Sri Lanka, uma gota

Data de publicação: 29/10/2018

 
Por, Pablo Villarrubia Mauso
Sri Lanka, uma gota

O papa Francisco visita o Sri Lanka, um país insular asiático ao largo da extremidade sul do subcontinente indiano, com costa para a Baía de Bengala a leste, Oceano Índico a sul e a oeste, e o Estreito de Palk a noroeste, que o separa da Índia


Um dos países mais inusitados do planeta se situa ao sul da Índia, tem forma de lágrima e está rodeado pelas águas do Oceano Índico. Conta com uma superfície um pouco maior que o nosso estado da Paraíba e, no passado, se chamava Ceilão. Desde sua independência do Império Britânico, em 1948, se denomina República do Sri Lanka. Nessa ilha coberta de vegetação tropical, convivem quatro principais religiões. A majoritária é o budismo, 68% da população. O hinduísmo, 15%. O islamismo, 7%. O cristianismo, 8%, entre católicos e protestantes.
Entre os dias 12 e 15 de janeiro, o Papa Francisco deverá visitar essa ilha para canonizar o jesuíta José Vaz, O Apóstolo do Ceilão.  A visita não está isenta de polêmica, pois alguns grupos radicais de budistas-nacionalistas pretendem protestar.  Eles consideram o processo de catequização dos ilhéus na época colonial portuguesa uma intervenção agressiva. Não obstante, o governo do país solicitou que um músico budista compusesse uma sinfonia em homenagem à visita do papa como forma de conciliação entre as duas religiões.
A partir de meados do século 19 um forte sentimento nacionalista se gestou no seio da sociedade cingalesa, que desejava a expulsão dos colonizadores britânicos que se estabeleceram na ilha a partir de 1802. Mais recentemente, na década passada, vários religiosos católicos morreram durante a guerra civil travada entre o governo cingalês e grupos separatistas da etnia tâmil.
O que poucos sabem é que o cristianismo já estava presente no Ceilão muito antes da chegada dos portugueses, em 1505. Alguns estudiosos acreditam que vários grupos de cristãos de São Tomé já estavam estabelecidos no Ceilão desde o século 5º d.C. Uma das provas é uma cruz que leva o nome do apóstolo encontrada entre as ruínas arqueológicas da cidade de Anuradhapura.
São muitas as tradições que falam do apóstolo, considerado evangelizador da Índia e uma parte da Ásia, inclusive no Ceilão. Um monge egípcio chamado Cosmos Indicopleustes visitou a ilha no ano 550 d.C. e escreveu que existiam “cristãos persas e um presbítero nomeado desde a Pérsia, um diácono e um ritual eclesiástico completo”.
A Revista Família Cristã viajou pelo Sri Lanka e constatou que existem muitos católicos no país, especialmente na região ocidental e no norte, onde os missionários franciscanos, jesuítas e carmelitas tiveram mais penetração nos séculos 16 e 17. Caminhando pelas ruas de Colombo, capital da república, pudemos verificar que existem muitas estátuas dedicadas a Santo Antônio, padroeiro da cidade. Também é comum ver capelas espalhadas pelas ruas com imagens de Jesus e da Virgem Maria com um toque colorido.

Em Nuwara Eliya – Outrora importante enclave britânico no coração da ilha, em Nuwara Eliya, na região montanhosa da Província Central, Sri Lanka, visitamos a Igreja Católica de São Francisco Xavier (1884), um dos santos mais representativos que pregou no Ceilão.  Pudemos comprovar a devoção que a população local dedica a este santo durante uma das missas.
Em muitos cartazes ou letreiros de estabelecimentos comerciai podem-se ver sobrenomes portugueses, tais como Silva, Pereira, Fonseca, Souza. Na verdade, a maioria não é descendente de antigos colonos portugueses, os mestiços eram chamados topases, mas de nativos que foram batizados pelos missionários com tais sobrenomes. A presença lusitana também se percebe no Sri Lanka no linguajar do dia a dia, em mais de 200 palavras, tais como “camisa”, “saia”, “escola”, “lenço” e “viola”, entre outras.
Até o começo do século 19 a língua portuguesa era ensinada nas escolas do Ceilão. Porém, falava-se mais o crioulo, uma derivação do português mesclado com palavras africanas e asiáticas, diz a professora Shihan de Silva Jayasuriya, da Universidade de Londres, entrevistada para a Família Cristã.

Um país multivariado − Shihan lembra que hoje somente alguns pequenos grupos perdidos no interior da ilha falam o crioulo português e, inclusive, cantam canções de origem lusitana. Um dos grupos é descendente de escravos de Moçambique que acabaram vivendo praticamente isolados em pequenas aldeias até pouco tempo atrás, tal como nossos quilombos.
Para entender a presença do catolicismo no atual Sri Lanka é necessário retroceder até 1505, quando o navegante Lourenço de Almeida chegou às costas da ilha. Os lusitanos logo perceberam que ali se cultivavam muitas especiarias, especialmente cobiçadas pelos europeus naquela época. O cravo, a canela e a pimenta eram de muito boa qualidade, e as naus portuguesas estavam dispostas a encher os seus depósitos com tais produtos cotados a alto preço nas cortes.
Essa tradição agrícola percorreu os séculos, e hoje o Sri Lanka é um dos maiores produtores do mundo de canela, além de uma grande variedade de chás que são exportados, na sua maioria, para a Grã-Bretanha. Porém, os portugueses também encontraram muito marfim, corantes, pérolas, safiras e rubis com os quais comerciaram.
A professora Shihan lembra que a viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1498, abriu uma nova rota marítima para os portugueses e europeus, contornando a África e evitando o controle marítimo dos turcos. A partir de então as caravelas singraram o Atlântico e o Índico, chegando até a ilha de Taprobana, tal como a conheciam os gregos. Naquela época, os grandes reinos budistas do centro da ilha já haviam desaparecido. Mas havia outros, mais ao sul, como o reino de Cote ou Kotte.
Já nos primeiros contatos, os portugueses estabeleceram relações amistosas com o rei de Kotte, Vira Parakramabahu VIII. Mais tarde, em 1521, os três filhos deste rei dividiram entre si o reino. O novo rei, Buvanekabahu VII, solicitou ajuda militar aos portugueses para combater seu irmão, que buscou aliados entre os hindus de Calicute, na Índia. Buvanekabahu VII enviou, em 1542, uma delegação a Lisboa para realizar acordos com o rei dom João III. Nessa viagem também foi o neto do rei de Kotte, que foi coroado pelo próprio monarca português como forma de demonstrar confiança e aliança entre as duas coroas afastadas por milhares de quilômetros de distância.
A partir de 1518 os portugueses construíram várias fortalezas para, a princípio, defender os reis amigos. Logo, Buvanekabahu chegou a pedir auxílio naval a Goa (um importante enclave português na Índia), para combater o poder comercial dos muçulmanos. Entre 1521 e 1538 eram constantes as disputas navais pelo controle comercial do Oceano Índico entre muçulmanos e portugueses. Em 1538 foi travada uma importante batalha naval no norte do Ceilão, em Vedalai, quando a frota comandada por Martim Afonso de Sousa (que já tinha estado no Brasil) desbaratou a muçulmana. Assim, as tropas lusitanas entraram no reino de Kotte.
Vários reis cingaleses aceitaram e, inclusive, pediram que fossem convertidos ou batizados pelos missionários católicos com a esperança de realizar pactos comerciais com os europeus e obter ajuda militar, especialmente armas de fogo. Esses soberanos, em consequência, obrigaram seus súditos a abandonar o budismo para se converter ao catolicismo. Porém, não todos os nativos aceitaram essas conversões e se rebelaram contra os seus governantes e os portugueses.
Os franciscanos e jesuítas continuaram com seu processo de evangelização, conseguindo atrair muitos cingaleses. Esses religiosos primaram pela construção de igrejas, escolas e hospitais e passaram a ser vistos com bons olhos pela população.

Os mártires de Mannar − Em 1560, os portugueses ocuparam a região de Jaffna, no norte da ilha. Antes, em 1544, o rei Sankili I matou cerca de 600 católicos, a maioria pescadores de Mannar, os chamados mártires de Mannar. Tudo começou quando São Francisco Xavier visitou o Ceilão (vindo de Goa), em 1543, e conseguiu batizar muitos pescadores e suas famílias.
Em 1658, depois de mais de 150 anos de presença lusitana no Ceilão, uma aliança de reis cingaleses com o almirante holandês Rykloff van Goens desaloja os portugueses de Jaffna e, pouco a pouco, do resto da ilha. Os novos colonos decidem estabelecer o protestantismo e perseguir todos os católicos, castigando-os severamente. Além disso, a maioria das igrejas católicas foram destruídas ou convertidas em templos  protestantes.
Em 1687, um sacerdote de Goa, vindo de uma família de brâmanes, chamado José Vaz, chegou a Mannar disfarçado de estivador. Ali e em Jaffna contatou com grupos de católicos que praticavam seus cultos na clandestinidade, e o religioso começou a ordenar missas nas suas casas. Descoberto pelos holandeses e pelo Rey Vimaladharmasuriya II, José Vaz foi encarcerado, mais tarde foi posto em liberdade.
Em outras ocasiões aconteceu algo considerado um milagre: soldados holandeses calvinistas entraram em uma residência onde Vaz estava ordenando missa e este não foi visto. Era como se estivesse invisível. O incansável trabalho apostólico do goense o levou a traduzir o Evangelho para as línguas tâmil e cingalesa.
Graças à sua diplomacia, José Vaz conseguiu algo praticamente impossível sob a administração holandesa: autorização para construir uma igreja católica em Kandy. O esforçado religioso ajudou a cuidar de doentes de um surto de varíola e não foi afetado, algo também considerado milagroso. José Vaz, chamado O Apóstolo do Sri Lanka, faleceu em 1711 e, em 1995, o papa João Paulo II o beatificou durante uma visita ao país. Agora é a vez da sua canonização, em janeiro de 2015, com a visita do papa Francisco.






Fonte: Fc Janeiro de 2015
Postado por: Família Cristã




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