (MT), que passava por Aparecida, zombou dos romeiros que peregrinavam em direção ao povoado. Em desafio, ele tentou entrar com o cavalo na Igreja de Nossa Senhora, mas foi impedido quando a pata do animal ficou cravada na pedra.
No museu também estão as estátuas da princesa Isabel e seu esposo, conde D´Eu. Em 1868, a princesa e o marido visitaram o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Na ocasião, a filha do imperador presenteou a santa com um manto cravejado de brilhantes e pediu em oração a graça de ser mãe.
Em 1884, já com três filhos, a princesa retornou à Igreja de Nossa Senhora para agradecer a graça da maternidade e, dessa vez, presenteou a imagem com uma coroa de ouro e diamantes. A peça foi usada 20 anos depois, na coroação da santa, como Rainha e Padroeira do Brasil, pelos católicos.
No museu é possível se encontrar com as imagens dos papas em suas visitas ao santuário. Em 4 de julho de 1980, a do papa São João Paulo I. Na ocasião, ele consagrou a igreja recém-construída e concedeu-lhe o título de Basílica Menor. Em 13 de maio de 2007, a do então papa Bento XVI, por ocasião da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. E em 24 de julho de 2013, a do papa Francisco, que foi recebido por dom Raymundo Damasceno Assis, em evento paralelo à realização da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. Esses cenários e estátuas estão entre as mais de 70 no museu.

O museu – Cada estátua custou quatro meses de trabalho para um grupo formado por artistas de ateliês diferentes, localizados nos Estados Unidos, Inglaterra e França. O Museu de Cera Nossa Senhora Aparecida fica no pátio do santuário nacional, ao lado do Centro de Apoio aos Romeiros. O funcionamento é de segunda a sexta-feira, no horário das 9 às 17 horas; sábados das 8 às 19 horas; domingos e feriados das 8 às 18 horas. O museu não funciona na terça-feira.
* Reportagem realizada com a colaboração do jornalista Wilson Silvaston.





Fonte: Fc de outubro de 2016
Postado por: Família Cristã




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