Sim, eu creio!

Data de publicação: 29/10/2018


Por, Frei Luis Turra, cap. Ofm.

A primeira experiência no ato de crer não se faz com a inteligência. Num primeiro momento não cremos em conhecimentos. A fé parte do coração


Esta reflexão começa um novo caminho com a revista Família Cristã. Como pessoas de mente atenta e coração aberto, mas, ao mesmo tempo necessitadas de novas luzes no percurso da fé, vamos repensando, meditando e tentando aprimorar “o meu e o nosso Creio”. Parte por parte, vamos refletindo, meditando e rezando o símbolo apostólico romano. O texto tem origem nas catequeses batismais do século 2º. Santo Ambrósio oficializou o nome de Símbolo dos Apóstolos, por ser um reflexo da Igreja dos tempos apostólicos. Privilegia os aspectos históricos e concretos da vida de Jesus.

Uma fórmula decorada sempre está sujeita a tornar vítima de um formulismo frio e mecânico. Ao ser recitado com a mente, sem passar pelo coração e iluminar nossas ações, o Credo também pode cair na rotina e no vazio. Quando isso acontece, oculta-se a relevância do significado e rouba-se a densidade sacramental das palavras, frases e até mesmo de seu todo. A meditação do Credo tem uma clara intenção: ajudar para que o “CREIO” se torne uma proclamação de fé viva, comprometida e transformadora, tanto em nível pessoal, como comunitário.

Destacamos que a primeira experiência no ato de crer não se faz com a inteligência. Num primeiro momento não cremos em conhecimentos. A fé parte do movimento do coração. Crer vem do verbo latino credere. É uma expressão que tem dentro de si cor-dare, isto é, dar o coração. Ali está a experiência dos discípulos de Emaús que abrem seus olhos, porque seus corações ardiam no caminho, quando Ele explicava as escrituras. Então o reconhecem ao partir o pão (cf. Lc 24,32).

Decididamente creio – Qual é o motivo que justifica começar a oração do Creio em primeira pessoa do singular? Por que não começamos com o “cremos”, já que esta é uma oração oficial da Igreja? Não faltam perguntas similares aos que participam dos encontros de Iniciação Cristã, especialmente quando ensaiam o rito da renovação das promessas batismais. Por que responder “creio” e não “cremos” às perguntas que nos são feitas no momento? Na palavra “Amém”, pronunciada pelo crismando, após a unção, na palavra “Amém”, de todo cristão, ao receber o Corpo de Cristo na Eucaristia, está o “Eu Creio” em primeira pessoa.
 
A bem da verdade, é bom lembrar que a fé é um ato decisivamente pessoal. “Ninguém substitui a liberdade do outro, nem a singularidade do ato de crer” (Padre Libânio). São Paulo afirma: “De fato é acreditando de coração que se obtém a justiça, e é confessando com a boca que se chega à salvação, pois a Escritura diz: ‘Todo aquele que acredita nele não será confundido’” (Rm 10,10-11).

A palavra que eu digo convictamente pode não ser pronunciada com todo o seu significado ou na intensidade do compromisso. Porém, se a repito de coração, certamente vai reforçando a convicção pessoal e me impelindo a vivê-la de modo sempre mais autêntico e real, no dia a dia da existência.

Vivendo o “creio” hoje – Quando, em nossos dias, eu afirmo creio, que ressonância acontece dentro de mim? Quando proclamo que creio diante da comunidade, o que me provoca essa corajosa afirmação e o que significa para a comunidade? Quando me ponho em diálogo com Deus e a Ele declaro o meu creio, que reação eu sinto e qual poderia ser a resposta dele a mim? Com razão, o filósofo Kierkegaard afirmou: “A pessoa não se prepara para o cristianismo pela leitura de livros ou pelas perspectivas histórico-mundiais, mas pelo aprofundamento na existência”.

O que é circunstancial muda e tantas vezes passa ao esquecimento, mas o que é fundamental permanece. O “eu creio”, em nossos dias, pode sofrer os abalos das circunstâncias, mas estará sempre vivo no coração dos humanos. Em meio às mais sombrias tentações, há sempre uma nostalgia de um ideal de perfeição humana.
Nos tempos pós-conciliares, o sacerdote Karl Rahner registrou uma frase lapidar, que ressoa também em nossos tempos. Dizia: “O cristão de amanhã ou será um místico, alguém que já experimentou algo, ou já não será nada, porque a experiência religiosa de amanhã não estará mais sustentada por uma convicção pública unânime e evidente, nem por costume religioso geral”. Não vivemos mais em regime de cristandade!

Parábola da árvore solitária – A natureza nos ensina! Uma antiga e admirada castanheira vivia numa imensa floresta em alta montanha. Naquele lugar não faltavam ventos fortes e frequentes. Por ser densa, a floresta garantia a defesa de cada árvore que se sentia amparada e segura uma ao lado da outra. Mas um ousado agricultor, sabendo que a terra da floresta era muito fértil, resolveu impiedosamente derrubar as árvores. Porém, decidiu poupar a castanheira por estimação.

A castanheira viu-se sozinha e desamparada na solidão da montanha. A princípio, a crise natural a deixou ameaçada de morte e totalmente deslocada de seu ambiente, mesmo ficando no mesmo lugar. Não restava outra reação a não ser se entregar à destruição. Porém, na medida em que o tempo passava e o vento ameaçava, a castanheira foi aprofundando e firmando as raízes de tal sorte que a reação lhe deu garantia da presença sempre mais elegante e admirada naquela montanha. Hoje o meu creio não pode depender do creio dos outros. Eu preciso crer por mim; firmar as raízes da fé. Crendo posso contagiar a comunidade, e a comunidade, por sua vez, pode me estimular a crer.







Fonte: Fc edição 991, Julho de 2018
Postado por: Família Cristã




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