Seu Chiquinho Barbeiro

Data de publicação: 22/11/2018

Por, Roseane Welter
Seu Chiquinho Barbeiro

Aos 12 nos começou na barbearia do tio, seu primeiro corte de cabelo foi em seu pai e, aos 18 anos conquistou o seu próprio espaço

Francisco Villano é conhecido por todos, amigos e clientes como Seu Chiquinho Barbeiro. Nasceu no dia 8 de janeiro de 1917, no bairro Vila Mariana, na capital paulista, de onde nunca saiu. Nos seus 101 anos é considerado o comerciante mais idoso do bairro. Aposentou seu famoso avental branco em 2016, aos 99, anos e exerceu sua profissão por 89 anos.

Profissão – Cursou até a 4ª série, quando os estudos foram interrompidos para trabalhar e ajudar a família.  “Comecei a trabalhar cedo, por ordem de meu pai, por isso interrompi meus estudos; era comum, na minha época de menino, as crianças começarem a trabalhar cedo, para ajudar a família”, escreveu Francisco, em um de seus vários artigos publicados na coluna Memórias da Vila, do jornal Pedaço da Vila, onde contava sobre a vida e a história de vida e do bairro onde reside.  Aos 12 anos de idade começou a trabalhar como ajudante na barbearia do tio Adolfo Trotta. Foi adquirindo experiência e prática com a tesoura e com a navalha. O primeiro corte de cabelo que fez foi em seu próprio pai, Afonso Villano. Aos 18 anos, conquistou seu próprio espaço, um salão na Rua França Pinto, 165, que foi inaugurado numa sexta-feira, 13 de dezembro de 1935.  “Esta data sempre me deu sorte”, afirma. Seu salão logo se tornou referência e ponto de encontro da vizinhança.

Paixão – Uma de suas paixões era o trabalho, e foi na barbearia que encontrou o grande amor de sua vida, Maria de Oliveira Villano. Casaram-se e tiveram três filhos: Afonso Villano Netto, Aida Piccina e Ilda Villano do Carmo. Sustentou a família, educou os filhos, tudo com o seu próprio suor, ou melhor, com a habilidade de suas mãos em cada corte de cabelo ou barba. Exerceu a profissão de barbeiro por 89 anos consecutivos, tendo deixado, oficialmente, de atender a seus clientes em 2016, aos 99 anos de idade. Atendia a seus clientes sempre bem vestido de sapato e traje social, acompanhado de um avental branco. O bom humor era seu companheiro fiel. Abria impreterivelmente a barbearia às 7 horas da manhã, sem atraso, mas não tinha hora para fechar. Os únicos dias em que Chiquinho não trabalhava era no Réveillon, terça feira de carnaval, Sexta-Feira Santa e Natal. Sua vida era dedicada ao trabalho e à família. Cortou o cabelo de seis gerações das famílias do bairro paulistano. Dentre seus clientes figuram personalidades como o ex-presidente Jânio Quadros, o ex-prefeito de São Paulo Preste Maia, os maestros Souza Lima e Diogo Pacheco; da literatura Paulo Bonfim e Guilherme de Almeida, do futebol Waldemar Fiume e Armando Renganeschi jogadores do Palmeiras, dentre tantos outros.

Hobbie – Chiquinho, no trabalho ou nas horas vagas, sempre foi um apaixonado pela música erudita. Era de rotina, ao chegar à barbearia a primeira coisa que fazia era ligar o rádio na Cultura FM, para apreciar uma boa música. A música popular brasileira era uma de suas preferidas, na voz de Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Francisco Alves. Seu programa predileto era assistir às apresentações de orquestras no Teatro Municipal. Amigo dos maestros e compositores, e inclusive muitos deles eram seus clientes. Um bom livro era também seu hobbie.

Time do coração – Televisão não via, não tinha tempo a não ser quando o seu time do coração entrava em campo, daí ligava o aparelho, mas gostava mesmo era de assistir ao seu time de perto. Até fechava o salão para ir ao estádio torcer pelo Palmeiras. Chiquinho é um palmeirense roxo. Sua vida foi dedicada ao trabalho, à família, aos amigos e clientes da barbearia.
Numa vida corrida com horário para começar e sem horário para encerrar o expediente, chega aos 101 anos bem vividos. Hoje já no leito de sua cama, fragilizado pelo andar da idade e amparado pelos filhos, netos e bisnetos, segue sua jornada da existência. Quando questionado sobre o segredo da longevidade, a resposta foi categórica: duas taças de vinho por dia, uma no almoço e a outra no jantar. A dica é nada de exageros. Tudo na vida tem sua medida e compasso.

Longe das tesouras – Já estando sem exercer a função de barbeiro Chiquinho deixa um grande legado para a família e para todos os que o conhecem, é e sempre foi uma memória viva e ocular do progresso do bairro Vila Mariana, na grande São Paulo, onde sempre acompanhou de perto as transformações. Os filhos, os netos e até os bisnetos afirmam serem reconhecidos na rua ou onde quer que estejam como: “você é filho(a) do Seu Chiquinho”. Em todo lugar que vamos, alguém nos diz que já cortou o cabelo com o Seu Chiquinho Barbeiro.




Fonte: FC edição 986 Fevereiro 2018
Postado por: Família Cristã




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