Dois inteiros e um casamento

Data de publicação: 26/10/2012

Cleusa Tewes

No casamento, homem e mulher não são caras-metades e sim dois inteiros, diferentes, que buscam realização, felicidade e amor, o masculino e o feminino precisam ser respeitados.


A convivência conjugal saudável possibilita o viver juntos com autonomia, liberdade e cumplicidade, pois vivemos na era digital, mas nos deparamos com pensamentos jurássicos, arcaicos, sustentando rigidamente colunas de casamentos engessados, onde vivem casais sem amor, nem cor que ficam na dor sem crescerem. As pessoas, ao casarem, conceituam a união com caras-metades, como laranjas ou maçãs.

Corriqueiras falas vulgarizam o casamento: “Cada panela tem sua tampa; cada caneca, sua alça”. Caducos conceitos fragmentam pessoas, lançando-as na cega procura da metade extraviada. Outras aguardam ser resgatadas da casa de seus implicantes pais, pelo príncipe do cavalo branco a quem submeterão a vida em pagamento do resgate. E os príncipes investidos de força, obstinados à procura da frágil Rapunzel presa na torre? Algumas histórias infantis reproduzem metáforas da mulher como vítima do veneno da maçã. Vemos, nas telas, a princesa Fiona abdicando da própria identidade, despersonalizando-se para transformar-se em ogro (monstro) e viver com Shrek.

Casar é perder a inteireza? − Crenças e ideais tornam-se âncoras, transformando o casamento na busca do horizonte perdido, espaço limitado do encontro de duas metades da fruta, da panela com a tampa, da caneca com a alça, da Bela com a Fera. Laranjas e maçãs são frutas. Casamento não é fruteira. Panelas e canecas pedem cuidados: água, sabão, esponja de aço para espelhá-las. Casamento é polido com amor e respeito. Príncipes e princesas fujam, o castelo é de areia. No casamento real, a princesa vira bruxa (bondosa); e o príncipe, sapo (querido).
 
Controle remoto no casamento − Tereza, 30 anos, casada há 12 anos, três filhos.  Mostra-se triste, chorosa, cansada, sem vontade de viver, pouco apetite e insônia. Traz a cabeça curvada, os olhos opacos, fixos no chão. Quando noiva, ouviu dos pais e da sogra o ditado: “A mulher enquanto não casa está sob o mando dos pais; quando casa, sob o mando do marido”. E assim vive desde que casou. Tereza entregou o controle de sua vida ao marido e submete-se a fazer o que ele autoriza. Ele grita, ela cala. Ele ameaça, ela paralisa. Como esposa, está se esforçando para restabelecer sua autonomia e liberdade. Tem dialogado com o esposo para conduzi-lo a enxergar suas necessidades de passear e ser feliz, de ser respeitada e tratada com amor. Ele está começando a perceber que ela é uma pessoa diferente dele e com necessidades individuais. Observe: todo controlado requer um controlador. Saia dessa! O diálogo e o respeito são estratégias anticontrole. Casamentos maduros dispensam o controle remoto.
 
Apropriação do outro − Paulo, 35 anos, casado há quatro anos. Paulo escreve, dá aulas, envolve-se com pesquisa científica. Voa alto, profissionalmente. Em casa, porém, perde as asas, vira prisioneiro, tipo passarinho de apartamento. Não comenta com a esposa os sucessos profissionais, pois ela se mostra ciumenta, insegura. Esse sentimento transforma o trabalho dele em seu rival. A cada congresso de que Paulo participa, ela faz chantagens, ameaças e proibições. Invade o espaço profissional dele, apropria-se do esposo.
Para manter sua liberdade no casamento e a diminuição do ciúme, Paulo tenta ajudá-la a se apropriar de suas habilidades pessoais e assim torná-la mais segura de si.  A esposa, hoje, encontra-se na faculdade, está focando seus projetos profissionais e pessoais. Paulo lhe dá afeto, procura levá-la aos congressos, oportunizando-lhe conhecer lugares novos. Esta estratégia tem amenizado brigas e conflitos.

Cara-metade, não, pessoa inteira − Bem, precisamos entender que casamento é aliança entre duas pessoas inteiras. A conjugalidade não dá direito de apoderamento e anulação. Cada um permanece com dons peculiares, diferentes. O espaço casamento deve acolher projetos individuais, conjugais, novas perspectivas e as mudanças. O crescimento individual fortalece a autoestima conjugal.

O masculino e o feminino precisam ser respeitados. No casamento, dois inteiros diferentes buscam realização, felicidade e amor. Homem e mulher não são metades. São seres inteiros e distintos. Até estudiosos da Neurociência estão identificando esta realidade, que, se conhecida e entendida, facilita a vida no casamento.

Eis que o escreve a neuropsiquiatra Louann Brizendine: “Há uma surpreendente variedade de diferenças cerebrais estruturais, químicas, genéticas, hormonais e funcionais entre mulheres e homens. Cada estado hormonal – na infância, na adolescência, no namoro, na maternidade e na menopausa – age como um fertilizante para diferentes conexões hormonais responsáveis por novos pensamentos, emoções e interesses. Em virtude das flutuações que começam a partir dos três meses de idade e duram até depois da menopausa, a realidade neurológica de uma mulher não é tão constante quanto a de um homem. A realidade do homem é como uma montanha que é desgastada imperceptivelmente ao longo de milhares de anos por geleiras, ventos e profundos movimentos tectônicos da Terra. A realidade da mulher é mais como o próprio clima – mudando constantemente e de difícil previsão”.

Podemos, pois, concluir que as diferenças entre homens e mulheres iniciam na constituição genética embrionária e se estendem por toda a vida. É por isso que há, no casamento, dois seres totalmente diferentes, dois amores corajosos que se esforçam para permanecer juntos e inteiros.  




Fonte: Família Cristã
Postado por: Administrador




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