Das ondas ao altar

Data de publicação: 10/07/2019

O jovem médico que amava surfar e que colocava a medicina a serviço dos pobres está em processo de beatificação

Neste ano a Igreja Católica do Rio de Janeiro (RJ), familiares e amigos lembram os dez anos do falecimento do servo de Deus, Guido Vidal França Schäffer, que foi surfista, médico e seminarista. A morte aconteceu no dia 1o de maio de 2009, na Praia do Recreio (RJ), durante a prática do surf. Tinha na época 34 anos de idade.
Nascido em 22 de maio de 1974, na cidade de Volta Redonda (RJ), dentro de uma família muito católica, era filho de Guido Manoel Vidal Schäffer e Maria Nazareth França Schäffer. Cresceu com seus irmãos, Ângela e Maurício. “Guido era meu irmão do meio. Ele sempre foi um ótimo irmão. Eu gostava muito de conversar e me aconselhar com ele. Sempre o vi animado com o surfe, com a medicina e, depois, com a preparação para o sacerdócio”, contou a funcionária pública Ângela Schäffer Isnard, 48 anos. Formou-se em medicina no ano de 1998, aos 24 anos, e dedicava-se ao atendimento dos pobres, da população de rua, com as Missionárias da Caridade. Também atendia na Santa Casa de Misericórdia. No seminário ingressou somente em 2008, menos de 2 anos antes de sua morte. “Conheci o Guido em 1998 e convivemos durante onze anos. Nesse tempo, fiz parte do grupo de oração Fogo do Espírito Santo, que ele fundou. Também surfávamos juntos
com frequência e viajamos para diversos lugares. Era muito querido, pois escutava a todos com muita atenção e amor”, conta o engenheiro Eduardo da Silva Martins, 43 anos.
 
Apaixonado por Deus – “Ele atraía a juventude, que via nele alguém que vivia a vida intensamente. Se pregava, era de todo coração; se surfava, era para encarar as maiores ondas; se atendia como médico, era para curar corpo e alma; se ficava em adoração, tinha que ser durante toda a noite até o nascer do sol”, completou o amigo. A publicitária Ana Luiza Rabelo, de 36 anos, também tem essa memória do Guido. Ela o conheceu em 2007 e conviveu com ele por cerca de 2 anos, mas esses poucos anos foram suficientes para transformar a sua vida. “Eu participei do grupo Chama Viva de Amor do Imaculado Coração de Maria, que ele fundou para interceder especialmente pelas vocações. O que mais chamava a atenção na vida do Guido era o amor que ele tinha por Deus. A gente tinha vontade de se aproximar dele e viver o que ele vivia. Ele marcava pizza, churrasco, praia e ali falava e testemunhava a Deus e nos entusiasmava”, afirma. Essa juventude, vivida com dedicação ao próximo, era inspirada em um grande santo: São Francisco de Assis. Dom Roberto Lopes, vigário episcopal para a vida consagrada e delegado arquiepiscopal para as causas dos santos, conta que foi após a leitura do livro O Irmão de Assis que o jovem decidiu largar tudo para seguir o forte chamado ao sacerdócio.
No caminho da santidade – “As virtudes heroicas do Guido foram vividas como jovem, surfista e médico, e, no final de sua vida, como seminarista. Era um jovem surfista missionário, um médico missionário, um seminarista missionário. O caminho vocacional de Guido foi um caminho de descoberta a cada tempo. Sua espiritualidade tem como marca o grande amor e veneração a Nossa Senhora, uma profunda vida de oração e de intimidade com a Palavra de Deus”, contou o religioso.
Segundo Dom Roberto, o processo de beatificação e canonização do Guido está em finalização da etapa de reconhecimento de suas virtudes heroicas, na Congregação para a Causa dos Santos. Ao final dessa etapa, ele poderá ser chamado de venerável. Esse é o passo mais demorado, porque o postulador deve investigar minuciosamente a vida do servo de Deus. Após ser considerado venerável, segue-se o segundo processo, que é marcado pelo reconhecimento de um milagre, que possibilitará a sua beatificação, pois, para se tornar bem-aventurado, é necessário comprovar um milagre ocorrido por sua intercessão; e para canonização, mais um milagre.
O processo de reconhecimento da santidade de Guido Schäffer teve início em 17 de janeiro de 2015, quando a Arquidiocese do Rio de Janeiro abriu solenemente o processo de beatificação. A etapa diocesana foi encerrada em 8 de outubro de 2017, sendo encaminhada a documentação ao Vaticano. Ao final da etapa diocesana, o candidato recebe o título de servo de Deus.
Testemunho para os jovens – “O Guido sempre amou estar em movimento, e de preferência na natureza. Sua predileção era pelo mar. E sua paixão, as ondas grandes. Era muito corajoso para enfrentar aqueles dias de surfe, onde só os mais experientes estavam na água”, contou Eduardo.
“Eu o considero um exemplo para os jovens. Ele conseguia desmistificar assuntos que a juventude muitas vezes não aceita, como a vivência da castidade. Explicava com tanto amor os assuntos, que os jovens não conseguiam resistir e queriam viver aquilo. Ele é um exemplo especialmente pela coerência de vida, porque vivia o que pregava”, reforçou Ana Luiza.
E como era sua personalidade? Dos relatos de amigos e familiares, pode-se destacar a coragem, a contemplação da natureza, o saber ouvir, a paz interior, a paciência, a misericórdia e o amor aos pobres. “O Guido sempre se mostrou muito centrado, ele sabia o que precisava fazer a cada momento. Não se via nele pressa, ansiedade no contato com as pessoas. Transmitia amor e ao mesmo tempo firmeza. Estava sempre pronto para consolar, mas também para corrigir, se assim fosse preciso. Fazia tudo de forma fraterna, sabendo separar bem o indivíduo da ação”, completa Eduardo. Para a sua irmã, Ângela, o que mais chamava a atenção era o seu compromisso com a oração e com a missa diária. “Era bom ouvi-lo contar sobre como Deus estava agindo na vida das pessoas que ele atendia na casa das Missionárias da Caridade ou na Pastoral da Saúde da Santa Casa. Outro detalhe que me impressiona até hoje é a disposição que ele tinha de perdoar e não falar mal de ninguém”, pontuou.
Descoberta da vocação – A vocação ao sacerdócio foi descoberta aos poucos, à medida que crescia a sua intimidade com Deus e o serviço aos pobres. Ângela conta como tudo foi acontecendo: “Guido já era médico formado quando se decidiu pelo sacerdócio. Ele dizia que, a exemplo de São Francisco de Assis, queria ser livre para pregar a Palavra de Deus. Foi exatamente pregando a Palavra de Deus no Grupo Fogo do Espírito Santo e trabalhando como médico voluntário com as Missionárias da Caridade que esta ideia foi se formando em seu coração. Ele contou sobre a vocação para nossos pais, numa viagem que fizeram a Fátima”.
O caminho que Guido deixou para a juventude tem atraído jovens de diversas partes do Brasil, e até de fora do país. É o caso de Tatiana Andrade de Souza, de 29 anos, mineira e missionária da Comunidade Católica Shalom. “A vida do Guido me inspira a viver a radicalidade evangélica pela via da missionariedade e do amor. Ele, um jovem cheio de ousadia, nos faz desejar e viver esta graça onde quer que estejamos, no trabalho, em casa, com os amigos ou na própria igreja. Como todo jovem, o Guido tinha esse desejo de mudança, de dar vida às coisas. Com sua vida, seu olhar e seu sorriso falava de Deus para as pessoas. Assim também hoje procuro viver, dando Deus aos outros, de forma simples”, testemunhou.
Para ela, Guido é um exemplo para os de jovens hoje de que é possível viver o chamado à santidade no cotidiano da vida. “Vejo nele este exemplo de santidade para os jovens de hoje, pois ele era um jovem com muitos sonhos, gostava de esportes, de estar com os amigos, e tornava tudo mais simples com sua alegria”, completou.




Fonte: Revista Família Cristã, edição 1003, julho de 2019
Postado por: Família Cristã




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