Bichos são família?

Data de publicação: 04/01/2019

Por, Nathan Xavier

A humanização excessiva dos animais de estimação pode causar problemas a eles e ainda revelar certos problemas nos donos

Não faz muito tempo, os animais de estimação ficavam do lado de fora da casa. Praticamente nunca entravam, e a brincadeira com eles restringia-se ao quintal. Cães eram animais para guardar a casa e os donos, comiam restos de comida e tomavam banho de mangueira mesmo. Os gatos eram criados totalmente soltos e serviam para caçar ratos. Passarinho ficava unicamente na gaiola e precisava cantar, caso contrário, para nada servia.
Mas os tempos mudaram. Bicho agora é gente da família. Quase gente mesmo. Eles contam com lojas, roupas, cosméticos, ração, doce, salões de tosa só para eles. Voltam do banho perfumados e com lacinhos na cabeça ou gravatinhas no pescoço. Com certeza você conhece alguém ou é um(a) dono(a) de animal de estimação que o chama de “filho” ou “filha”. Pesquisa da Consumoteca, feita em parceria com a revista Exame PME, confirmou o que todos já sabiam: os donos de cães, gatos, peixes e animais exóticos tratam seus bichos (quase) como filhos.


Comércio lucrativo – Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), a população desses animais no Brasil já chega a 106,2 milhões. Produtos e serviços movimentaram 19,2 bilhões de reais em 2017, colocando o Brasil na posição de segundo maior mercado do mundo. Os diversos itens para animais de estimação e o cuidado que recebem com rações balanceadas e vacinas, levaram a expectativa de vida dos bichinhos aumentar 20%. Enquanto a economia do Brasil patina, o setor de pets não viu crise alguma e cresceu quase 7% em 2017 em relação a 2016, alavancando principalmente pela área de saúde animal.
A assessora econômica da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), Fernanda Della Rosa, confirma: “Por causa do envolvimento emocional, os gastos com animais têm tido prioridade no conjunto de gastos das famílias, por isso, não sofre tanto o impacto da crise econômica”.
É comum encontrar locais que oferecem tratamentos Vip para os bichinhos, como banhos terapêuticos com sais e essências, creches, hotéis cinco estrelas e outros serviços caros. Os donos pagam assim mesmo, muitos para compensar o tanto de tempo que os animais ficam em casa sozinhos. Não é para menos. Acostumados à convivência humana, os animais de estimação podem ficar estressados e ter comportamentos agressivos, caso fiquem muito tempo sozinhos. Para piorar, a excessiva humanização desses animais pode trazer a eles consequências graves e também revelar problemas dos donos.
A depressão, uma das consequências dos exageros na humanização dos animais de estimação, já é tão presente na vida canina que muitos cães chegam a ser medicados com antidepressivos. O antropólogo Jean Segata realizou uma pesquisa de doutorado que culminou na tese Sobre nós e os outros humanos, os animais de estimação, defendida por ele na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 2012. Segata acompanhou vários veterinários e um dos casos lhe chamou a atenção. Uma cadela diagnosticada com depressão teve seu sangue coletado para análise no laboratório, o mesmo laboratório, aliás, que analisa sangue humano. A cadela foi medicada, e o veterinário recomendou à dona que deixasse de trabalhar excessivamente e mudasse seus hábitos de modo a poder sair para passear e ficar mais presente na vida de sua cachorra.
“O engraçado, “é que na época eu estava me preparando para fazer um doutorado fora do Brasil e também andava estressado. Igualmente, para o alívio dos meus problemas, o meu médico fez recomendações de mudança na rotina, de modo que a humanidade daquela cadela parecia tão evidente quanto a minha. Mas isso não bastava: para o seu tratamento ela precisaria de Fluoxetina, tanto quanto eu precisava de Sibutramina”, conta Segata.

Benefícios – Valdira Rodrigues Tsuruda é psicóloga clínica com consultório em São Paulo (SP). À espera de seu primeiro filho e dona de uma gata, ela ressalta que ter um animal de estimação pode ser muito benéfico: “Eles exercem, sim, uma função terapêutica importante na vida de seus tutores. Poder oferecer cuidados, dar e receber carinho e, além de tudo, amar de forma incondicional faz as pessoas se sentirem úteis, acolhidas e especiais. Na clínica, em casos de paciente com transtorno do espectro autista, os cães podem auxiliar positivamente através da empatia e socialização, ou até mesmo sendo inseridos no tratamento contra a depressão, justamente porque o contato com os bichos produz efeitos fisiológicos no corpo, como maior liberação de endorfina e serotonina, neurotransmissores que dão sensação de prazer e bem-estar”, ensina.
No entanto, Valdira Tsuruda alerta para a excessiva humanização dos animais. “É preciso analisar cada caso e entender o sentido que o animalzinho exerce na vida de seu dono. Existem casais que não conseguem ter filhos por meios naturais ou através dos meios da ciência, mas também não se veem preparados para adoção de filhos e preferem adquirir um ou mais animais para compor a casa e a família, o que é considerado aceitável e natural. Porém humanizar o bichinho a ponto de substituir os filhos, não é algo que se espera.”

Exageros – Para saber se não está passando do ponto, é sempre bom uma autocrítica, ou escutar os amigos e família que costumam ser os primeiros a notar os exageros. Deixar de sair para festas e encontros sociais para ficar com o bicho ou dar mais atenção a eles do que ao companheiro ou companheira são pontos a se levar em conta. “É muito comum casos de casais que entram em conflito em suas relações conjugais, pois os papéis de marido e mulher se tornam frágeis e mal estabelecidos quando a atenção é totalmente direcionada aos animais.” Nesse momento, uma boa conversa é indispensável, ou mesmo a ajuda de um especialista para colocar tudo no seu devido lugar. A psicóloga explica que também existem casos extremos, como a elurofilia, quando uma pessoa tem afinidade patológica por gatos. Em casos assim, a pessoa deixa de ter cuidados básicos pessoais para se devotar ao animal e perde totalmente a noção de limpeza e higiene. “É uma doença muito presente em indivíduos com perfil de acumuladores. Uma das formas de tratamento através da psicoterapia é entender o contexto de vida do paciente e através disso reescrever sua história, considerando os motivos que o levaram à sua atual forma de vida”, afirma Valdira Tsuruda.
Animais de estimação não são gente, mas devem ser tratados com cuidado e atenção, sem exageros. Num mundo onde ficamos cada vez mais afastados da natureza, um convívio equilibrado com os bichinhos só trará benefícios para seus donos. “Ter um animal de estimação exige de nós a capacidade de amar sem dominar, de oferecer cuidados, doar nosso tempo e em troca termos o privilégio de sermos amados de forma sincera e verdadeira”, ensina a psicóloga Valdira. E conclui com um alerta: “Não conheço casos de pets que ‘animalizaram’ seus donos. Os seres humanos são complexos e muitas vezes, por falta de autoconhecimento, depositam nos animais a origem de alguns dos conflitos pessoais que precisam ser tratados”.





Fonte: Fc edição 990, Junho de 2018
Postado por: Família Cristã




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